Até breve!

Estou escrevendo para avisar meus queridos leitores que estou indo viajar. De 4 a 11 de outubro estarei em Pordenone, na Itália, para acompanhar o Le Giornate del Cinema Muto, o mais importante festival de cinema silencioso do mundo!

Ano passado eu fui selecionada como parte do programa para jovens estudantes que a Giornate mantém há 16 anos. O Collegium, como é chamado, consiste basicamente em uma série de palestras sobre restauração de filmes, história do cinema mudo e outras questões ligadas ao tema. Os selecionados têm estadia de graça na cidade durante a semana do festival e depois devem escrever um texto sobre algum aspecto dessa semana super intensa, o Collegium Paper.

Depois de ir pela primeira vez como collegians, os jovens selecionados têm a oportunidade de retornar no ano seguinte como mentors. E, como eu já disse, é isso que eu vou fazer!

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Vou aproveitar para passar uma semana em Paris e depois também irei para Nova Iorque. É claro que essas viagens vão render posts para o blog. Pretendo visitar a Cinemateca Francesa, a recém-inaugurada Fondation Jérôme Seydoux-Pathé e outros lugares em que o cinema antigo é o protagonista!

Então podem esperar muitos posts sobre a Giornate e essas outras experiências em breve!

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David Robinson, diretor do festival, na abertura da edição passada: “Welcome home!”

Nem acredito que terei a oportunidade de, mais uma vez, assistir a tantos filmes incríveis e estar perto de tanta gente interessante! :)

Ah, e não vou deixar o blog abandonado durante minha ausência! Preparei alguns posts para esse período: dicas da semana e alguns comentários sobre a programação da Giornate ainda vêm por aí… Para ver todos os posts que eu já escrevi sobre a edição desse ano do festival, clique aqui.

Até breve, pessoal!

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diário da Giornate – 40 quilos de Film Fair

Diário da Giornate

Mais um post com o meu relato da Giornate del Cinema Muto deste ano! Agora vou contar um pouco sobre a Film Fair, uma feirinha que é montada todo ano dentro do teatro onde acontece o festival.

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Lá ficam à venda muitos DVDs, livros e revistas especializadas. Eram quatro stands: um com as publicações da Giornate, que era o maior e onde as coisas eram mais baratas, um de uma editora italiana de DVDs (essa que está em primeiro plano na foto acima, Ermitage), um da John Libbey Publishing, com o próprio John Libbey, que aparentemente está lá todo ano, e uma última muito curiosa, de Camillo Moscati, que vendia desde fotos antigas até brinquedos do Tarzan!

Como aqui no Brasil é bem difícil de achar publicações sobre o cinema silencioso, a Film Fair era o paraíso pra mim! Gastei todo o meu dinheiro lá, o que me rendeu muita coisa boa para ler agora, mas muitos problemas para carregar a mala no trajeto de volta para casa…

Comprei algumas revistas…

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Alguns DVDs…

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E livros sobre assuntos diversos…

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Não vou mostrar tudo porque todos me achariam louca!!! :) Eu quis aproveitar a oportunidade de ter acesso a tantos livros (com bons descontos!). Mas o peso foi realmente um problema pra mim. Na volta minha mala pesava 40 quilos e eu tive que carregar tudo sozinha pelas intermináveis escadas das estações de trem. Claro que a alça da mala quebrou e o trajeto foi uma odisseia! Mas deu tudo certo no final e o que importa é que agora eu tenho um monte de coisas novas para ler! :)

Do lado da Film Fair, ficavam alguns computadores que os convidados da Giornate podiam usar:

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Bom, por enquanto é isso! Só queria mesmo mostrar como era, hehe! No próximo post vou falar sobre a sessão de abertura do festival, que foi a exibição de “Blancanieves”, um filme silencioso contemporâneo. Rolou uma grande polêmica por causa do uso que o filme faz de touros (grande parte da estória do longa é dedicada a touradas). Explicarei tudo no próximo relato!

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diário da Giornate – a chegada do trem a estação de Pordenone

Diário da Giornate

Acabo de voltar de Pordenone! Finalmente vão começar aqui no blog os posts com os meus relatos sobre a 32a. edição da Le Giornate del Cinema Muto, o mais antigo e importante festival sobre cinema silencioso do mundo! Como eu já disse aqui, eu fui para o festival com as acomodações pagas porque fui selecionada como membro do Collegium, o programa para jovens estudantes que eles têm por lá. Hoje vou comentar só algumas poucas coisinhas. Ainda estou muito cansada – fisicamente e emocionalmente! Foi uma semana super intensa.

Não quero falar só dos filmes ou dos diálogos (como eles chamam as aulas do Collegium). Quero também compartilhar por aqui algumas experiências da viagem… Vou começar falando sobre o primeiro dia: a chegada, as acomodações, a cidade etc.

esta sou eu, logo que cheguei na estação de Pordenone

Como eu já comentei aqui no blog, estou tentando preparar um projeto de pesquisa sobre filmes de viagem, especialmente os phantom train rides e filmes do primeiro cinema relacionados a trens em geral. Aqui no Brasil não temos muitos trens como na Europa, então não estou acostumada a andar de trem! Foi uma grande emoção, pra mim, chegar em Pordenone em um trem…

Chegando na cidade, fui direto para o hotel. Os convidados do festival ficam em dois hoteis. Os convidados normais ficam no Hotel Santin (que é um pouquinho mais longe do teatro onde o festival acontece) e os importantes ficam no Hotel Moderno (que fica do lado do teatro).

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Eu dividi o quarto com Ayşe, uma jovem londrina que já tinha sido membro do Collegium no ano passado. Ou seja, ela era uma “mentor” esse ano. Depois explico melhor sobre isso. Ela tem um blog bem legal sobre Chaplin: Charlie’s London.

Depois fui para o escritório do festival para pegar minha bolsa (com catálogo, alguns brindes, meu ingresso para a sessão de abertura e meu crachá)!

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No primeiro dia eu dei uma volta pela cidade, para conhecer de verdade o lugar (já tinha andado muito no Google Street View, haha!). É uma cidade muito pequena, rica e bonita. Todas as lojas, restaurantes e cafés tinham posters da Giornate. Até os quartos do hotel são decorados com posters de edições anteriores…

vitrine de uma loja de doces com o logo da Giornate feito de chocolate!

Na próxima foto dá pra ver a praça principal da cidade. À esquerda está o escritório do festival (que não aparece, na verdade), depois tem o café/bar onde todos se encontram sempre (esses toldos na calçada), no fundo está o hotel Moderno, onde ficam alguns convidados do festival, e à direita (também não aparece), fica o teatro Verdi, onde acontecem as projeções e onde fica a Film Fair.

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E aqui o Teatro Comunale Giuseppe Verdi, a sede do festival:

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Nesse primeiro dia tivemos uma reunião fechada do Collegium (normalmente as sessões são abertas ao público interessado, mas essa primeira e a última não são divulgadas e são só para os membros do grupo). Lá estava David Robinson, o diretor do festival, e Riccardo Costantini, que cuida da parte mais organizacional do Collegium. Todos se apresentaram. Uau, gente de todo o mundo! Vou falar mais sobre isso depois, mas só para dar uma ideia: tinha gente da Índia, da França, da Inglaterra, dos Estados Unidos, da Itália, da Holanda… E além de mim tinha mais uma pessoa do Brasil, a Juliana, que trabalha com restauração.

Uma coisa legal é que o Riccardo se colocou à disposição para nos ajudar a encontrar pesquisadores e professores que quiséssemos entrevistar. Claro que já fui pedir a ajuda dele porque queria encontrar com Charles Musser e Tom Gunning. Quando eu disse isso, ele logo respondeu “bom, você sabe que eles são as duas pessoas mais importantes que estão na cidade, né?”. :)

Bom, Gunning não estava lá, mas no final das contas eu me encontrei com Musser! Mas essa estória fica para um próximo post!

Nas próximas publicações deste Diário da Giornate vou comentar as sessões de abertura e encerramento, os “diálogos” do Collegium e as coisas mais legais do festival, como as sessões de filmes mexicanos, as sessões de primeiro cinema, a sessão narrada por um benshi japonês e a estreia de “Too much Johnson” (o filme perdido de Orson Welles). E, claro, vou falar também sobre os novos amigos que fiz e os pesquisadores com quem conversei! Não vou comentar tudo porque não terminaria nunca. Mas esses tópicos foram os mais marcantes!

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até breve!

Um post curtinho só para meus poucos (e queridíssimos) leitores não se sentirem abandonados! :)

Amanhã vou viajar! Antes de chegar em Pordenone para a Giornate del Cinema Muto vou passar por Roma e Veneza. Não vou conseguir postar aqui no blog.

