NA MOSCA! #12 – Explorando o filme “Metrópolis” de Fritz Lang

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Lembram do post que eu fiz sobre o Teatro Óptico de Émile Reynaud? A dica da semana é parecida: vou indicar outro tour virtual do site da Cinemateca Francesa! Dessa vez é sobre o robô do filme “Metrópolis” (Fritz Lang, 1926).

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Como no final do filme o robô é queimado (e foi, de fato, queimado nas filmangens), só existem hoje as réplicas. Uma delas está na Cinemateca Francesa (vi outra na Deutsche Kinemathek de Berlim). O tour mostra um pouco como ela foi feita e fala também do robô original, que foram feitos pelo mesmo escultor.

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A principal diferença entre o robô do filme e as cópias é que o primeiro era uma espécie de roupa, já que a atriz Brigitte Helm tinha que caber dentro! A cópia tem um manequim por dentro, para fortalecer a estrutura.

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Mas toda essa parte do tour, apesar de interessante, não é o mais legal…

A minha dica é explorar a seção about the work, que trata da restauração do filme.

Uma cópia em 16mm, muito danificada, foi encontrada em Buenos Aires. No começo ninguém deu muita atenção a isso, mas quando a película chegou na Alemanha, os pesquisadores envolvidos na preservação do filme perceberam que se tratava de um achado valiosíssimo. O filme foi restaurado e, a partir dessa cópia, um quarto do filme foi recuperado. É como diz Paolo Cherchi Usai, um dos mais importantes pesquisadores da área: os filmes podem ser encontrados em qualquer lugar, quando menos se espera…

Vale a pena conhecer um pouco mais sobre esse caso, que nos ajuda a entender que o filme é um objeto sempre múltiplo e complexo. E que o cinema antigo, ao contrário do que muitos pensam, está em constante transformação!

O site está disponível em inglês e francês. Para acessar é só clicar aqui.

Todas as dicas da semana podem ser vistas na série na mosca.

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NA MOSCA! #11 – Europa Film Treasures

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A dica dessa semana é, como em muitas outras semanas, filmes para assistir online!

O Europa Film Treasures era o site mais legal da internet (pelo menos para mim!). Era um acervo gigantesco de filmes de cerca de 30 arquivos europeus diferentes, onde era possível pesquisar por década, gênero etc… Os filmes tinham boa qualidade e cada um era acompanhado de textinhos preciosos, cheios de informações interessantes. A parte triste é que o site, que era mantido pela Lobster Films, está fora do ar desde o ano passado.

Mas, recentemente, uma pequena parte daquele acervo maravilhoso passou a ser disponibilizado novamente em forma de curadorias semanais no site do canal de TV francês ARTE.

Na primeira semana, o tema foi viagem. Meu destaque vai para “Un voyage en aéroplane avec Wilbur Wright à Rome” (1909). Foi a primeira vez (ou uma das primeiras vezes, hehe) em que se filmou de um avião. O resultado é uma phantom ride emocionante!

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Mais sobre phantom rides aqui.

Na segunda semana, o tema foi cor. Meu destaque vai para “Le moulin maudit” (1909). Não é à toa que as cores da Pathé são tão famosas…

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Mais sobre cor aqui. Ah, já falei sobre o filme “Le Moulin maudit” neste post.

Na terceira semana, o tema foi Méliès e outros “magos” do cinema. Meu destaque vai para “L’Araignée d’or” (1909). Tem cenas muito lindas e divertidas em stop motion:

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Para ver todos os filmes, clique aqui. O site é em francês.

Estou curiosa para saber o que está reservado para as próximas semanas!

Todas as dicas da semana podem ser vistas na série na mosca.

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NA MOSCA! #10 – “A contadora de filmes”

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A indicação desta semana é o pequeno livro “A contadora de filmes” (2009) do escritor chileno Hernán Rivera Letelier, lançado no Brasil pela editora Cosac Naify.

O livro trata de um povoado de mineiros no deserto chileno do Atacama pelo olhar da menina Maria Margarida, eleita a melhor contadora de filmes de sua família. Sempre que podiam pagar, ela ia sozinha para o cinema da cidade e, quando voltava, encontrava seu pai e seus irmãos todos arrumados, prontos para assisti-la. Suas interpretações, que incluíam todas as cenas, diálogos e detalhes dos filmes, ficam famosas na vila e uma multidão passa a se reunir para vê-la.

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“A contadora de filmes”

Tudo isso é narrado pela própria menina, que se dirige ao leitor como se falasse para um público, do mesmo jeito que narrava os filmes.

