americanizando o cinema – terceiro dia (10.09.2013) parte 2

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Agora vou falar rapidamente sobre o lançamento do livro “Americanizando o filme – ensaios de história social e cultural do cinema“, com ensaios selecionados por Adilson Mendes e traduzidos por Augusto Pacheco Calil.

À primeira vista, a publicação parece uma tradução integral do livro “Americaning the Movies and ‘Movie-Mad’ Audiences, 1910-1914”. Esse é o título original que aparece, inclusive, na ficha catalográfica, o que entendi como um erro. Mas na verdade é uma seleção de ensaios que abrangem o período de 1903 a 1916. 

O primeiro texto, “A chegada da Pathé – Filmes franceses criam um mercado para o nickelodeon, 1903-1906”, foi publicado originalmente em “The red rooster scare”. O segundo, “De curiosidade a palácio das imagens: os primórdios da exibição dos filmes” veio do livro “The Wiley-BlackWell History of American Film” (organizado por Cinthya Lucia, Roy Grund-Mann e Art Simon). “Mapas do público dos cinemas: uma colcha de retalhos (1911-1913) veio de “Going to the movies – Hollywood and the social experience of the Cinema” (organizado por Richard Maltby, Melvyn Stokes e Robert Allen). “‘Zip!-Zam!-Zowie!’: Uma nova abordagem para a história do cinema americano institucional” tinha sido publicado na revista “Historical Journal of Film, Radio and Television”. “Ataque e contra-ataque: filmes de guerra ‘documentais’nos EUA, 1914-1916” veio de “Film History”. Só os textos “O ‘passado útil’ dos westerns – Vaqueiro, vaqueira e filmes de índios” partes 1 e 2 foram publicados originalmente em “Americanizing the Movies”. 

Achei bem mais interessante ser uma seleção de ensaios de diferentes fontes, do que se fosse a tradução integral do “Americanizing the Movies”. Como só tínhamos um texto de Richard Abel traduzido para o português (se eu não me engano), que era “Os perigos da Pathé ou a americanização dos primórdios do cinema americano” (publicado em “O cinema e a invenção da vida moderna”), é muito mais útil conhecermos uma compilação de artigos que ilustram um pouco toda a pesquisa de Abel. Seria estranho ter o “Americanizing the Movies” que trata do período de 1910 a 1914 sem ter o “The red rooster scare” que se foca nos anos de 1900 a 1910.

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Richard Abel autografando meu livro

Richard Abel é muito simpático e generoso com os estudantes. Conversei bastante com ele sobre minhas ideias para pesquisar os Hale’s Tours e ele me deu ótimas dicas e se disponibilizou a me ajudar mais ainda depois, por e-mail. Ele também estará esse ano em Pordenone para a Giornate del Cinema Muto, então vou poder encontrar com ele de novo em breve! :)

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Depois de pegar minha dedicatória, fui correndo para assistir ao filme da sessão, “The Invaders” (Thomas H. Ince, EUA, 1912). Perdi o começo, mas felizmente encontrei uma versão online:

The Invaders, EUA, 1912, DVD, 40 min, d: Thomas H. Ince; cp: Bison-101; e: Francis Ford, Ethel Grandin, Ann Little, Ray Myers, William Eagle Shirt e Art Acord 
O filme é um exemplo do que Abel comentou no curso sobre o aumento da produção de faroestes nessa época, com o objetivo de formar um “público americano” através de temas americanos. As imagens do filme são muito interessantes, principalmente pela participação de índios nativos como atores e pelas paisagens. É interessante notar quem são, afinal, os “invasores”…

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Para terminar o post de hoje, mais uma foto do Benê, que adora o primeiro cinema:

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Benê, irritado por ter sua leitura interrompida! haha

No próximo post da série americanizando o cinema, vou comentar o último dia do curso com Richard Abel e a quinta e última sessão de filmes.

americanizando o cinema – terceiro dia (10.09.2013) parte 1

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Chegamos ao post sobre o terceiro dia do curso O advento do cinema na França e nos Estados Unidos, 1905-1914 que o professor americano Richard Abel deu na semana passada na Cinemateca Brasileira. Para ler todos os posts dessa série, é só clicar na tag americanizando o cinema!

Nesse terceiro dia o professor deu a segunda aula do curso, cujo nome foi “Um cinema ainda não norte-americano, 1905-1909” e assistimos a quarta sessão ligada ao curso, que foi composta de um só filme, de 40 minutos, “The invaders” (Thomas H. Ince, EUA, 1912). Teve também o lançamento do livro “Americanizando o filme – ensaios de história social e cultural do cinema“, com ensaios selecionados por Adilson Mendes (que, pelo que eu entendi, como já disse, é o curador da mostra 300 anos de cinema, da qual o curso faz parte).

Aproveito então para fazer mais uma crítica ao evento. Apesar de ser uma iniciativa maravilhosa, que partiu dos funcionários da Cinemateca como uma forma de mostrar o trabalho feito pela instituição nesses tempos de crise, a mostra tem alguns problemas complicados, como já comentei aqui. Durante o curso, percebi outra complicação. Em todas as aulas, Adilson divulgava as sessões de filmes mudos com acompanhamento musical executado ao vivo, que eram no mesmo horário das sessões referentes às aulas do curso. Claro que, com atrações bem mais conhecidas (teve filme do Buster Keaton e A paixão de Joana D’Arc“), as sessões do curso ficavam vazias, com cerca de 8 pessoas na sala! Achei uma grande falta de respeito com o professor Richard Abel eles ficarem “enfatizando o convite a todos” para que fossem às sessões “super lindas” que eram no mesmo horário das sessões programadas por ele para complementar o curso! Me lembrou o tratamento que a equipe da Jornada do ano passado deu aos conferencistas…

A mesma situação aconteceu com o lançamento do livro, que estava marcado para o mesmo horário da sessão desse terceiro dia. Para pegar a minha dedicatória no livro tive que perder o começo da sessão. Não entendo o motivo de ser tudo tão corrido assim, prejudicando os alunos do curso!