Mas, pelo menos de Pordenone, vou tentar postar algumas fotos e notícias do festival. De qualquer maneira, quando eu voltar, farei muuuuitos posts sobre tudo que eu vou conhecer por lá. Principalmente sobre as sessões do Collegium, que é o programa para jovens estudantes para o qual eu fui selecionada!

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O festival começa dia 5 de outubro. Dia 14 estou de volta ao Brasil.

Um beijo e até logo!

Essa moça bonita no poster da Giornate desse ano é Anny Ondra. Veremos muuuitos filmes dela por lá! Aqui nesse link dá pra acompanhar a programação.

diário da Giornate – o cinema sueco que veremos em Pordenone

Diário da Giornate

Já comentei os filmes suecos de Gustaf Molander e o de Anthony Asquith que serão exibidos na Giornate desse ano. Mas a sessão Sealed Lips é formada também por títulos de outros diretores. São eles:

— “FLICKAN I FRACK” [The girl in tails] (1926, Karin Swanström) —

Flickan i frack (1926) Filmografinr 1926/07Karin Swanström foi uma atriz sueca que participou de muitos filmes dos anos 1920 aos anos 1940. Entre 1923 e 26 ela dirigiu quatro filmes e esse parece ter sido o último. Na década de 1930 ela teve um cargo importante na Svensk Filmindistri. Lançado como The girl in tails nos EUA, o filme conta a história de uma menina que vai a um baile vestida com roupas masculinas porque seu pai não quis comprar um vestido novo para ela. A situação é, claro, um escândalo, principalmente porque ela bebe e fuma charutos.

girl in tails

Parece levantar questões interessantes sobre o cross-dressing!

— “DEN STARKASTE” [The Strongest] (1929, Alf Sjöberg, Axel Lindblom) —

Den starkaste (1929) Filmografinr 1929/04

Já vimos esse nome por aqui! Axel Lindblom é o responsável pela incrível fotografia de “A cottage on Dartmoor“. E nesse “Den Starkaste” ele assume o mesmo papel, além de dividir a direção com Alf Sjöberg, que estava dirigindo pela primeira vez. Foi um dos últimos filmes mudos suecos de importância. Parece ser um filme que tem um tom documental e grande atenção às paisagens (a história se passa na Groenlândia). Também parece ser possível identificar a influência de Eisenstein… Uau, esse promete muito!

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— “KONSTGJORDA SVENSSON” [Artificial Svensson] (1929, Gustaf Edgren) —

Konstgjorda Svensson (1929) Filmografinr 1929/03Recém restaurado, esse filme é considerado o primeiro filme sueco com som sincronizado. Esse filme parece ser um goat gland. Até esses dias eu não conhecia esse termo, mas é como eram chamados os filmes silenciosos feitos no final dos anos 1920 para os quais eram feitas algumas cenas faladas. Eram híbridos feitos para terem maior apelo para o público da época, que estava sedento por talkies, desde que “O cantor de jazz” havia sido lançado. Um exemplo incrível desse tipo de filme de transição é “Lonesome” (Pál Fejös, EUA, 1928), que foi exibido na nossa Jornada Brasileira de Cinema Silencioso em 2008.

Um dos atores do filme é Sven Garbo, o irmão mais velho de Greta Garbo!

— “RÅGENS RIKE” [The Kingdom of Rye] (1929, Ivar Johansson) —

Rågens rike (1929) Filmografinr 1929/05Sobre esse não encontrei quase nenhuma informação… Sei que o filme se passa no campo e que é baseado num poema finlandês. Ah, também vi que era um dos filmes preferidos de Ingmar Bergman… Informações super relevantes! hahaha

Ufa, tentar descobrir informações sobre esses filmes não foi fácil… E viva o Google Tradutor! ;)

diário da Giornate – mais Gustaf Molander!

Diário da Giornate

Mais um post sobre os filmes do diretor Gustaf Molander que vamos ver em outubro na Giornate! Serão quatro filmes dele na mostra sobre o cinema silencioso sueco do final dos anos 1920 e eu já comentei dois: “POLIS PAULUS’ PÅSKASMÄLL” (Pat e Patachon como policiais) e “SYND” (Pecado). Agora é a vez de “HANS ENGELSKA FRU” e FÖRSEGLADE LÄPPAR”.

Bom, na verdade eu não encontrei quase nenhuma informação sobre esses filmes… Então vou comentar rapidamente só pra não deixar passar:

Hans engelska fru (1927) Filmografinr 1927/03HANS ENGELSKA FRU” (ou, ao pé da letra, Sua esposa inglesa nos EUA foi lançado como Discord) é um filme de 1927. No New York Times, em 1928, foi publicada uma crítica ao filme, que fala mal principalmente da fotografia do filme e do trabalho dos atores. Eles também dizem que o roteiro “deve ter sido escrito por uma criança”!

Esse filme é uma co-produção Suécia-Alemanha e tem a participação da atriz alemã Lil Dagover. Essa atriz sempre foi marcada para mim como a imagem do terror expressionista, com aquele rosto pálido e as olheiras enfatizando o olhar de assombro. Ela fez filmes como “O gabinete do Dr. Caligari” (Robert Wiene, 1919), “A morte cansada” (Fritz Lang, 1921) e vários outros. Principalmente por causa da participação dela, estou super ansiosa para assistir esse!

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“A morte cansada”

Förseglade läppar (1927) Filmografinr 1927/10E, pra terminar o comentário sobre os filmes de Molander que veremos na Giornate, aquele que dá título à sessão de filmes suecos: “FÖRSEGLADE LÄPPAR” (Sealed Lips, também de 1927). Também encontrei uma crítica da época no New York Times… Eles simplesmente odiaram o filme! Comentaram coisas como “a técnica da produção é enfaticamente antiquada” e “o filme não é o tipo mais excitante de entretenimento, como se pode imaginar, mas sim um tédio”. Pelo que eu entendi, o filme é mais uma história de triângulo amoroso, em que um artista casado se apaixona por uma menina que está no convento.

Pelo que estou vendo, os filmes silenciosos suecos dessa época parecem ter tido uma péssima repercussão nos Estados Unidos, principalmente no que se refere aos modos de interpretação dos atores, que eram vistos como ultrapassados pelos americanos.

No próximo post eu vou tentar falar sobre alguns aspectos da história do cinema sueco e vou divulgar alguns links legais para assistir filmes online!

diário da Giornate – “Pecado” de Gustaf Molander

Diário da Giornate

Synd (1928) Filmografinr 1928/08Além do filme já comentado por aquiPOLIS PAULUS’ PÅSKASMÄLL” (ou, para que a gente não se perca nesses nomes difíceis, algo como Pat e Patachon como policiais), a mostra de cinema sueco da Giornate del Cinema Muto desse ano ainda vai exibir mais três longas desse mesmo diretor, Gustaf Molander. São eles “SYND” (ou Pecado), “HANS ENGELSKA FRU” e “FÖRSEGLADE LÄPPAR” (ou Sealed Lips, o título que dá nome à mostra).

Hoje vou falar um pouco sobre “SYND“, longa de 1928 cujo roteiro foi baseado em uma peça do sueco August Strindberg de 1899, “Brott och Brott” (em inglês Crime and Crime).

SYND” é a história de um triângulo amoroso. Maurice Gérard, um dramaturgo francês mal sucedido, mora com sua esposa, Jeanne, e sua filhinha, Marion. A família está passando por dificuldades, pois ninguém quer comprar as peças de Maurice. Apesar disso, sua mulher e a menininha Marion estão sempre alegres. Ela é a perfeita mocinha: carinhosa com a filha e com o marido, sensível e sonhadora…

A atriz Elissa Landi como Jeanne em "Synd"

A atriz Elissa Landi como Jeanne em “Synd”

Logo no começo do filme, já vemos algumas indicações de que uma tragédia pode acontecer. Os problemas financeiros estão fazendo o escritor ter pensamentos um tanto sombrios… Ele acaba revelando, numa situação de desespero, o desejo de que a filha não tivesse nascido, já que agora ele não tem condições de sustentar a família.

Tudo parece que vai melhorar quando um teatro aceita uma de suas peças. Henriette Mauclerc, uma bela atriz, interpretada pela francesa Gina Manès, acaba sendo escolhida para fazer o papel principal. A estreia é um sucesso e todos, mas principalmente Maurice, ficam encantados com a interpretação da moça. Ela é o completo oposto da esposa ingênua. Ela é uma mulher dominadora que se interessa pelo escritor desde o princípio e não precisa fazer muito para que ele abandone a esposa logo depois da apresentação da peça. Digo isso porque ele é um cara totalmente sem vontade, um tonto! E ela é má, essa é a verdade! (hahaha) Pra dar uma ideia de como ela é coração-gelado: ela fica bravíssima quando percebe que Maurice está vacilando em fugir com ela por causa da filha e insinua que seria melhor se a menina não existisse.

Bom, depois de duas personagens diferentes desejarem a morte da criança, passamos a esperar por esse assassinato, o que dá um pouco de suspense à trama!