É um texto simples, mas muito instigante. Quando li esse trecho, reproduzido na quarta capa, não pude resistir a comprar o livro:

Certa vez li por aí, ou vi num filme, que quando os judeus eram levados pelos alemães naqueles vagões fechados, de transportar gado – com apenas uma ranhura na parte alta para que entrasse um pouco de ar -, enquanto iam atravessando campos com cheiro de capim úmido, escolhiam o melhor narrador entre eles e, subindo-o em seus ombros, o elevavam até a ranhura para que fosse descrevendo a paisagem e contando o que via conforme o trem avançava.
Eu agora estou convencida de que entre eles deve ter havido muitos que preferiam imaginar as maravilhas contadas pelo companheiro a ter o privilégio de olhar pela ranhura.

É um livro essencialmente sobre cinefilia, mas é também o relato de diversas formas de violência, que a garota sofre por ser mulher e por ser pobre. Há poucas referências ao cinema mudo, mas ainda assim achei que seria bacana indicar aqui no blog. Através do relato de uma contadora de histórias em um povoado isolado, o livro nos faz lembrar da importância da experiência coletiva do cinema.

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A Lorota aprova!

Todas as dicas da semana podem ser vistas na série na mosca.

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NA MOSCA #9 – a lanterna mágica de “No caminho de Swann” (Marcel Proust, 1913)

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A dica dessa semana é o acervo de lanternas mágicas da Cinemateca Francesa, que possui cerca de 17 mil peças de diversos países e inúmeros temas. Parte desse repertório está disponibilizada em um site, que está dividido em quatro coleções:

Life Models – placas feitas a partir de fotografias e pintadas à mão, que surgiram em 1870 na Inglaterra;
Royal Polytechnique – uma instituição londrina do século XIX conhecida pela inigualável qualidade de suas placas feitas à mão;
Lapierre – placas de Auguste Lapierre, que fizeram muito sucesso na França do século XIX;
Plaques animées – que são placas de movimento mecânico dos séculos XVIII e XIX.

Toda a coleção vale a pena ser explorada, é claro, mas a minha dica está na seção Lapierre: são as placas descritas por Marcel Proust no primeiro volume de “Em busca do tempo perdido“, No caminho de Swann (1913). Alguns poderão se lembrar que logo no começo do livro encontramos a descrição de uma projeção de lanterna mágica dentro do quarto do protagonista. Aí vai um trecho da cena:

Todos os dias em Combray, desde o final da tarde, muito antes do momento em que deveria ir para a cama e ficar, sem dormir, longe de minha mãe e de minha avó, o quarto de dormir tornava-se o ponto fixo e doloroso de minhas preocupações. Bem se haviam lembrado, para distrair-me nas noites em que me achavam com um ar muito melancólico, de presentear-me com uma lanterna mágica, com a qual cobriam minha lâmpada, enquanto não chegava a hora de jantar; a lanterna, à maneira dos primeiros arquitetos e mestres vidraceiros da idade gótica, sobrepunha, à opacidade das paredes, impalpáveis criações, sobrenaturais aparições multicores, onde se pintavam legendas como em um vitral vacilante e efêmero. Mas com isso ainda mais crescia minha tristeza, pois a simples mudança de iluminação destruía o hábito que eu tinha de meu quarto, e graças ao qual este se me tornava suportável, descontado o suplício de ir deitar-me. Agora já não o reconhecia e sentia-me inquieto como em um quarto de hotel ou de chalé, aonde tivesse chegado pela primeira vez, ao desembarcar de um trem.

Depois disso, o narrador descreve um pouco a história de Geneviève de Brabant. Segundo a Cinemateca Francesa, as placas descritas por ele são estas:

1-2

Geneviève, filha do Duque de Brabant, se casa com o senhor Siffroy.

3-4

Mas, logo depois do casamento, Siffroy precisa ir para a guerra.

5-6

Antes de partir, ele confia seu reino ao mordomo Golo. Este tenta em vão seduzir Geneviève e, em seguida, por conta de sua recusa, ele decide jogar a moça na prisão com um filho recém-nascido, acusando-o de ser o resultado de um adultério.

7-8

Siffroy ouve a notícia e, enfurecido, ordena a morte de Geneviève e seu filho.

9-10

Mas Golo não consegue matá-los e abandona Geneviève e o bebê na floresta. Geneviève se refugia, então, em uma caverna e alimenta seu filho com o leite de uma corça. Um dia, ao sair para caçar, Siffroy persegue a mesma corça e encontra a caverna onde está Geneviève.