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fachada da Cinemateca Brasileira

De qualquer maneira, ter participado desse evento foi uma experiência maravilhosa! Quero compartilhar com meus poucos e queridos leitores (hehe) as partes mais interessantes!

O professor começou fazendo uma crítica à historiografia do primeiro cinema que, segundo ele, tende a focar as transformações que os filmes de ficção sofreram ao longo dos anos, sem olhar muito para o campo da distribuição. Como já deve ter dado para perceber, Richard Abel se dedica a estudar justamente esse campo. Fazendo uma analogia explicitamente anacrônica, ele comparou a França com os Estados Unidos, dizendo que nos EUA eles se focavam no hardware (criando patentes de equipamentos diversos, principalmente projetores – para exibidores itinerantes, por exemplo – e produzindo de 1 a 2 filmes por semana). Enquanto isso, na França, o foco estava no software, ou seja, na qualidade e quantidade dos filmes produzidos e exportados.

Ele falou um pouco, então, sobre os nickelodeons, que foi o que mais transformou a indústria cinematográfica dos EUA a partir de 1905, segundo ele. Não vou citar aqui tudo o que ele disse sobre esse tema, porque já falei disso em outros posts da série. Mas, resumindo, ele comentou que os nickelodeons se espalharam pelo país a partir de 1906, que era uma forma de diversão barata, que o público era composto por mulheres, crianças e pela classe trabalhadora, principalmente os imigrantes. A partir de 1908, começou a surgir, na imprensa, uma preocupação com questões de segurança nessas salas e com o tipo de filme que esse público estava vendo. Muitos jornalistas passaram a considerar os filmes franceses imorais, dizendo que incentivavam o crime, por exemplo. Surgiu uma censura policial. E a MPPC, que surgiu nesse mesmo ano, criou o National Board of Censorship, que passou a cuidar também a segurança e limpeza dos nickelodeons.

Da mesma forma como Richard Abel fez na primeira aula, listando os principais gêneros dos filmes franceses, nessa aula ele também fez isso (só que dessa vez com os filmes americanos de 1905 a 1909) e é o que eu vou tentar mais ou menos reproduzir aqui. Vou tentar focar nos filmes que ainda não comentei, ou seja, filmes que não foram exibidos em sessões do curso já comentadas aqui no blog.

atualidades (principalmente os filmes de viagem): “Interior New York Subway” (AM&B, 1905), que já comentamos aqui, e “Coney Island at night” (Edison, 1905), que mostra o deslumbre pela eletricidade. Ele citou também os Hale’s Tours, que eram muito populares na época.

filmes de fantasia: além dos já comentados “The Teddy bears” (1907) e “Princess nicotine” (Vitagraph, 1907), ele citou também “Dream of a rarebit fiend” (Edison, 1906), que foi muito popular, e “College Chums” (Edison, 1907), que era provavelmente exibido com cantores fazendo a dublagem.

comédias: sobre esse gênero ele não falou muito, só citou “Waiting at the Church” (Edison, 1906) e “The thieving hand” (Vitagraph, 1908).

melodramas sensacionalistas: além de “The train  wreckers” (Edison, 1905), “The Kleptomaniac” (Edison, 1905), “The black hand” (AM&B, 1906) e “The Country Doctor” (Biograph, 1909) que já foram comentados aqui no blog, ele também falou sobre “The unwritten law” (1907), que era a dramatização de um assassinato real, e “The lonely villa” (Griffith, 1909), que foi o remake do filme da Pathé “The Physician of the castle” (1908). É interessante notas as diferenças entre os dois filmes, por exemplo no que diz respeito à distância que as personagens são mostradas (no filme de Griffith os planos são mais próximos, apesar de não ter os planos médios na cena do telefone).

Na segunda parte da aula o professor Richard Abel se dedicou a mostrar, sempre exibindo no telão textos e anúncios de revistas da época, como foi que a Pathé passou a ser vista nos Estados Unidos como um corpo estranho.

No começo da era do nickelodeon, a empresa francesa era muito elogiada por seu padrão de qualidade e seus filmes dominavam o mercado. A empresa era uma das mais copiadas e vários exibidores diziam que os filmes da Pathé eram o motivo de seu sucesso de público. Para se ter uma ideia, em 1907, os filmes ingleses e franceses eram muito mais abundantes nos EUA que os próprios filmes americanos. Richard Abel comentou também os motivos principais para os filmes da Pathé serem tão populares: como já comentamos aqui no blog, a quantidade de filmes lançados semanalmente era muito maior que das outras empresas e a qualidade dos filmes, principalmente em relação às cores, chamava a atenção do público, que parecia preferir os filmes da Pathé. Abel comentou também que a empresa usava uma estratégia formal: as narrativas eram desconhecidas das plateias, mas em vez de precisar de um conferencista para a narração, a Pathé foi desenvolvendo técnicas de montagem e encenação para que os filmes não tivessem muitos intertítulos e nem necessitassem de explicações. Era isso que chamava o público imigrante, que não falava inglês. Por isso também a Pathé foi muito popular nos guetos judeus.

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Moving Picture World, 1910

Mas, a partir de 1908, o domínio da Pathé começou a diminuir, enquanto os filmes americanos foram se popularizando. A imprensa da época testemunhou uma guerra ideológica entre franceses e americanos. Muitos jornais especializados do período chamam atenção dos produtores para a concorrência, que deveria se acirrar para que o produto americano tivesse mais lugar no mercado.