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Gina Manès como Henriette em “Synd”

A esposa é a pureza, enquanto a amante é o mal. O filme só não perde totalmente o interesse porque a interpretação de Gina Manès é muito boa – a gente acaba odiando tanto essa vilã! E assim como as mulheres são opostos caricatos, o filme também tem uma visão simplória da boemia de Paris, com uma cena num café agitado, cheio de fumaça e gente extravagante. Maurice acaba se encantando por esse mundo, de hoteis caros, champanhe e glamour. Ele é aquele cara totalmente sem vontade própria, que vai sendo levado pelos encantos da fama, do dinheiro e dessa mulher sedutora.

A cena mais interessante talvez seja a que se passa na delegacia, em que Henriette e Maurice são interrogados sobre o sumiço da menininha Marion. Claro que tudo indica que eles assassinaram a menina… O legal é que várias testemunhas são ouvidas e acompanhamos suas diferentes versões em flashback.

Assim como em “A Cottage on Dartmoor“, filme que também será exibido na Giornate esse ano e sobre o qual já comentei aqui, percebi nesse longa de Gustaf Molander alguns elementos do cinema noir de anos depois: algum suspense, crime, a presença de uma espécie de femme fatale… E talvez a iluminação também tenha alguma carga expressiva no filme, mas a qualidade da imagem não me permitiu ver direito para poder comentar. Não é um filme que eu recomendaria para quem ainda não assistiu a muitos filmes silenciosos. Nesse caso, eu sugiro assistir ao “Dartmoor”, de Anthony Asquith, que é muito mais ambíguo, cheio de sutilezas e desafiador.

Espero que na Giornate eu possa ter um olhar diferente para esse filme, que hoje não me empolgou muito. Estou ansiosa para saber o que estará escrito sobre ele no catálogo desse ano, já que não encontrei nenhum texto sobre esse longa!

De qualquer maneira, não vou contar o final para não estragar a experiência de quem quiser assistir. O filme completo está disponível no Youtube:

diário da Giornate – “Pat e Patachon” na Suécia

Diário da Giornate

Mais um post sobre o cinema sueco. Vou falar sobre um dos quatro filmes do diretor Gustaf Molander que serão exibidos na edição desse ano da Giornate del Cinema Muto: “POLIS PAULUS’ PÅSKASMÄLL” [The Smugglers – e algo como “Pat e Patachon como policiais” em português, eu acho!] (1925). Os outros são “SYND” [Sin] (1928), “FÖRSEGLADE LÄPPAR” [Sealed Lips] (1927) e “HANS ENGELSKA FRU” (1927) e ficam para próximos posts.

Molander foi um dos mais importantes diretores do cinema sueco: trabalhou no cinema dos anos 1920 aos anos 60 e na década de 30 ele dirigiu 10% dos filmes suecos produzidos. Ele trabalhava num estilo hollywoodiano, com produções rápidas. Uma dessas produções foi esse longa com a dupla de comediantes Pat e Patachon.

Polis Paulus' påskasmäll (1925) Filmografinr 1925/11Pat e Patachon eram dinamarqueses e haviam sido lançados como uma dupla pelo ator e diretor Lau Lauritzen em 1921, com o filme “Film, Flirt og Forlovelse” (algo do tipo Filme, paquera e compromisso). Fy og Bi (o nome original da dupla na Dinamarca) fez muito sucesso na Europa durante os anos 1920 e eles continuaram fazendo filmes durante a década de 1930. Um era magro e alto (Carl Schenstrøm) e o outro era gordinho e baixo (Harald Madsen). Eles tiveram filmes dirigidos por diferentes realizadores e feitos em países como Dinamarca, Suécia, Inglaterra, Alemanha e Áustria. Em alguns lugares eles se chamavam O Alto e o Baixo.

Claro, não tem como não lembrar do O Gordo e o Magro, dupla que já foi citada aqui. Encontrei alguns textos que diziam que a dupla dinamarquesa tinha influenciado o surgimento dos americados, mas ambas surgiram em 1921 e, mesmo sem dados muito precisos, parece que Laurel and Hardy foram lançados antes mesmo dos europeus.

Eles não fizeram sucesso nos Estados Unidos. Existe uma história de que algum filme deles foi exibido lá para alguns figurões do cinema, entre eles, Charles Chaplin, que teria comentado ao final da sessão:

Um filme excelente. Os dois comediantes merecem louros por suas realizações, mas sua comédia não tem a ver com a mentalidade americana.

O que será que isso significa? Por que será que não emplacaram nos EUA? Não encontrei muita coisa sobre eles na internet, mas nesse trecho que achei no Youtube dá pra ter uma ideia de como era o trabalho deles:

Eles eram muito populares na Europa e chegaram a ser mais apreciados que Chaplin na Alemanha, por exemplo. Ah! E eles são os músicos bêbados que aparecem rapidinho numa das cenas mais legais do filme “A última gargalhada” (F.W. Murnau, 1924). Aí vai o trecho para relembrar:

Pesquisando sobre eles, encontrei esse trecho de um livro autobiográfico de José Saramago:

Nem tudo foram sustos nas salas de cinema aonde o garoto de calções e o cabelo cortado à escovinha podia entrar. Havia também fitas cómicas, em geral curtas, com o Charlot, o Pamplinas, o Bucha e o Estica, mas os actores de quem eu mais gostava eram o Pat e o Patachon, que hoje parece terem caído em absoluto esquecimento. Ninguém escreve sobre eles e os filmes não aparecem na televisão. Vi-os sobretudo no Cinema Animatógrafo, na Rua do Arco do Bandeira, aonde ia de vez em quando, e recordo quanto me ri numa fita em que eles (estou a vê-los neste momento) faziam de moleiros. Muito mais tarde viria saber que eram dinamarqueses e que se chamavam, o alto e magro, Carl Schenstrom, o baixo e gordo, Harald Madsen. Com estas características físicas era certo e sabido que chegaria o dia em que teriam de interpretar Dom Quixote e Sancho Pança, respectivamente. Esse dia chegou em 1926, mas eu não vi a fita.

“As pequenas memórias”, 2006

Aqui dá pra assistir um trechinho do Dom Quixote que eles fizeram!

Como eu disse, a tradução do título do longa que será exibido na Giornate seria algo como Pat e Patachon como policiais

pat e patachon como policiais

Faz lembrar os Keystone Kops e outros policiais atrapalhados de que falamos aqui e aqui, não? Mais uma vez, o cinema silencioso mostra que não tem medo de desdenhar das autoridades, tirando sarro de policiais! Mas só em outubro poderei dizer mais sobre esse longa que parece ser bem divertido…!

diário da Giornate – “Uma casa em Dartmoor”, Anthony Asquith

Diário da Giornate

A história do cinema sueco é fascinante! O pouco que conheço já me encantou. Como eu comentei em outros posts aqui no blog, a Giornate del Cinema Muto desse ano exibirá uma longa seleção de filmes silenciosos suecos do final dos anos 1920. O programa se chama Sealed Lips, que é o título de um dos filmes que serão apresentados, “FÖRSEGLADE LÄPPAR” [Sealed Lips] (Gustaf Molander, 1927).

Aí vai a seleção dos filmes que serão exibidos:

POLIS PAULUS’ PÅSKASMÄLL [The Smugglers] (1925, Gustaf Molander)
FLICKEN I FRACK (1926, Karin Swanström)
HANS ENGELSKA FRU (1927, Gustaf Molander)
FÖRSEGLADE LÄPPAR [Sealed Lips] (1927, Gustaf Molander)
SYND [Sin] (1928, Gustaf Molander)
KONSTGJORDA SVENSSON [Artificial Svensson] (1929, Gustaf Edgren)
DEN STARKASTE [The Strongest] (1929, Alf Sjöberg, Axel Lindblom)
RÅGENS RIKE [The Kingdom of Rye] (1929, Ivar Johansson)
FÅNGEN N:R 53 [A Cottage on Dartmoor] (1929, Anthony Asquith)

Vou começar comentando esse último, “A Cottage on Dartmoor” (Uma casa em Dartmoor), que é o corte sueco da co-produção Inglaterra-Suécia do diretor inglês Anthony Asquith. Esse filme já havia sido exibido na segunda edição da Jornada Brasileira de Cinema Silencioso numa sessão de cinco filmes preparada por Paolo Cherchi Usai, em que o uso da arquitetura era o fio condutor. Isso foi um repeteco da exibição feita em 2004 na Giornate, no contexto de uma sessão sobre filmes ingleses silenciosos. Agora, sendo exibido nessa sessão “Sealed Lips”, talvez a gente possa perceber relações dessa obra com os outros filmes da Suécia.