11-12

Siffroy entende seu erro e executa Golo. Geneviève e seu filho voltam a viver no palácio, onde levam uma vida pacífica.

Depois o narrador de “No caminho de Swann” continua:

Certamente achava eu um especial encanto naquelas brilhantes projeções que pareciam emanar de um passado merovíngio e passeavam em redor de mim tão antigos reflexos de história. Mas não posso descrever que mal-estar me causava aquela intrusão do mistério e da beleza em um quarto que eu acabara de encher com minha personalidade a ponto de não dar mais atenção a ele do que a meu próprio eu. Cessando, assim, a influência anestésica do hábito, punha-me então a pensar e a sentir: coisas tão tristes. Aquela maçaneta da porta de meu quarto, que se diferenciava para mim de todas as maçanetas de porta do mundo, pelo fato de que parecia abrir-se por si, sem que eu tivesse necessidade de torcê-la, de tal modo se me tornara inconsciente seu manejo, ei-la que servia agora de corpo astral a Golo. E assim que tocavam a sineta para o jantar, apressava-me em correr ao refeitório, onde todas as noites esparzia sua luz a grande lâmpada de teto, que nada sabia de Golo nem de Barba Azul, e que conhecia meus pais e o assado de caçarola; e caía nos braços de mamãe, a quem as desgraças de Geneviève de Brabant me tornavam mais querida, ao passo que os crimes de Golo me faziam examinar com mais escrúpulo minha própria consciência.

Ainda segundo o site da Cinemateca Francesa, a lanterna que aparece na cena seria do tipo Lampascope, que era uma lanterna mágica para projeção caseira acoplada a uma lâmpada de querosene.

lampascope

O site da Cinemateca Francesa ainda tem textos sobre história da lanterna mágica e vários links relacionados. Vale a pena clicar!

As descrições das placas foram traduzidas por mim a partir dos textos do site da Cinemateca Francesa. Os trechos do romance de Proust foram retirados da tradução de Mario Quintana.

Também postei sobre lanternas mágicas aqui.
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NA MOSCA! #8 – há cem anos, começava a guerra

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A dica dessa semana é uma mostra virtual criada pelo European Film Gateway, um portal que reúne o acervo online de diversos arquivo e cinematecas europeias. European Film and the First World War foi criada para o centenário da eclosão da Primeira Grande Guerra, em 1914, e os filmes e conteúdos foram cedidos por instituições como Cineteca di Bologna, Deutsche Kinemathek, EYE Film Institute, Cinémathèque Royale de Belgique e muitos outros.

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As diferentes seções da exposição virtual.

A mostra está dividida em sete partes, como é possível ver na imagem acima. Em cada uma delas, você encontra uma série de filmes, fotografias, textos e cartazes de época. É super fácil de navegar! E também dá para ver o conteúdo todo em uma linha do tempo, clicando em Chronology. Aí vão algumas das coisas mais interessantes que eu encontrei lá:

Da seção Film and Propaganda, a animação “Das Säugetier” (1916) é bem interessante… Uma personagem se transforma de polvo para criar uma metáfora da Inglaterra vista pelos olhos alemães. Nessa parte sobre propaganda também tem filmes sobre a resistência.

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Das Säugetier (1916, Alemanha)

Na seção At the Front estão dispoíveis algumas fotografias de Wolfgang Filzinger, um cinegrafista que escreveu um artigo para uma revista alemã de cinema em 1915 sobre as dificuldades de se filmar no front. Segundo ele, além de lidar com lentes lentas e câmeras e tripés pesados, os cinegrafistas tinham que se esconder dos inimigos e dos próprios aliados, que quando percebiam que estavam sendo focalizados se viravam para as câmeras e acenavam, tornando impossível que as imagens fossem depois consideradas autênticas. Para esperar um motivo interessante, como uma explosão de granada, por exemplo, os operadores de câmera tinham que passar longos períodos na zona de perigo… Por isso precisavam ser pessoas familiarizadas com os procedimentos militares.

wolfgang filzinger

Wolfgand Filzinger e sua câmera.

E, para terminar meus destaques, a seção Science and technical innovation mostra, entre outras coisas, as mulheres na guerra. São vídeos, fotos e textos que mostram o trabalho delas na indústria de armas.

mulheres na guerra

Então essa foi a dica da semana… E não deixem de explorar a mostra virtual European Film and the First World War!

Todas as dicas da semana podem ser vistas na série na mosca.

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