americanizando o cinema – introdução

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Quem estuda o primeiro cinema aqui no Brasil já deve conhecer o professor Richard Abel pelo menos pela publicação de seu ensaio “Os perigos da Pathé ou a americanização dos primórdios do cinema americano” no livro O Cinema e a Invenção da Vida Moderna (organizado por Leo Charney e Vanessa R. Schwartz e editado pela Cosac Naify). Acho que além dessa, não tínhamos mais nenhuma tradução de seu trabalho. (Agora temos, lançado pela própria Cinemateca no contexto do curso, o conjunto de ensaios “Americanizando o filme“, sobre o qual falarei em outro post!)

Esse texto trata justamente do tema desse curso que está sendo ministrado na Cinemateca. Por isso vou falar um pouquinho a respeito, e fica como uma introdução ao tema! Nesse ensaio, o professor Abel mostra como a Pathé Frères, essa companhia que foi a que primeiro se industrializou e dominou os mercados de diversos países do mundo, foi importante para o desenvolvimento dos nickelodeons nos Estados Unidos e para um posterior contra-ataque dos produtores americanos.

pathe_freresEm 1906, o maior mercado da Pathé não era a Europa, mas sim os nickelodeons americanos, onde seus filmes eram sinônimo de superioridade estética. Os principais motivos que Abel elenca para essa capacidade de dominação são os seguintes:

produção: a Pathé tinha três estúdios na França (as americanas Edison, Biograph e Vitagraph tinham um só cada uma) e seu esquema de produção já era “industrial”, com as “unidades de diretores”, lideradas por Ferdinand Zecca, Albert Capellani e outros, todos trabalhando ao mesmo tempo, o que permitia à companhia lançar de 3 a 6 filmes por semana (em contraste com apenas um filme por semana para as americanas na época);

distribuição: a Pathé fazia, nesse ano de 1906, cerca de 30 mil metros de cópias por dia, o que significa mais ou menos 75 cópias para cada novo título;

qualidade: os filmes da Pathé encantavam o público com as cores pintadas à mão, trucagens muito bem feitas e diferentes gêneros e durações.

Esse esquema era perfeito para os nickelodeons, que tinham programas que duravam de 15 a 20 minutos e que precisavam ser atualizados com frequência. E a forma dos filmes, com narrativas claras e pouquíssimos intertítulos, era muito atrativa para o público que frequentava essas salas, que era composto por mulheres, imigrantes e crianças (esses dois últimos não precisavam ler os intertítulos, já que eram poucos e simples). Para se ter uma ideia melhor desse sucesso, a Pathé vendia quase duas vezes mais metros de filme por ano nos EUA que todas as empresas americanas juntas!

A Pathé foi, então, a grande responsável pelo boom dos nickelodeons. Os jornais da época comentavam muito sobre a superioridade estética dos filmes, suas narrativas claras e os temas “puros e saudáveis”. Mas, no período entre 1907 e 1909, o galo vermelho começou a incomodar… A Edison tentou um acordo para passar a controlar a distribuição dos filmes franceses nos EUA; começou uma guerra de censura; várias empresas americanas reagiram. Esses empresários e a imprensa passaram a se preocupar com a formação de uma identidade norte-americana, que estava sendo obstruída por esses produtos estrangeiros, que dominavam o mercado até então. Foi nesse contexto que o filme de faroeste cresceu e serviu de poderoso instrumento ideológico e econômico para atingir esse público (mulheres, crianças e imigrantes), que seriam os futuros cidadãos americanos. A censura passou a trabalhar para que eles tivessem contato com os modelos “apropriados” de comportamento e para que não fossem expostos a valores “duvidosos”, como depravações e violência.

Cenas inteiras de filmes da Pathé passaram a ser cortadas por serem consideradas inapropriadas, como a parte do assassinato em “Le moulin maudit” (Pathé Frères, 1909):

Mais detalhes sobre tudo isso veremos nos próximos dias, já que, como eu disse, são exatamente essas as questões abordadas pelo curso que o professor Richard Abel está dando na Cinemateca Brasileira, “O advento do cinema na França e nos Estados Unidos, 1905-1914“.

***

Antes de terminar o post de hoje, gostaria de comentar rapidinho também sobre um livro de referência que mudou a minha vida: a “Encyclopedia of early cinema“, esse monstro de quase 800 páginas editado por Richard Abel. Primeiro eu ficava namorando ela lá Biblioteca da ECA, na USP. Mas depois que eu comprei a minha, meus estudos ficaram muito mais ricos. Agora, sempre que eu deparo, em outros textos, com algo que eu não conheço, eu encontro lá. Tem verbetes de vários tipos, escritos pelos maiores pesquisadores de cada área… Por exemplo: tem entradas como as que são sobre o primeiro cinema de países específicos (o do México é escrito por Aurelio de los Reyes, sobre quem já falamos aqui), ou sobre questões relativas ao desenvolvimento da forma fílmica (o do “cinema de atrações” foi feito por Tom Gunning), ou sobre personalidades da produção/exibição/etc. (sobre a Edison Manufacturing foi Charles Musser que escreveu). Enfim, são muitas e muitas páginas de textos cheios de referências sobre os temas mais diversos (inclusive do chamado “pré-cinema”), com bibliografias específicas e várias imagens. É essencial para quem se interessa por esse período da história do cinema.

bene encyclopedia

O Benê também adora a Encyclopedia! hahaha

Cruzes! Parece que eu nunca consigo chegar ao curso. Mas é que não dá pra falar dele sem contextualizar um pouco o trabalho do professor Richard Abel e a minha experiência com ele! Mas prometo que no próximo post vou comentar sobre o primeiro dia do curso, que foi na verdade um dia de duas sessões de filmes americanos de 1905 a 1912 (as aulas mesmo só começaram no segundo dia do curso). A programação completa está aqui.

Agradeço a meus companheiros Gabi e Dani pela ajuda com a foto do Benê, principalmente por terem escondido petiscos atrás do livro! :)

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