A descrição da Giornate diz que essa época do cinema sueco (final dos anos 1920) foi obscurecida pelo foco dado pela historiografia para os filmes do período precedente, a chamada “Golden Age” sueca (anos 1910), que foi quando diretores como Victor Sjöström começaram suas carreiras. Esse período posterior que será apresentado no festival é marcado pelo desejo do cinema sueco de alcançar um público internacional. Para isso, fizeram muitas co-produções, contratando atores e diretores estrangeiros, como é o caso do inglês Asquith.

Em “A Cottage on Darmoor“, a contribuição sueca está, principalmente, na fotografia de Axel Lindblom e na atuação de Uno Henning (que interpreta Joe, um barbeiro). A principal característica do filme parece ser a união das técnicas narrativas de Hollywood com alguns traços formais da vanguarda europeia. Logo na primeira cena podemos observar essa mistura. Vemos um cenário expressionista: árvores de troncos retorcidos, com seus galhos secos, pedras enormes e fumaça por todos os lados. Os gestos ofegantes de um fugitivo, que parece carregar um grande peso dentro de si, parecem se espalhar pela paisagem, que pulsa com ele. O uso expressivo do jogo entre luz e sombra também contribui para a instauração de uma atmosfera de suspense.

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“A Cottage on Dartmoor”

Mas logo essa cena é intercalada com outra, em que uma mãe e seu bebê vivem tranquilos em sua casa sem saber que aquele homem está indo em sua direção. Sem palavras, esse início mostra os principais elementos da situação: é da prisão que o homem vem fugindo e esse encontro com a moça é antecipado por uma enorme tensão. A mulher, ao se ferir com uma agulha, parece prever o terrível encontro.

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O momento anterior ao encontro

E aí somos surpreendidos por um flashback que aparece sem nenhum aviso: quando a moça vê que o fugitivo invadiu sua casa, ela grita “JOE!” e o filme corta para o mesmo Joe, de cabelo penteado, num cenário muito mais iluminado (que logo compreendemos se passar num tempo anterior) e sua resposta “Yes, Sally?”. Então vemos Sally e Joe trabalhando juntos numa barbearia e tudo faz sentido. O fugitivo e a moça se conhecem faz tempo.

Cesare e Joe

Cesare em “O gabinete do Dr. Caligari” e Joe em “A Cottage on Dartmoor”

Não me parece exagero comparar esses dois planos: a primeira aparição do sonâmbulo Cesare em “O gabinete do Dr. Caligari” e o close do rosto perturbado do fugitivo Joe em “A Cottage on Dartmoor”. O uso expressivo das sombras, os olhos arregalados e maquiados a encarar a câmera, a expressão de terror… Claro que há uma diferença importante: no primeiro tudo é mais marcado, a sombra é desenhada em volta do rosto da personagem e os olhos pretos são super fortes. No segundo vemos um dégradé de luz e a maquiagem é mais sutil.

E o flashback já começa com uma cena de ciúmes e percebemos que Joe investe na tentativa de ter um relacionamento com Sally, enquanto ela demonstra certa ambiguidade – às vezes cede, mas também se mostra interessada por um cliente. Um triângulo amoroso então se desenvolve entre o barbeiro Joe, a manicure Sally e o cliente, Harry, que acabou de comprar uma fazenda em Dartmoor.

A Cottage on Dartmoor” tem uma outra cena muito interessante que mostra bem a transição do cinema mudo para o falado. Harry convida Sally para assistir a um talkie. Joe também vai para observar o encontro dos dois às escondidas. Em nenhum momento vemos as imagens que são projetadas na tela. Acompanhamos somente os rostos dos espectadores na plateia e a orquestra que faz o acompanhamento musical do filme. As pessoas conversam enquanto assistem e a cena tem uma montagem frenética mostrando as diferentes reações do público. É bem engraçado o momento em que um menino repara que o homem sentado a seu lado se parece muito com a personagem do filme…

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Com esses óculos, já dá pra imaginar de quem é o filme que está sendo exibido. Claro, Harold Lloyd! Achei interessante essa cena porque muito se fala sobre a personagem de Lloyd, que é sempre um cara “normal”, sem as características grotescas de outros comediantes da época, alguém com quem o público poderia se identificar facilmente. E o menino reconhecer um homem parecido com ele, com os mesmos óculos redondos, mostra que isso estava mesmo presente no imaginário da época!

Logo em seguida vemos uma propaganda impressa da sessão, que mostra que o filme exibido é “My Woman”, ‘precedido por Harold Lloyd’ e tudo se confirma. Esse longa, que parece ser um título fictício (pelo menos não encontrei nenhum registro de que o filme exista de verdade), é o tal talkie a que eles foram assistir! Uma senhora não consegue escutar, o homem dos óculos redondos sai da sala, outro dorme… Os músicos da orquestra param de tocar e passam a beber e jogar cartas. Está clara a posição de Asquith em relação ao filme sonoro: parece que, para ele, pelo menos nessa época, o cinema perde a vida que tinha quando ainda era a arte do silêncio.

O filme pode ser visto inteiro no Youtube:

 Vale muito a pena assistir… Pelos planos com ângulos de câmera inusitados que sempre dizem algo sobre as personagens, pela iluminação expressionista, pelas atuações ambíguas, pela forma como trata o cinema falado… Pela trama, que parece ter inspirado o cinema noir… E, principalmente, pelo suspense que é construído com pouquíssimos intertítulos e com uma montagem muitas vezes simbólica.

diário da Giornate – a jornada

Diário da Giornate

Estou começando a olhar para o cinema silencioso sueco, já que a Giornate desse ano exibirá alguns filmes da Suécia do final dos anos 1920.

Lendo os catálogos das edições passadas da Jornada Brasileira de Cinema Silencioso, organizada pela Cinemateca Brasileira desde 2007 (que foi lamentavelmente cancelada esse ano devido às crises políticas da instituição), encontrei um trecho que me emocionou. Na segunda edição do evento, que é filhote da Giornate, começaram as sessões “Destaques de Pordenone“. Para apresentar a parceria, Livio Jacob e David Robinson (presidente e diretor da Giornate) escreveram um texto para o catálogo falando sobre a história do evento de Pordenone e sobre os filmes escolhidos para a projeção no Brasil. Aí vai um trecho:

A [exibição da] obra-prima de Victor Sjöström, “Berg-Ejvind och hans hustru” (Os proscritos), é uma homenagem à legendária retrospectiva sobre o cinema nórdico anterior a 1918, organizada em Pordenone em 1986. Legendária porque até as cinematecas ainda se lembram dela: os nossos colegas das cinematecas de Estocolmo, Helsinque, Copenhague e Oslo supunham que se tratava da habitual seleção de dez ou vinte títulos representativos. “Bem, quantos filmes vocês querem exibir nas Giornate?” Nossa resposta foi que queríamos exibir todos, sem distinção de autoria ou de qualidade real ou suposta. Isso nunca tinha acontecido antes. Esse gesto estratégico tornou-se uma espécie de manifesto das Giornate, o reflexo do desejo de mostrar a história do cinema por aquilo que ela é e não por aquilo que gostaríamos que fosse.

É por isso que a Giornate del Cinema Muto é tão essencial para a pesquisa do cinema silencioso. Porque eles querem ver a história do cinema com olhos livres, porque têm interesse em compreender de fato as contradições do período, sem se prender aos caminhos mais curtos e já conhecidos. Não é à toa que são jornadas, com todos os obstáculos que podem aparecer pelo caminho.

Ainda não posso dizer nada sobre esse assunto, o cinema silencioso sueco, pois conheço muito pouco, quase nada. Mas a minha viagem já começou…

diário da Giornate – cine y verdad

Diário da Giornate

Enquanto esperamos a divulgação oficial da Giornate del Cinema Muto sobre os filmes mexicanos que serão exibidos esse ano, vou falar mais um pouquinho sobre os primeiros tempos do cinema no México.

Segundo Aurelio de los Reyes, o mais importante pesquisador do cinema mexicano silencioso e curador da parte mexicana da programação da Giornate, o Cinematógrafo foi muito associado à ideia de verdade. Principalmente na virada do século, quando o cinema estava começando a se espalhar pelo país, os jornalistas locais se referiam muito à capacidade do cinema de ser uma espécie de olho justo e preciso a que nada escapava e que registrava a realidade.

O cinema, portanto, foi comumente visto como uma forma de registrar a história, sem alterações, sem a manipulação de interesses conflitantes. Os intelectuais da época comentaram essa crença com frequência, tanto em relação aos “grandes feitos de homens importantes” como aos “pequenos feitos da vida cotidiana“.