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Moving Picture World, 1909

Os principais argumentos para criticar a Pathé foram de ordem moral. Os jornalistas diziam coisas como “determinado filme é tão apropriado para crianças como seria a vista de um matadouro” ou “tal filme é tão mórbido que não deveria estar no mercado” etc. Como o professor Richard Abel usou muitos trechos citados em seu texto “Os perigos da Pathé ou a americanização dos primórdios do cinema americano”, vou transcrever aqui uma parte desse artigo:

Toda essa controvérsia faz supor que, nos Estados Unidos, a Pathé estava situada próxima do centro de um debate sobre o status dos primórdios do cinema como uma forma moderna de cultura de massa e, mais importante, sobre sua função ideológica como “uma nova força social” em uma esfera pública cada vez mais discutida. Em certo sentido, o discurso conflitante sobre a Pathé revela como a empresa e seus produtos tiveram um duplo papel na “legitimação” do cinema nos Estados Unidos. Inicialmente, esse papel era o que alinhar certos atributos positivamente percebidos na cultura francesa com o cinema “norte-americano”. (…) Com a mesma frequência, no entanto, e com ênfase ainda maior a partir de 1907, a imprensa especializada e os exibidores evitavam tais apelos “legitimantes” para veicular outra concepção da cultura francesa como inconveniente, depravada e decididamente diferente da cultura norte-americana – em especial na sua exibição de sexualidade, violência sensacionalista e cenas cômicas ofensivas. [Para a referência, ver nota abaixo]

Esse contexto de transição da hegemonia francesa para o fortalecimento da produção americana foi propício para o desenvolvimento de filmes com temáticas “americanizantes”, como os faroestes em geral e filmes sobre a guerra civil americana. E mais filmes foram sendo produzidos na tentativa de controlar o modo como esses estrangeiros, mulheres e crianças estavam se tornando americanos.

[Nota da citação] “Cinema e a invenção da vida moderna” (organização de Leo Charney e Vanessa R. Schwartz, editora Cosac Naify), páginas 230 e 231.

Nos próximos posts dessa série vou falar sobre o lançamento do livro de Richard Abel, que aconteceu nesse mesmo dia… E, claro, sobre o último dia do curso!

americanizando o cinema – segundo dia (09.09.2013) parte 2

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Voltei para comentar mais uma sessão de filmes do curso que Richard Abel deu na Cinemateca Brasileira na semana passada, como parte da mostra 300 anos de cinema. Vou falar um pouquinho sobre a sessão 3, que foi exibida no segundo dia do curso, logo depois da primeira aula. Para ver os outros posts dessa série é so clicar na tag americanizando o cinema.

Essa sessão foi composta por quatro filmes americanos de 1912 a 1915. Chamo atenção para o filme Suspense, um dos mais impressionantes que eu já vi! Então vamos lá:

The Confederate Ironclad, EUA, 1912, DVD, 16 min, d: Kenean Buel; r: Kenean Buel; cp: Kalem; e: Guy Coombs, Anna Q. Nilsson, Hal Clements e Miriam Cooper
É um filme sobre a guerra civil americana, que mistura o drama histórico ao drama pessoal das personagens. É interessante notar como esse tema está presente nessa fase de “americanização” do cinema nos EUA… O filme tem planos lindos tomados de locomotivas em movimento e usa bastante a profundidade de campo. A mocinha principal, quando está no trem, aparece em closes bem próximos, o que intensifica nossa identificação com ela, que é a personagem que acompanhamos mais de perto do início ao fim do filme.

An American in the Making, EUA, 1913, DVD, 15 min, d: Carl Gregory; cp: Thanhouser; e: Harry Benham, Ethyle Cooke e Leland Benham
É um filme educativo sobre a segurança do trabalho, que mistura vistas documentais e uma ficção sobre um imigrante húngaro que chega aos Estados Unidos. Bem ilustrativo desse processo de construção de uma identidade americana para a massa de imigrantes que frequentava o cinema.

Suspense, EUA, 1913, DVD, 10 min, d: Lois Weber e Phillips Smalley; r: Lois Weber; cp: Universal; e: Lois Weber, Valentine Paul, Douglas Gérard e Sam Kaufman
Esse filme é impressionante. O professor Richard Abel comentou que ele estava parcialmente perdido 5 anos atrás, mas agora fiquei na dúvida porque vi que ele já estava disponível em DVD desde 2005! Não sei se era uma versão incompleta ou algo assim… De qualquer maneira, esse é daqueles filmes que todo mundo que se interessa por cinema deveria ver! Pela construção narrativa, pelos ângulos inusitados de câmera, pela montagem… Mas principalmente, pela incrível construção do suspense, que não à toa, é o título do filme. Tudo nele está a serviço dessa tensão que vai crescendo e crescendo a cada plano…

O filme começa com uma trabalhadora doméstica abandonando a casa onde trabalha, porque fica em um local afastado do resto do mundo, detalhe que será importante para a o resto da narrativa, como veremos. E então logo vem um plano de buraco de fechadura, através da qual vemos a dona da casa com seu bebê. Claro, esse tipo de plano não era incomum na época e podemos lembrar de exemplos tão antigos como “Par le trou de serrure” (Pathé, 1901), mas aqui ele não tem uma função de atração, mas sim de apresentar uma personagem e construir o espaço da casa, que depois será relembrado quando o bandido chegar. Tem também, acredito, uma função simbólica, de mostrar talvez a fragilidade de alguém que pensa estar segura, mas está na verdade totalmente vulnerável.

Captura de Tela 2013-09-18 às 19.46.03Quando a mulher sai da casa, deixando a chave embaixo do tapete, temos o primeiro ângulo de câmera mais inusitado. Vemos ela de cima da casa, através de algumas tábuas de madeira. Logo que ela sai aparece o bandido, um típico “vagabundo” dos melodramas da época. Antes que ele chegue na casa, vemos o marido ligar para sua esposa e avisar que vai chegar tarde. Essa cena é mostrada em um plano que compõe três tomadas diferentes: o marido no trabalho, em um triângulo bem no centro, a mulher em casa no canto direito e o bandido se aproximando (e ouvindo a conversa) no canto esquerdo. Essa montagem interna ao plano dá a impressão de simultaneidade, o que aumenta incrivelmente a tensão e cria perguntas para o espectador: será que o bandido vai conseguir entrar? Será que a mulher vai perceber a tempo?