No periódico “La Semana” de 20 de março de 1898, o jornalista Amado Nervo nos dá um exemplo:

Este espetáculo sugere o que será a história no futuro; não haverá mais livros; o fonógrafo guardará em sua caixa preta as velhas vozes extintas; o cinematógrafo reproduzirá as vidas de prestígio… Nossos netos verão os nossos generais, os intelectuais, os nossos mártires e nossas resplandecentes mulheres com suas cabeleiras douradas… Oh, se nós tivéssemos podido reconstruir assim todas as épocas, se graças a um aparato pudéssemos ver o imenso desfile dos séculos… Como de uma estrela, assistir à marcha formidável dos mortais através dos tempos…

Outro exemplo interessante podemos ver nesse trecho escrito por José Juan Tablada, no jornal “El Universal”, de 12 de dezembro de 1896:

Sonho realizável para um herói que, em vez de ter um álbum de fotos onde as imagens empalidecem como os cadáveres nos caixões, teria um cinematógrafo e, quando quisesse viajar pelo passado e submergir na profunda vida das recordações, poderia contemplar o andar pausado da mãe já desaparecida, os movimentos gentis da namorada morta enquanto o fonógrafo derramaria em seu ouvido o belo tom das frases maternais e o ritmo apaixonado dos juramentos de amor!

Essa capacidade de “reproduzir a verdade” parece ter sido de fato a mais explorada pelo cinema mexicano dos primeiros tempos. Até 1900 apenas um filme encenado foi feito, “Duelo a pistola”, a reconstituição de um duelo entre dois deputados, um dos quais foi morto da briga. Esse filme recebeu muitos comentários negativos dos jornalistas por ser um “desrespeito”, principalmente com quem assistisse sem saber se era o registro verdadeiro ou uma encenação.

Não posso dizer com certeza, mas me parece que o filme é esse aqui:

Todos os outros filmes feitos nessa época, pelo que parece, foram registros de solenidades públicas, viagens do general Porfírio Díaz etc., o que indica que realizadores e imprensa estavam unidos na exploração do cinematógrafo como instrumento de documentação histórica. Principalmente aquela história dos “grandes feitos” dos homens do poder.

(Retirei as informações para escrever esse post no livro “Los orígenes del cine en México (1896-1900)” de Aurelio de los Reyes, páginas 104-114.)

diário da Giornate – mudos do século XXI

Diário da Giornate

Hoje vou falar um pouquinho sobre um filme silencioso contemporâneo, que será exibido na Giornate del Cinema Muto desse ano.

Lago di Seta” (Renée George, Estados Unidos/Itália, 2013) é o segundo curta de uma série que será depois montada para formar o longa “7 short films about love“. O primeiro da série, “Le petit nuage” (Renée George, 2012), que se passava na França, foi exibido em Pordenone no ano passado. “Lago di Seta” se passa no Lago di Como, que fica no norte da Itália, bem perto da fronteira com a Suíça. Cada filme será feito em um país diferente e o terceiro, que já foi gravado, foi feito no Japão.

Aí vai trailer, que já dá uma ideia do que se trata:

Vou assumir: eu tenho um grande ‘pé atrás’ com filmes mudos contemporâneos, que aumentou muito depois de assistir ao “O Artista“… Bom, o caso é que a diretora desses curtas, Renée George, trabalhou (na equipe de luz) justamente em “O Artista”, que é aquele filme mudo em preto e branco que faz uma “homenagem” ao cinema de Hollywood dos anos 1920. Aquele filme que faz uma caricatura infantil do cinema silencioso. Aquele filme que, na minha opinião, presta um desserviço à pesquisa sobre o cinema dos primeiros tempos porque ajuda a fixar preconceitos que há muitos anos vêm sendo combatidos. Um filme feito por pessoas que parecem nunca ter visto um filme silencioso; um filme que só reproduz a imagem publicitária dos filmes mudos. Enfim, um filme que se fantasia com adereços exagerados e totalmente vazios de significado!

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“O Artista” e sua chuva de caretas

Ainda preciso escrever um texto aqui no blog sobre esse filme, que parece ter contribuído, apesar de tudo, para um crescimento do interesse de jovens pelo cinema silencioso. Assim como também quero escrever sobre “A invenção de Hugo Cabret“, o lindo longa de Scorsese que, esse sim, homenageia com respeito e verdade o cinema dos primeiros tempos, sem tentar se passar pelo que não é!

A diretora do curta que será exibido em Pordenone, Renée George, não só elogia “O Artista” como também se diz inspirada pela experiência de trabalhar no filme (nessa entrevista). Pelo que eu entendi, ela resolveu fazer cada curta em um país diferente porque gosta de viajar. E resolveu fazer vários curtas e montar tudo num único longa porque quer ser uma diretora de filmes longos e não uma diretora de curtas. Não quero falar mal antes mesmo de assistir ao filme, mas me parece um projeto vaidoso com filmes bonitinhos e vazios.

Apesar de ter ouvido falar que os filmes dela caminham em outra direção, que não são o pastiche que é “O Artista”, é difícil negar minha desconfiança… Ainda mais depois de assistir ao trailer e saber esses detalhes sobre a produção.

Mas… Só em outubro, depois de assistir ao curta inteiro, poderei falar mais a respeito! Depois eu volto com um post sobre outro filme mudo contemporâneo que será exibido esse ano na Giornate, “Blancanieves” (Pablo Berger, Espanha, 2012), que parece ser muito mais interessante!

diário da Giornate – uma crônica cinematográfica de 1897

Diário da Giornate

Pesquisando sobre o cinema silencioso mexicano, já que alguns filmes sobre a revolução mexicana serão exibidos na Giornate del Cinema Muto desse ano, achei o livro “Los orígenes del cine en México (1896-1900)” de Aurelio de los Reyes. Que sorte encontrar esse livro na biblioteca da minha faculdade! É uma das primeiras obra de De los Reyes que, como eu já comentei, é o principal estudioso sobre o período mudo do cinema do México. A principal fonte de pesquisa do livro são os jornais da época, já que a grande maioria dos filmes se perderam e, no tempo em que ele escreveu (1972), o acesso aos filmes sobreviventes era ainda mais difícil que hoje.

Minha ilustração favorita do livro de Aurelio de los Reyes!

Minha ilustração favorita do livro de Aurelio de los Reyes!

No final do livro há um apêndice com documentos da época, trechos de notícias e reportagens relacionadas ao cinema dos primeiros tempos no México. Um texto que me chamou a atenção foi uma “crônica cinematográfica” publicada no jornal El Mundo (Ilustrado) em 28 de novembro de 1897.

É como uma vista da cidade, com especial atenção para seu movimento.

Reproduzo aqui uma tradução minha da crônica:

Cansado de rever os jornais, ávido pelas notícias, e de encontrar neles versos e contos de meus amigos distantes, abandono meu assento e me acotovelo na sacada de meu quarto de trabalho. Não estou com vontade de conversar com meus amigos no clube, sobre casas ligeiras e alegres, mulheres mundanas ou cavalos de corrida, sua eterna conversa, e me entrego a observar a rua, iluminada debilmente pela luz melancólica do gás. São nove da noite.
E aí, na varanda, cotovelos no parapeito, vão desfilando diante de meus olhos indiferentes e ociosos:
Primeiro um mocinho elegante que caminha apressado – talvez para um encontro de amor -, e que ao andar vai se olhando em sua sombra. Atrás dele, a alguns passos, duas lindas senhoritas passeiam, de braços dados, com as adoráveis cabecinhas cobertas e aprisionando suas finíssimas silhuetas em primorosos jerseys. Falam com entusiasmo e de vez em quando suas risadas cristalinas, frescas e mal contidas, chegam a meus ouvidos. Um jovem com o chapéu na mão se aproxima para falar com elas, mas um carro que nesse momento atravessa a rua me impede de ouvir suas palavras. Pela portinhola, alguém que não conheço acena com a mão e grita para mim – “Adeus, Marius” – saudação a que não respondo porque, quando quero fazê-lo, o carro já está longe. Depois, alguns ladrõezinhos passam correndo e com tal velocidade que não vêem em um enorme cachorro de Terranova, que dorme ao longo da vereda, e caem em cima do inofensivo animal; afastam-se às gargalhadas.
Uns passinhos ligeiros e miúdos ao lado de outros mais firmes e sossegados me fazem pulsar o coração com violência e virar rapidamente a cabeça. É ela, minha amada, clara e elegante, que passa esquiva, orgulhosa, falando com sua mãe e que não olharia por nada para minha varanda porque de longe já havia me avistado.
E eu, de cotovelos no parapeito, a mão direita escondida em meu desordenado penteado, enquanto a esquerda me oprime nervosamente a palavra, fico observando até perde-la de vista…
Da sacada entreaberta da casa vizinha escapam muitas notas vibrantes de uma valsa caprichosa e aristocrática – a mesma que dançava com ela quando declarei meu amor -, e uma revoada de pássaros brancos, as Lembranças, vêm cantarolar em minha alma, onde uma semínima, a Tristeza, agita desesperadamente as ondas…

É interessante notar a convivência entre elementos modernos (como carros, velocidade, pressa e o próprio ato de observar a cidade através de uma janela) e elementos que mostram o lado arcaico da cidade mexicana da época (luz a gás, o amor romântico). Isso parece apontar para a coexistência dos aspectos pré-modernos e modernos que sabemos existir na história dos países periféricos. Elementos que se sucederam nos países centrais, conviveram em simultaneidade por nossas bandas. 

Parece que essa crônica fazia parte de uma série, como uma coluna publicada com uma certa periodicidade. No livro “Los orígenes del cine en México (1896-1900)” o texto está assinado por José M. Barreto, mas parece que na época as crônicas eram assinadas por Lumière e intituladas de Cinematógrafo, o que estreita ainda mais a relação com o cinema.

diário da Giornate – tateando o cinema silencioso mexicano…

Diário da GiornateVoltando à série de posts sobre a programação da Giornate del Cinema Muto desse ano: cinema silencioso mexicano!

Uma das atrações da Giornate de 2013 será a primeira parte do “The Mexico Project“, com curadoria do historiador de cinema mexicano Aurelio de los Reyes. Os filmes ainda não foram anunciados, mas pelo que foi divulgado até agora, sabemos que serão documentos relativos à revolução mexicana com heróis da luta armada como Emiliano Zapata e Francisco (Pancho) Villa.

Pesquisar o cinema silencioso de cinematografias periféricas como a mexicana (e também a brasileira!) é uma aventura. Pouquíssimos filmes sobreviveram e menos ainda estão disponíveis online. São poucas as fontes escritas – e muitas vezes encontramos informações que se contradizem, o que atrapalha muito a tentativa de compreender o período. Estou, como coloquei no título do post, realmente tateando esse assunto pelas bordas… Se o próprio cinema mexicano canônico e contemporâneo é pouco conhecido aqui no Brasil, imaginem o cinema silencioso!

Sobre o começo do cinema: descobri que, como em outros países do mundo, foram enviados pelos Lumière dois cinematografistas, que chegaram ao México em julho 1896. No dia 5 de agosto, eles fizeram uma primeira apresentação do Cinematógrafo para o General Porfírio Díaz, sua família e alguns amigos próximos. Eles gostaram tanto dos filmes que passaram quase a noite inteira assistindo várias vezes! Em 14 de agosto de 1896 foi feita a primeira projeção pública, pelos mesmos enviados franceses, sem acompanhamento musical. Intelectuais da época comentaram sobre o realismo do movimento das imagens e sentiram falta das cores, como no clássico relato de Máximo Gorki. Alguns acreditaram que o cinema, no futuro, substituiria os livros. Logo depois, muitas cenas da vida pública mexicana foram filmadas pelos enviados dos Lumière, como festas populares e eventos políticos.

A sociedade mexicana da época ainda era predominantemente agrária. E a elite, que viu no cinema um aparato científico de modernização, fez de tudo para aumentar o preço dos ingressos para que a gente pobre não tivesse acesso à novidade.

As primeiras salas de cinema apareceram no centro comercial da Cidade do México, mas logo se espalharam pelas regiões mais pobres. E, no começo do século, ambulantes levaram o cinema para o campo. Mostravam filmes de Méliès, Porter e outros.

Encontrei também algumas outras coisas legais. Aí vão:

* “La vida en México: 18 Lustros” (série de documentários feita com imagens de arquivo sobre a vida no México durante o século XX)

O primeiro episódio da série, “Lustro 1: y cuando el cine llegó, 1900-1904“, dirigido por Aurelio de los Reyes, é uma ótima introdução ao cinema mexicano dos primeiros tempos. Foi deste filme que eu tirei a maior parte das informações deste post. Todos os episódios estão disponíveis aqui nesse link, no site da Filmoteca UNAM, o órgão responsável pelas restaurações que serão exibidas em Pordenone.

* “El automóvil gris” (filme de Enrique Rosas, 1919)

Foi uma série de 12 episódios que contava a história verídica de um bando de ladrões de jóias que atuou na Cidade do México em 1915. O filme foi feito em locações por onde passaram os verdadeiros bandidos e tem até uma cena documental do fuzilamento de alguns deles, feita pelo próprio diretor do filme alguns anos antes.

Dá pra assistir na internet algumas compilações de trechos, com uma sonorização (que inclui uma dublagem super estranha feita nos anos 1950), mas a série completa parece que está em processo de restauração. Esse post do blog Cine Silente Mexicano tem informações bem legais sobre o filme.

* Três filmes silenciosos para assistir online

Também no site da Filmoteca UNAM estão disponíveis três obras do cinema silencioso mexicano de ficção: “Tepeyac” (Carlos E. Gonzáles, José Manuel Ramos e Fernando Sáyago, 1917), uma série que mistura ficção e imagens documentais sobre religião, “El puño de hierro” (Gabriel García Moreno, 1927) um longa dividido em 5 capítulos (que foi inclusive exibido na segunda edição da Jornada Brasileira de Cinema Silencioso aqui em São Paulo, em 2008)…

…e “El tren fantasma” (Gabriel García Moreno, 1926)

Um longa sobre o engenheiro Adolfo Mariel, que vai para Orizaba investigar as irregularidades numa companhia ferroviária. Logo ele se apaixona por Elena, filha de um funcionário da companhia. Mas Paco “El Rubí”, chefe de um bando de bandidos, está comandando diversos crimes na cidade. Em determinado ponto do filme, os bandidos sequestram Elena. São cenas impressionantes. O mocinho, Adolfo, luta com um dos bandidos na parte externa de um trem em movimento! Muito emocionante!

As cenas do salvamento de Elena são as melhores do filme. Adolfo corre à cavalo ao lado do trem onde ela está presa, que está descontrolado! Ele pula do cavalo para o trem, os dois ficam juntos, mas ainda em grande perigo. Depois o trem sai dos trilhos em uma ponte e cai em um rio. É usada uma maquete para esse plano. Mas, claro, os dois se salvam e se casam no final! São também muito bonitos outros planos tomados de trens em movimento e bem interessantes as imagens documentais de uma tourada. O filme tem perseguição, tiroteio, violência, sedução (hahaha)… Vale a pena.

El tren fantasma

Luta entre Adolfo e um dos bandidos em um trem em movimento em “El tren fantasma” (1926)

***

Agradeço ao meu novo amigo mexicano Cesar de la Rosa, também selecionado para o Collegium desse ano, pela generosidade em me ajudar e por todas as dicas sobre o cinema do México! :)

Espero que a divulgação de mais informações sobre os filmes que serão exibidos na Giornate não demore muito!

diário da Giornate – a perseguição em “Too much Johnson”

Diário da Giornate

Como eu disse no post anterior, o filme recém redescoberto de Orson Welles, “Too much Johnson” (1938), será exibido em primeira mão na Giornate del Cinema Muto desse ano, no dia 9 de outubro!

Não sabemos muito sobre o filme, além das informações que já postei… É uma comédia pastelão silenciosa, mas isso não explica muita coisa, né? Vou tentar encontrar mais detalhes enquanto não podemos assistir ao filme de verdade. Na notícia que saiu no New York Times tem uma descrição mais ou menos assim sobre o primeiro curta (são três; cada um abriria um ato da peça, como eu já disse):

O primeiro (e mais completo na cópia redescoberta) era uma perseguição através do baixo Manhattan filmada no estilo de uma comédia silenciosa, com perseguidores do tipo dos Keystone Kops, uma manifestação sufragista para ultrapassar e Cotten [um dos atores] cambaleando à beira de um arranha-céu, como Harold Lloyd em “Safety Last!”

Uau! Temos aí alguns elementos bem característicos das comédias mudas do tipo slapstick! Sobre Harold Lloyd já comentamos bastante por aqui, por exemplo nesse post! Mas podemos olhar mais de perto para essa outra referência, os atrapalhados policiais da Keystone

Cena de "Too much Johnson" de Orson Welles

Cena de “Too much Johnson” de Orson Welles que faz referência aos filmes dos Keystone Kops

Foi no estúdio da Keystone, fundado por Mack Sennett, que surgiram sucessos da comédia pastelão, como os Keystone Kops e ninguém menos que Charlie Chaplin! Os Keystone Kops (ou cops) eram policiais totalmente estabanados, que se envolviam em perseguições cheias de tropeços. Esses bigodudos desgrenhados nos mostram, hoje, como era banalizada a ridicularização das autoridades durante os anos 1910… Eles eram totalmente ineficientes e confusos!