A moça então descobre que está sozinha, que foi abandonada pela criada e, preocupada, fecha as janelas e portas em planos que vão construindo os espaços da casa: a sala, a escada, o quarto no andar de cima. Mais uma vez as fechaduras e a sensação de insegurança. Em narrativa paralela, acompanhamos a mulher com sua criança ouvindo barulhos estranhos e o bandido rondando a propriedade. O primeiro encontro dos dois é mostrado em um plongée completamente vertical, muito estranho, que mostra o ponto de vista dela, que olha para baixo pela janela do quarto. A sensação de vertigem que o plano causa acentua ainda mais o sentimento de vulnerabilidade da moça e da casa.

E volta o plano recortado com as três tomadas, as mesmas personagens nas mesmas posições, mas agora a mulher liga para o marido para avisar que o bandido está por perto enquanto este encontra a chave embaixo do tapete (de novo, as chaves!) e finalmente entra e corta o fio do telefone, o que encerra o único meio de comunicação da casa com o resto do mundo! Imediatamente, o homem sai de seu escritório e rouba um carro para ir o mais rápido possível para socorrer sua mulher e seu bebê.

Captura de Tela 2013-09-18 às 19.35.31Vem então uma cena de impressionante tensão. Mais uma vez através da narrativa paralela, temos três linhas narrativas que caminham juntas: o marido correndo de carro para salvar sua família, o bandido entrando na casa e se aproximando cada vez mais do quarto onde está a mulher com o bebê, e esta, tentando se proteger de todas as formas possíveis da iminente chegada do vagabundo. E nessas três linhas narrativas, interessantíssimos detalhes estilísticos chamam a atenção:

O dono do carro roubado com o qual o pai corre para a casa está atrás dele durante todo o caminho e o vemos através do espelho retrovisor do carro em movimento. Em determinado ponto do trajeto, o pai atropela um desavisado que estava fumando no meio da estrada, o que lembra muito o filme “The ? Motorist” (1906). É um acontecimento que retarda o desfecho da narrativa e aumenta (ainda mais!) o suspense. Será que o pai chegará a tempo de salvar sua família? – é o que o espectador se pergunta a cada corte.

Captura de Tela 2013-09-18 às 19.36.29Enquanto isso, o bandido vai se aproximando do quarto e, ao subir as escadas, vai chegando muito perto da câmera até o vermos em um super close-up, parecido com essa cena de “The Musketeers of Pig Alley” (Griffith, 1912). Ele consegue entrar no quarto e, no momento de maior pânico da moça, o marido finalmente chega e o dono do carro roubado o perdoa por ter tido um motivo justo para o roubo.

É mais um desses filmes em que a família burguesa está em perigo, com a harmonia restabelecida no final, que parece ser bem comum nessa fase de “americanização” do cinema nos EUA. Eu sei que, como coloquei algumas referências, pode parecer que esses procedimentos estilísticos fossem comuns na época. Mas não eram!

É um roteiro muito simples que, com uma série de detalhes de composição, montagem e simbolismo, constrói um suspense super intenso com o mínimo de intertítulos.

Hazards of Helen: The Escape on the Fast Freight, EUA, 1915, DVD, 13 min, a: E. W. Matlack; p: Paul C. Hurst; cp: Kalem; e: Helen Holmes, Leo D. Maloney, James Davis, G. A. Willians, Paul C. Hurst e Ben Jones
Este é uma versão de “The Lonedale Operator”, com cenas de ação surpreendentes, como a parte em que a moça se joga de um viaduto em cima de um trem em movimento para lutar com os bandidos!

Por hoje é só! No próximo post da série americanizando o cinema vou falar sobre o terceiro dia do curso: a segunda aula e a quarta sessão, em que foi exibido só um filme, de 40 minutos, “The invaders” (1912). No terceiro dia também teve o lançamento do livro “Americanizando o filme – ensaios de história social e cultural do cinema” de Richard Abel, sobre o qual também vou falar, claro!

americanizando o cinema – segundo dia (09.09.2013) parte 1

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Agora vou contar um pouco sobre o segundo dia do curso O advento do cinema na França e nos Estados Unidos, 1905-1914 ministrado por Richard Abel na Cinemateca Brasileira. Já falei sobre o primeiro dia (em dois posts – aqui e aqui), que teve só sessões de filmes. Foi nesse segundo dia que as aulas começaram, com a palestra “O império Pathé-Frères 1905-1909“. Antes de qualquer coisa, gostaria de ressaltar que esses posts têm o intuito de compartilhar com amigos interessados um pouco sobre o curso. Não consegui anotar (e nem mesmo entender) tudo, então vou colocar alguns pontos que consegui assimilar… Por isso pode ficar um pouco confuso, às vezes…

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professor Richard Abel na Cinemateca Brasileira

Nessa aula, o professor Richard Abel se dedicou a dar um panorama geral da produção e do lugar que ocupou a Pathé Frères, nesse período (de 1905 a 1909). Sabemos que, nessa época, a Pathé era a maior produtora do mundo, devido a seu esquema de produção industrial. O professor relembrou aquela famosa citação de Charles Pathé, que é mais ou menos assim: “Posso não tê-lo inventado, mas fui eu quem industrializou o cinema!”

Depois de falar um pouco sobre os motivos para a Pathé ser a maior (que já comentamos nesse post aqui), Abel comentou um a um os principais gêneros que ela (e também a Gaumont, que estava em segundo lugar) produzia e exportava para todo o mundo:

trick films: principalmente os filmes de Segundo de Chomón, que eram coloridos com a técnica de stencil color. O exemplo que ele deu foi “Le roi des dollars” (Segundo de Chomón, 1905).

– dentro de trick films, ele citou os féeries: sempre coloridos, também, como por exemplo “La poule aux oeufs d’or” (1905), “Roses magiques” (1906), “Le Spectre rouge” (1907)… E “Oeufs de paques” (Segundo de Chomón, 1907):

phonoscènes: que são os filmes sonorizados feitos por Alice Guy na Gaumont.

animação: o exemplo, claro, foi “Fantasmagorie”, de Émile Cohl, 1908.

comédias: principalmente feitas a partir de números de vaudeville que já existiam, como “Le cochon danseur” (1907).