Os Keystone Kops em ação

Os Keystone Kops em ação

Os Keystone Kops surgiram em 1912 (ou 13!) e um dos primeiros (ou o primeiro) filme deles foi “The Bangville Police”. Para começar a se familiarizar com a trupe, aí vai ele:
Uma curiosidade: em 2010, o pesquisador Paul Gierucki comprou um filme em uma feira de antiguidades. A lata dizia “Keystone” e ele pensou ser mais um filme dos famosos Kops. Mas quando assistiu, reconheceu Charlie Chaplin como um dos policiais! Chaplin já havia dito (em sua biografia, por exemplo), que tinha atuado em alguns filmes dos Kops, mas parece que não tínhamos acesso a nenhum! Agora, com o DVD Chaplin at Keystone, é possível assistir a esse filme redescoberto…
Chaplin como um dos Keystone Kops em "The Thief Catcher" (1914)

Chaplin como um dos Keystone Kops em “The Thief Catcher” (1914)

Interessante saber que o filme de Welles não é só um filme sem som sincronizado. Muito mais massa que isso, a obra é um filme mudo no sentido de que sua linguagem remete ao cinema antigo em vários sentidos, inclusive com referências à artistas específicos. Não vejo a hora de poder assistir! :)

PS: Pelas informações sobre o filme em que Chaplin atua como um Keystone Kop, agradeço ao blog Chaplin at Keystone, do meu novo colega Jonny, que estará em Pordenone este ano também como membro do Collegium!

diário da Giornate – “Too much Johnson” redescoberto!

Diário da Giornate

O mundo da preservação audiovisual recebeu na semana passada uma notícia muito especial. Foi encontrado em um depósito de – olha que coincidência – Pordenone, na Itália, um filme de Orson Welles que era considerado perdido. Too much Johnson (1938) era originalmente um conjunto de 3 curtas que Welles pretendia usar para abrir cada um dos 3 atos de uma peça homônima que ele estava produzindo no Mercury Theater, um teatro em Nova Iorque que ele fundou em 37. A peça era uma encenação de uma farsa de 1894 de William Gillette. O teatro não tinha a estrutura necessária para exibir filmes, então a peça estreou sem os prólogos e os curtas ficaram inacabados, sem nunca terem sido exibidos.

Paolo Cherchi Usai, co-fundador da Giornate del Cinema Muto de Pordenone e Curador Sênior na George Eastman House, em Nova Iorque, supervisionou o projeto de restauração do filme. Sobre a descoberta, ele disse:

Essa é de longe a restauração mais importante da George Eastman House em muito tempo. Ter em mãos a mesma cópia que havia sido pessoalmente editada por Orson Welles há 75 anos provoca uma emoção que é simplesmente indescritível.

Pamela Hutchinson, do blog Silent London, entrevistou Usai para o jornal The Guardian, vale a pena ler.

É muito louco pensar que o filme passou tanto tempo esquecido em algum canto de Pordenone, justamente uma das cidades mais importantes do mundo para a preservação do cinema silencioso! Uma cena das filmagens disponível nesse link mostra um pouco do que vem por aí.

Too much Johnson

Esse vídeo, lançado pela George Eastman House, mostra um pouco do processo de restauração do filme, é demais:

Poucos sabem que antes de “Cidadão Kane” (1941) Welles já tinha feito dois filmes. Esse que acabou de ser redescoberto foi o segundo de sua carreira. O primeiro, “The hearts of age” (1934) está disponível online. Aí vai:

Nessa história toda, a notícia que mais me interessa é que a grande estreia de “Too much Johnson” será na Giornate desse ano. Claro, não há melhor lugar para esse evento especial que a cidade do maior festival de cinema silencioso do mundo que, por um mistério ainda não desvendado, foi onde o filme apareceu! A sessão será no dia 9 de outubro e eu estarei lá para presenciar esse momento tão importante! E a ansiedade só aumenta… :)

diário da Giornate – “the freshman”

Diário da Giornate

Voltando à série de posts de preparação para a Giornate del Cinema Muto de 2013…

lonesome luke harold lloydComo eu disse nos posts anteriores, o ator Harold Lloyd conheceu o produtor Hal Roach (o mesmo que lançou “O Gordo e o Magro” e a série “Our gang”, tema deste post) logo no começo de sua carreira, quando ambos ainda trabalhavam como figurantes. Quando Roach recebeu uma herança e decidiu montar seu próprio estúdio, a Rolin Film Company, em 1913, Lloyd foi trabalhar com ele e criou suas primeiras personagens, como Willie Work e Lonesome Luke. Nessa primeira fase de sua carreira, como muitos outros comediantes da época, sua maior inspiração foi Chaplin. Mesmo quando tentava construir uma imagem oposta a ele, como dá pra ver nesse poster de Lonesome Luke ao lado, a referência ao vagabundo é clara: em vez do bigodinho logo abaixo do nariz, dois tufos separados; em vez das roupas largas, essas calças justas e curtas. O paletó apertado mal fecha os botões…

Aqui podemos ver uma comédia dessa época, “Lonesome Luke: The cinema director” (ou “Luke’s Movie Muddle”, de 1916):

Escolhi esse filme para colocar aqui (não só por ser um dos poucos que encontrei online dessa fase da carreira de Lloyd), mas porque me chamou muito a atenção. Lloyd trabalha em uma sala de cinema praticamente sozinho: ele vende os ingressos na bilheteria, recolhe logo em seguida na entrada da sala, tem o papel de lanterninha e ainda quer paquerar as espectadoras enquanto a sessão não começa. Além dele, só participam do quadro de funcionários da sala um desastrado projecionista, que acaba se enrolando todo na película e atrasando o filme, e um pianista, que faz o acompanhamento musical! É claro que o filme é uma comédia pastelão, não tem o objetivo de ser fiel à realidade, mas com certeza nos dá uma ideia de como eram as salas de cinema da época. Podemos ver, por exemplo, que uma prática tão comum nos primeiros anos do cinema como falar durante a projeção vira motivo de piada e recriminação do lanterninha, que quer calar a boca das senhoras que insistem em conversar. Muito já havia mudado na forma dos filmes e no modo de vê-los!

Depois de ter alguns problemas com o produtor Roach, trabalhar com Mack Sennett e voltar para a companhia do primeiro, com quem, apesar das brigas, tinha uma relação muito especial, ele criou sua própria produtora, a Harold Lloyd Corporation. Até o começo dos anos 1920, seus filmes tinham muita ação física, mas a partir dessa nova fase, além de passar a produzir filmes de longa metragem, ele passou a dar mais atenção à personagem e as gags (que antes recheavam os filmes de ponta a ponta) diminuíram. Ele foi, então, criando essa personagem que é um cara normal, um pouco desajeitado e distraído.

É dessa nova fase o filme que será exibido na sessão de encerramento da Giornate del Cinema Muto desse ano, “The Freshman” (1925). Esse eu ainda não consegui assistir, mas parece genial. No site da Giornate tem uma citação de Kevin Brownlow que está me deixando muito ansiosa:

[The Freshman é] um épico do embaraço!

Nesse link tem um trechinho que dá uma dica do que ele está falando!

CarlDavisO filme, que foi o maior sucesso de Lloyd na época, terá um novo acompanhamento musical criado por Carl Davis e executado pela FVG Mitteleuropa Orchestra. Davis é um compositor e regente que já trabalhou com muitos filmes silenciosos, incluindo “Napoléon” (Abel Gance, 1927), “Intolerância” (D. W. Griffith, 1916) e filmes de Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd, entre outros. Ouvindo a trilha que ele fez pro filme “A General“, de Buster Keaton, dá pra ter uma ideia do trabalho dele.

Para saber mais sobre Harold Lloyd e ver vários trechos de seus filmes (inclusive “The Freshman”), recomendo o documentário “Harold Lloyd: the third genius” (1989), de Kevin Brownlow, que está disponível online (é só clicar no título)! Vale a pena assistir, são várias entrevistas com figuras como Hal Roach, Mildred Davis e o próprio Lloyd. E a música foi feita por… Carl Davis! ;)

Aquela explicação que está nos extras do blu-ray de Safety Last! (que eu comentei nesse post) já tinha sido mostrada nesse documentário! Dá pra ver, inclusive, que ele usou a mesma técnica em outros filmes da época, que eram chamados de thrill pictures, como “High & Dizzy“.

Woman faints as Lloyd pulls rare thriller

Notícia da época sobre “Safety Last!” (1923)

***

Para terminar, uma frase do produtor Hal Roach sobre Lloyd:

Harold Lloyd não era um comediante, mas foi o melhor ator para representar um comediante que eu já vi

Acho que vale a pena pensar sobre o que isso significa… É uma frase irônica, claro. Todos sabemos que Lloyd era, sim, um comediante. Mas a ideia de ele que representava um comediante cria uma nova camada de sentido para sua personagem. Inclusive se lembrarmos que em vários de seus filmes ele aparece como the boy, sendo muitas vezes referido pelo próprio nome, Harold, ou mesmo Harold Lloyd. Não é à toa que ele não tinha uma forma de andar característica, por exemplo, como a de Chaplin, ou roupas excêntricas. É como se o próprio ator estivesse exposto, de certa forma…

diário da Giornate – “our gang”

Diário da Giornate

Começando a série de posts de preparação para a Giornate del Cinema Muto deste ano, vou falar um pouco sobre a sessão de Eventos Especiais, que terá a exibição de alguns filmes com novas trilhas sonoras. Dois deles são de uma mesma “família”:

No noise” (Hal Roach, 1923) com música ao vivo da Orchestra Scuola Media “Leonardo da Vinci” di Cordenons

Crazy house” (Hal Roach, 1928) com música ao vivo da Orchestra Scuola Media “Centro Storico” di Pordenone

Os dois curtas fazem parte da série Our Gang (também conhecida como The Little Rascals), que foi uma série americana de comédia que fez enorme sucesso na época. Os atores principais eram todos crianças bem jovens (alguns ainda nem frequentavam a escola!) que representavam amigos de vizinhança. A série foi produzida de 1922 a 1944! A graça dos filmes está no carisma (e caretas) das crianças, nas situações de mal entendidos e em outras situações absurdas.

our gang

No começo os filmes eram produzidos pelo estúdio do americano Hal Roach e distribuídos pela Pathé, como é o caso de “No noise”. A partir de 1927, os curtas passaram a ter a MGM como distribuidora – é dessa segunda fase o curta “Crazy house”. Depois de 1929 a série entrou na era dos filmes sonoros e continuou o grande sucesso. Em 38 Roach vendeu a série para a MGM, que continuou a produção até 44. Foram mais de 200 filmes produzidos e depois a série ainda voltou nos anos 1950 na TV. Aqui nesse link dá pra ver os títulos e datas de todos os episódios da série.

Assisti a alguns curtas da série, entre eles “Saturday Morning” (1922), o quinto episódio. Ele aparece no Youtube como “Hurrah for the Holydays!” e parece que não é a versão original: algumas cenas iniciais e intertítulos foram cortados.

Achei bem interessante em primeiro lugar pela atuação das criancas. A série foi famosa por mostrar uma interpretação verossímil, “realista” (já que naquela época as crianças eram maquiadas para se parecerem com adultos e raramente contracenavam com outras crianças). Mas o que me chamou atenção na atuação das crianças (e em outros elementos do filme, como a escolha por alguns closes específicos) foi justamente a ênfase na atração. São comédias que focam bastante o corpo das personagens e suas caretas em primeiro plano. O filme tem vários momentos em que se dedica aos animaizinhos com que as crianças brincam (sapos e filhotinhos de gatos e de patos) e a trucagens (como o sonho de Micky, o ruivinho, que lembra muito o pesadelo de “Dream of a rarebit fiend“, Edison, 1903). Enfim, há muitas cenas que enfatizam a unidade interna do plano, escapando um pouco da narrativa, que, apesar disso, vai se construindo aos poucos. Mas acho que dá pra dizer que na primeira parte do curta, em que a vida cotidiana das personagens é apresentada através de situações engraçadas dentro das casas, o que predomina é a atração.

jean darlingEm “Crazy house“, um dos que serão exibidos na Giornate, os adultos aproveitam o primeiro de abril para encher uma casa com armadilhas e diabruras das mais diversas. Eles dizem que assim voltam a se sentir como crianças. E quando as crianças verdadeiras entram na casa, o filme se concentra em uma série de cenas em que a trupe passa por esses “obstáculos”: as estátuas se mexem, os meninos tentam comer e os talheres estão moles, as comidas são de plástico… Também tem algumas trucagens legais, como sobreimpressões e efeitos de raios que saem de objetos que dão choque!

A estrela desse filme é uma das atrizes mais conhecidas e admiradas do grupo da “Our gang”: Jean Darling! Ano passado (e parece que em muitos outros anos também) ela esteve em Pordenone. Aí vai uma entrevista feita com ela na 31ª Giornate:

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Talvez essa imagem da trupe de crianças com o cachorrinho de olho pintado seja familiar a alguns…

os batutinhas

Pois é, “Os batutinhas”, o clássico da (minha, pelo menos!) infância, foi baseado na antiga série. O título do filme é justamente “The Little Rascals” e quase todas as personagens e cenas foram inspiradas na série original!

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Foi também com Hal Roach que a dupla Laurel & Hardy (“O Gordo e o Magro”, para nós) começou a carreira, no início dos anos 20. E antes de ser um produtor de sucesso, Roach trabalhou como ator de cinema no começo dos anos 1910 e logo conheceu Harold Lloyd, com quem produziu uma série de comédias.

(Esse assunto será tema de um próximo post, já que a sessão de encerramento do festival será o filme “The Freshman“, um longa dos anos 20 com Lloyd!)

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Depois de muitos dias de espera e ansiedade, finalmente recebi o e-mail que começa com “Dear Collegian (!)” – quando vi essa simpática exclamação entre parênteses, percebi que tinha sido aceita como membro do Collegium, programa para jovens estudantes da Giornate del Cinema Muto, que fica em Pordenone, na Itália. O processo de seleção é meio maluco: basta enviar uma carta de intenções, que conte sobre você e sua relação com o cinema silencioso. Eu falei basicamente sobre o primeiro cinema e achei que isso fosse um ponto negativo da minha carta porque apenas uma pequena parcela do festival é dedicada aos filmes da virada do século…

Doze jovens do mundo todo são selecionados. Não tenho ideia de quem sejam os outros onze! Os selecionados ganham estadia em Pordenone pelos 8 dias de festival (este ano será de 5 a 12 de outubro) e participam todos os dias de encontros com historiadores, restauradores, arquivistas… Enfim, pesquisadores do cinema silencioso de diferentes lugares do mundo, que trazem experiências de casos de restaurações específicas, dão aulas sobre historiografia, sobre aspectos formais dos filmes, sobre música… A essas sessões eles dão o nome de diálogos, no sentido platônico (hehe). Não sei ainda quais serão os temas deste ano, mas a programação desta 32ª edição do festival já começou a ser divulgada.

Haverá sessões sobre o cinema silencioso mexicano, ucraniano, sueco e muitos outros… Aí vão algumas das atrações pelas quais eu estou mais ansiosa:

TodosSistema Joly-Normandin os filmes que usam o sistema Joly-Normadin que sobreviveram serão apresentados na sessão dedicada ao primeiro cinema, ou, como os italianos chamam, Cinema delle Origini (o sistema se gabava de produzir imagens com grande qualidade. aqui neste link dá pra ver a comparação entre diferentes formatos de filmes dos primeiros tempos);

Beggars of Life” (William A. Wellman, 1928) – tem algumas seqüências sonoras, que parece que estavam perdidas – vai passar na quinta edição da sessão “Il Canone Revisitato”, que tem curadoria de Paolo Cherchi Usai;

Viaggio in Congo” (Guido Piacenza, 1912), etnográfico, o mais antigo filme conhecido feito no Congo, na sessão de filmes italianos;

Lucrezia Borgia” (Richard Oswald, 1922), que tem atores como Conrad Veidt e Paul Wegener e todos os outros filmes alemães das sessões em homenagem ao cinqüentenário da Deutsche Kinemathek;

The FreshmanE a semana terminará com Harold Lloyd em “The Freshman” (Sam Taylor e Fred C. Newmeyers, 1925), na sessão de encerramento com uma nova trilha composta por Carl Davis!

Na ansiedade pelo resultado do Collegium, passei o último mês pesquisando sobre a programação, os diálogos dos anos anteriores etc. E encontrei alguns diários bem inspiradores em blogs muito bons. Vou deixar os links aqui:

Silent London – a autora do blog, Pamela Hutchinson, foi no ano passado e fez até um podcast de lá com várias entrevistas;

Kine Artefacts – também escrito por uma garota, Ellie, o blog não é só dedicado ao cinema silencioso, tem também posts sobre TV e cinema em geral. ela foi pra Pordenone e participou das sessões do Collegium em 2011;

The Bioscope – o melhor blog sobre cinema silencioso que já existiu! pena que o autor, Luke McKernan, parou de postar… mas é uma fonte de pesquisa incrível! e ele foi pra Pordenone diversas vezes, tem muitos posts sobre isso por lá!

Estou muito animada por ter a oportunidade de conhecer esses pesquisadores que eu admiro tanto à distância, outros jovens como eu, que amam os filmes dos primeiros tempos e toda a “comunidade de Pordenone”, como eles chamam, esses cinéfilos, arquivistas, cineclubistas…

Ao longo desses dois meses que tenho até a Giornate, pretendo postar aqui as minhas pesquisas e descobertas sobre a programação! Estudando, assistindo filmes, e escrevendo aqui sobre tudo isso, vou me preparando para o festival e para o “paper” que os Collegians têm que escrever depois a partir de alguma parte da experiência!

Ter sido aceita no Collegium foi um grande incentivo para que eu decidisse retomar as atividades do blog (que na verdade nunca existiu de fato)! Não conheço quase nada que será exibido no festival… Então vou estudar bastante e fazer posts específicos sobre cada aspecto da programação!

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