– dentro de comédias, o gênero dos filmes de perseguição: o exemplo que ele deu foi “Le cheval emballe” (1907). Ele disse que falta uma cena no final do filme, que seria o cavalo “posando” de frente para a câmera. Era bem comum esse tipo de plano… Lembro agora de dois exemplos: o cachorrinho com o presunto na boca em “Policeman’s little run” e o cachorro com a criança em “Recued by Rover”.

– filmes históricos e bíblicos: nesse caso ele apontou para uma diferença grande entre os filmes da Gaumont, que tinham cenários realistas e eram filmados em locação, e os filmes da Pathé, que eram feitos em estúdio, com cenários planos e coloridos.

melodramas domésticos e sensacionalistas: para ilustrar esse gênero, ele mostrou o filme “The Physician of the Castle”, de 1908, que tem um exemplo de montagem paralela.

Albert Capellani (1874-1931)

Albert Capellani (1874-1931)

Na segunda parte da aula o professor Richard Abel se dedicou a mostrar e comentar alguns filmes de Albert Capellani, importante nome do período de transição, que contribuiu muito para a mudança do sistema de tableaux para a hegemonia da narrativa. Ele criou em seus filmes, que eram dos mais diferentes gêneros, diversas formas de construir narrativas, como relações causais entre os planos, encenação em profundidade, padrões de cortes etc. De 1906 a 1908 ele trabalhou com recursos como planos de cartas, cor e narrativas em duas partes. E esse foi o período que os filmes da Pathé fizeram mais sucesso nos Estados Unidos. Como já comentei, a partir do final da década de 1900, os filmes franceses sofreram grandes censuras nos EUA por causa de cenas consideradas violentas e imorais. Capellani passava ileso a esses cortes, pois costumava criar adaptações de clássicos da literatura francesa, que eram vistos como obras superiores. Um exemplo é “Le chemineau”, baseado em “Os Miseráveis” de Victor Hugo. Assistimos esse e também “La fille du sonneur” e “Les deux soeurs”. Mas vou comentá-los em outro post, já que foram exibidos também na última sessão de filmes referente ao curso.

Como deu pra ver, o curso não foi muito analítico. Richard Abel se dedicou mais a mostrar fragmentos de publicações da época para que a gente visse a transição da hegemonia da Pathé para a tal “americanização” do cinema dos EUA e a mostrar filmes franceses e americanos para ilustrar isso. Essa primeira aula foi uma introdução ao tipo de produção que a Pathé exportava para os EUA no período de 1905 a 1909.

No próximo post da série vou comentar os filmes exibidos na sessão desse mesmo dia, que foram filmes americanos de 1912 a 1915.

americanizando o cinema – primeiro dia (08.09.2013) parte 2

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Aqui estou eu de novo para comentar o curso O advento do cinema na França e nos Estados Unidos, 1905-1914 ministrado pelo professor Richard Abel lá na Cinemateca Brasileira. Vou falar sobre a segunda sessão de filmes do primeiro dia. Foram filmes americanos de 1911 e 1912.  São curtas do final do chamado “período de transição” (1907-1913) – ou, como Tom Gunning sugere, “período de transformação”.

MPPC Nickelodeon fev.1909

anúncio na revista Nickelodeon (fevereiro de 1909)

Desde 1908 os filmes de um rolo eram a mercadoria padrão que circulava entre produtoras e exibidores. E havia, nos Estados Unidos, uma regulamentação, feita pela Motion Picture Patents Company (MPPC, fundada em 1909), que determinava uma quantidade de filmes de um rolo que cada companhia tinha que lançar no mercado em datas pré-determinadas. Isso fez com que a produção dos filmes fosse padronizada e acelerada para suprir a necessidade de atualização constante dos exibidores. Essas questões econômicas e logísticas não podem nunca ser separadas da análise desses filmes, pois tiveram grande influência sobre as formas que os produtores encontraram para, em pouco tempo, criar histórias claras, ágeis e interessantes para o público ávido por novidades.

Foi nesse período que o número de planos por filme aumentou consideravelmente. De não mais que 12 antes de 1907 para chegar a 98 em “The Lonedale Operator”, por exemplo!

The Lonedale Operator, EUA, 1911, DVD, 17 min, d: D. W. Griffith; r: Mack Sennett; c: G. W. Bitzer; cp: Biograph; e: George Nichols, Blanche Sweet, Joseph Graybill, Dell Henderson, Verner Clarges, Jeanie Macpherson e W. C. Robinson, Guy Hedlund, Edward Dillon, Francis J. Grandon, Wilfred Lucas, W. Chrystie Miller e Charles Wes

É um dos filmes mais vistos e comentados do Griffith desse “período de transição”. Como eu disse, o filme tem 98 planos, mas o número de posições que a câmera ocupa é bem menor: 23. Ou seja, é um filme repleto de cortes e de repetições, que é um dos procedimentos usados para fixar as relações espaciais no imaginário dos espectadores. Um exemplo forte do uso dessas repetições é a forma como o filme estabelece o espaço do escritório: nós assistimos por quatro vezes as personagens entrando (ou saindo) pela primeira sala e passando pela porta que separa esta da sala principal, onde fica o telégrafo, o que enfatiza ainda mais o suspense quando chegam os bandidos.

Outra forma de repetição é a narrativa paralela. A cena do resgate da menina alterna entre três linhas narrativas diferentes: a menina desesperada esperando por ajuda, os bandidos se aproximando cada vez mais e o trem que corre para resgatá-la. Esses três espaços vão sendo mostrados em planos curtos, o que aumenta ainda mais a tensão e o suspense, criando perguntas para o espectador: será que os bandidos vão conseguir entrar? Será que o resgate vai chegar à tempo? etc.

A versão que a gente viu na Cinemateca não era colorida, mas as cores têm um papel narrativo muito importante nesse filme, principalmente na cena final, quando os bandidos são enganados pela chave inglesa que a mocinha usa, achando que era uma arma de fogo porque estava escuro dentro do escritório – e o tingimento em azul indicava isso.

Também interessante é notar o uso dramático do close, que era incomum nesse período. Na verdade, segundo Tom Gunning, o uso sistemático dos planos que dissecam as cenas marcam justamente o fim do chamado “período de transição”.

The Crime of Carelessness, EUA, 1912, DVD, 14 min, d: Harold M. Shaw; r: James Oppenheim; p: Edison Co.; e: Bigelow Cooper, Austin Conroy, Mabel Trunnelle, Barry O´Moore, John Sturgeon e Willian Bechtel

É um filme de ficção com caráter educativo sobre um trabalhador negligente com as regras de segurança na fábrica, que acaba por causar um incêndio. Interessante contrastar o modo de atuação desse filme com outros do período, como “The New York Hat”, que é muito mais contido.

São bem boas as cenas do incêndio, que foram feitas com uma maquete.

The New York Hat, EUA, 1912, DVD, 15 min, d: D. W. Griffith; r: Anita Loss e Francis Marion; cp: Biograph; e: Mary Pickford, Charles Hill Mailes, Kate Bruce, Lionel Barrymore, Alfred Paget, Claire Mc Dowell, Mae Marsh e Clara T. Bracy, Madge Kirby e Lillian Gish

UAU! É absolutamente encantadora a atuação de Mary Pickford nesse filme. Vale muito a pena assistir! O filme mostra o poder das mercadorias urbanas no contexto de uma cidadezinha do interior. Ele me lembrou o texto de Alexandra Keller “Disseminações da modernidade: representação e desejo do consumidor nos primeiros catálogos de venda por correspondência” (publicado no livro “Cinema e a invenção da vida moderna”), onde a autora mostra a importância dos catálogos de lojas de departamento para o público feminino rural na disseminação do poder por meio do consumo. O tal chapéu de Nova Iorque é, nesse filme, o objeto que distingue a menina de todos os outros e é o que desencadeia uma série de complicações para ela. É interessante lembrar também que a maior parte do público do cinema dessa época era composta por mulheres, com quem o filme parece querer se comunicar.

The Better Man, EUA, 1912, DVD, 12 min, d: Rollin S. Sturgeon; cp: Vitagraph; e: Robert Thornby, George Stanley, Anne Schaefer e Charles Bennett

É um filme bem interessante, que tem alguns planos incomuns no período, como por exemplo um contra-plongée super bonito e um plano estático das personagens, que cria um suspense. Pena não ter encontrado online para rever…

Indian Massacre Heart of an Indian, EUA, 1912, DVD, 32 min, d: Thomas H. Ince; r: Thomas H. Ince; cp: Bison-101; e: Francis Ford, Ann Little e J. Barney Sherry

Não posso comentar sobre esse porque infelizmente não assisti (acabei saindo antes da sessão acabar!) e também não encontrei online!

No próximo post vou comentar a primeira aula e a terceira sessão de filmes do curso.

PS: É claro que, para cada um desses filmes, haveria muito mais o que comentar… Sobre a construção de espaços contíguos, por exemplo, no caso de “The Lonedale Operator” ou sobre a imagem do mexicano que se constrói em “The better man”. Mas eu estou optando por comentar o que tem mais a ver com o tema do curso do professor Richard Abel.

Para alguns comentários desse post, usei o texto de Tom Gunning “Systematizing the electric message – narrative form, gender, and modernity in The Lonedale Operator“, publicado em “American Cinema’s Transitional Era: Audiences, Institutions, Practices” (editado por Charlie Keil e Shelley Stamp).

americanizando o cinema – primeiro dia (08.09.2013) parte 1

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Então vamos lá: vou comentar um pouco sobre o primeiro dia do curso O advento do cinema na França e nos Estados Unidos, 1905-1914 ministrado pelo professor americano Richard Abel (University of Michigan). Como eu já disse, esse curso faz parte da mostra 300 anos de cinema, organizada pela Cinemateca Brasileira.

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Chegando na Cinemateca para o primeiro dia do curso (que na verdade foi só uma introdução com duas sessões de filmes; as aulas mesmo só começaram no dia seguinte), pegamos o catálogo e vimos a exposição da mostra. Apesar de ser recheado de imagens lindas de placas de lanternas mágicas, como dá pra ver nessa foto aí do lado, o catálogo segue a mesma linha do folheto pobrinho da Jornada no ano passado. Nenhum texto legal, só uns resumos estranhos sobre a mostra e a programação. Vale pelas imagens…

E a exposição mostra bem o caráter de múltiplas frentes dessa mostra. Pode parecer meio desconexa, mas eu achei interessante justamente por unir objetos e documentos que parecem distantes (como lanternas mágicas – elas, mais uma vez! – e revistas ou cartazes e outros equipamentos). A exposição mostra um pouco do acervo da Cinemateca e nesses tempos difíceis pelos quais a instituição passa, achei bem bacana e importante colocar algumas coisas para verem a luz do dia, sabe? Na exposição deu pra entender um pouco melhor a proposta da mostra, que parece ser uma forma de mostrar ao público diferentes frentes de atuação da Cinemateca e foi apresentada por Adilson Mendes (que parece ser o curador do evento, apesar de eu não ter encontrado “créditos” em nenhum lugar) como uma reação de seus funcionários em relação à crise recente.

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Agora vamos ao que interessa: os filmes! O primeiro programa que vimos nesse primeiro dia era formado por curtas americanos de 1905 a 1909. Vou comentar um a um, colocando inclusive questões que o professor Richard Abel falou durante o curso:

Interior New York Subway, EUA, 1905, DVD, 5 min, c: G. W. Bitzer; cp: AM&B
UAU! Ver esse filme na tela grande foi muito emocionante. É um filme do tipo phanton ride, ou seja, é uma vista de um veículo em movimento (no caso, um trem de metrô). Foi necessário mobilizar três trens diferentes para fazer o filme: um para posicionar a câmera, outro que corre em paralelo (e ilumina o caminho), e um terceiro, esse que a gente vê o tempo todo. Bem no começo (lá pelo segundo 0:20 nessa versão aí debaixo) dá pra ver a equipe com a iluminação. Esse tipo de filme era bastante comum na época e eram essas “viagens fantasmas” que eram exibidas nos Hale’s Tours para dar a impressão de que o espectador era um passageiro (de um trem, de um metrô e até mesmo de carros, que também eram novidade!)

(nossa, não dá nem pra comparar essa versão com a que vimos na Cinemateca, a imagem estava perfeita! não sei de qual dvd o filme foi projetado…)

The Kleptomaniac, EUA, 1905, DVD, 10 min, d: Edwin S. Porter; cp: Edison Co.; e: Aline Boyd, Phineas Nairs, Jane Stewart, George Voijere, Ann Eggleston, William S. Rising e Helen Courtney
O filme conta a história de duas mulheres: uma é rica e rouba aparentemente por prazer (a cleptomaníaca que dá nome ao filme) e uma moça pobre que rouba por necessidade. É interessante notar como as duas personagens são apresentadas… A mulher rica, Mrs Banker, é mostrada na rua, indo de carruagem para uma loja de departamento; a pobre é mostrada no interior de sua casa, com as filhas passando fome, chorando. Há claramente uma simpatia pela segunda, que no final será injustiçada. É legal reparar também que, na cena do roubo de Mrs Banker, a gente custa a identificá-la no meio de tanta gente que anda pra lá e pra cá pela loja. É o plano como unidade autônoma, característico do primeiro cinema, que privilegia as vistas de conjunto afastadas, mostrando uma grande porção do espaço e muitos atores ao mesmo tempo. O professor Abel disse que esse era um filme normalmente apresentado com um conferencista, que ia chamando a atenção do público para determinados detalhes enquanto narrava a história.

The Train Wreckers, EUA, 1905, DVD, 10 min, d: Edwin S. Porter; cp: Edison Co.; e: Gilbert M. “Broncho Billy” Anderson
underthegaslightEsse é uma versão de “The great train robbery” (1903). A cena do resgate da moça nos trilhos (que foi feita revertendo o filme) é bem interessante e emocionante! O professor Abel comentou depois na aula que esse filme mudou uma tradição, que era a de que a pessoa presa nos trilhos era normalmente o homem (e a mocinha ia salvá-lo). Achei isso muito curioso porque acho que já está totalmente consolidado o oposto no nosso imaginário. Na verdade essa cena já existia antes do cinema, nas peças de melodrama do séculp XIX. A peça que inaugurou isso foi “Under the Gaslight” da década de 1870 (e dá pra ver no pôster aí em cima como era mesmo um homem preso nos trilhos). Mas não existem muitos exemplos dessa cena no cinema mudo… Foram se tornando cada vez mais comuns os filmes com cenas filmadas de dentro dos trens, ponto de vista que o teatro não permitia.

The Black Hand, EUA, 1906, DVD, 11 min, d: Wallace McCutcheon; cp: AM&B; e: Anthony O´Sullivan e Robert G. Vignola
Gostei muito desse! O professor Abel disse que a cena do rapto da menininha foi feita com a câmera escondida. E que foi tão realista que a equipe de produção do filme teve problemas com os policiais, que acreditaram se tratar de um sequestro real! A cena é realmente muito forte e tem um tom documental que destoa do resto do filme, que tem interiores com cenários pintados. É interessante também notar a mistura entre narração e atração na cena da emboscada que os policiais preparam para o chantagista. O filme vem construindo um suspense em relação a isso, não sabemos se eles vão conseguir pegar o bandido ou não. E aí, como eles se escondem no frigorífico (!), vemos uma pausa na construção do suspense para uma gag bem engraçada (e simples) para depois retomar a narrativa e resolver o suspense.

The “Teddy” Bears, EUA, 1907, DVD, 13 min, d: Wallace McCutcheon; p: Edwin S. Porter; f: Edwin S. Porter
Esse filme é muito engraçado, vale a pena (mesmo com essa qualidade péssima que encontrei online)! É mais ou menos a história da Cachinhos Dourados. As fantasias e roupas dos ursos são uma atração à parte (literalmente, no sentido de Tom Gunning! hehe). Outra atração é a cena da dança dos ursos, que a menina assiste por um buraco numa porta. A cena não tem nada a ver com o resto da narrativa, é uma atração autônoma mesmo, mais um exemplo da mistura entre narração e atração… A cena demorou uma semana para ser feita e usa a técnica de stop motion. O final é bem sinistro – parece que, sem esse final, o filme foi usado como propaganda para vender ursinhos de pelúcia!

Princess Nicotine, EUA, 1909, DVD, 5 min, cp: Vitagraph; e: Paul Panzer e Gladys Hulette
Esse também foi usado como propaganda. Mas nesse caso, de cigarros, claro! O filme usa várias trucagens diferentes, como sobreimpressões, objetos gigantes e outros. Parece que na época foram publicados comentários surpresos com o fato de ser uma mulher de verdade e não uma boneca!

(esse filme não é o mesmo que a gente assistiu na Cinemateca, tenho quase certeza. o começo, pelo menos, está diferente!)

A Country Doctor, EUA, 1909, DVD, 14 min, d e r: D. W. Griffith; cp: Biograph; e: Frank Powell, Florence Lawrence, Gladys Egan, Kate Bruce, Adele DeGarde, Mary Pickford, Rose King

Esse filme foi bastante comentado pelo professor Richard Abel! Ele começa com um plano bem interessante de apresentação da vila e das personagens: uma panorâmica que vai de uma vista geral para particularizar a família do médico. Um recurso que se tornou importante no chamado “cinema clássico”. No final do filme, teremos um plano muito semelhante, mas fazendo o caminho inverso (da casa deles para a vista geral). É um plano metafórico, que mostra a “tristeza” do vale, agora sem a família feliz em frente à casa. É interessante notar também o uso da repetição para a construção dos espaços. Vemos isso nas idas e vindas da criada entre a casa do médico e a casa da outra família que também tem uma criança doente. Essa estratégia também aparece na similaridade gráfica entre os planos, frontais, que mostram as duas menininhas doentes em suas camas, perpendiculares ao eixo das câmeras. Isso torna ainda mais forte o paralelismo entre as duas situações.

Um detalhe que chamou a atenção do pessoal lá na sessão foi o logotipo da Biograph no meio do cenário realista como se fosse uma parte do papel de parede. Isso era feito para evitar que outras empresas se apropriassem das imagens irregularmente. Para nós isso é muito estranho, cria um ponto de estranhamento no cenário, mas na época era muito comum!

Puxa, esse post já está super longo! Depois eu posto a segunda sessão de filmes desse primeiro dia, então!

americanizando o cinema – introdução

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Quem estuda o primeiro cinema aqui no Brasil já deve conhecer o professor Richard Abel pelo menos pela publicação de seu ensaio “Os perigos da Pathé ou a americanização dos primórdios do cinema americano” no livro O Cinema e a Invenção da Vida Moderna (organizado por Leo Charney e Vanessa R. Schwartz e editado pela Cosac Naify). Acho que além dessa, não tínhamos mais nenhuma tradução de seu trabalho. (Agora temos, lançado pela própria Cinemateca no contexto do curso, o conjunto de ensaios “Americanizando o filme“, sobre o qual falarei em outro post!)

Esse texto trata justamente do tema desse curso que está sendo ministrado na Cinemateca. Por isso vou falar um pouquinho a respeito, e fica como uma introdução ao tema! Nesse ensaio, o professor Abel mostra como a Pathé Frères, essa companhia que foi a que primeiro se industrializou e dominou os mercados de diversos países do mundo, foi importante para o desenvolvimento dos nickelodeons nos Estados Unidos e para um posterior contra-ataque dos produtores americanos.

pathe_freresEm 1906, o maior mercado da Pathé não era a Europa, mas sim os nickelodeons americanos, onde seus filmes eram sinônimo de superioridade estética. Os principais motivos que Abel elenca para essa capacidade de dominação são os seguintes:

produção: a Pathé tinha três estúdios na França (as americanas Edison, Biograph e Vitagraph tinham um só cada uma) e seu esquema de produção já era “industrial”, com as “unidades de diretores”, lideradas por Ferdinand Zecca, Albert Capellani e outros, todos trabalhando ao mesmo tempo, o que permitia à companhia lançar de 3 a 6 filmes por semana (em contraste com apenas um filme por semana para as americanas na época);

distribuição: a Pathé fazia, nesse ano de 1906, cerca de 30 mil metros de cópias por dia, o que significa mais ou menos 75 cópias para cada novo título;

qualidade: os filmes da Pathé encantavam o público com as cores pintadas à mão, trucagens muito bem feitas e diferentes gêneros e durações.

Esse esquema era perfeito para os nickelodeons, que tinham programas que duravam de 15 a 20 minutos e que precisavam ser atualizados com frequência. E a forma dos filmes, com narrativas claras e pouquíssimos intertítulos, era muito atrativa para o público que frequentava essas salas, que era composto por mulheres, imigrantes e crianças (esses dois últimos não precisavam ler os intertítulos, já que eram poucos e simples). Para se ter uma ideia melhor desse sucesso, a Pathé vendia quase duas vezes mais metros de filme por ano nos EUA que todas as empresas americanas juntas!

A Pathé foi, então, a grande responsável pelo boom dos nickelodeons. Os jornais da época comentavam muito sobre a superioridade estética dos filmes, suas narrativas claras e os temas “puros e saudáveis”. Mas, no período entre 1907 e 1909, o galo vermelho começou a incomodar… A Edison tentou um acordo para passar a controlar a distribuição dos filmes franceses nos EUA; começou uma guerra de censura; várias empresas americanas reagiram. Esses empresários e a imprensa passaram a se preocupar com a formação de uma identidade norte-americana, que estava sendo obstruída por esses produtos estrangeiros, que dominavam o mercado até então. Foi nesse contexto que o filme de faroeste cresceu e serviu de poderoso instrumento ideológico e econômico para atingir esse público (mulheres, crianças e imigrantes), que seriam os futuros cidadãos americanos. A censura passou a trabalhar para que eles tivessem contato com os modelos “apropriados” de comportamento e para que não fossem expostos a valores “duvidosos”, como depravações e violência.

Cenas inteiras de filmes da Pathé passaram a ser cortadas por serem consideradas inapropriadas, como a parte do assassinato em “Le moulin maudit” (Pathé Frères, 1909):

Mais detalhes sobre tudo isso veremos nos próximos dias, já que, como eu disse, são exatamente essas as questões abordadas pelo curso que o professor Richard Abel está dando na Cinemateca Brasileira, “O advento do cinema na França e nos Estados Unidos, 1905-1914“.

***

Antes de terminar o post de hoje, gostaria de comentar rapidinho também sobre um livro de referência que mudou a minha vida: a “Encyclopedia of early cinema“, esse monstro de quase 800 páginas editado por Richard Abel. Primeiro eu ficava namorando ela lá Biblioteca da ECA, na USP. Mas depois que eu comprei a minha, meus estudos ficaram muito mais ricos. Agora, sempre que eu deparo, em outros textos, com algo que eu não conheço, eu encontro lá. Tem verbetes de vários tipos, escritos pelos maiores pesquisadores de cada área… Por exemplo: tem entradas como as que são sobre o primeiro cinema de países específicos (o do México é escrito por Aurelio de los Reyes, sobre quem já falamos aqui), ou sobre questões relativas ao desenvolvimento da forma fílmica (o do “cinema de atrações” foi feito por Tom Gunning), ou sobre personalidades da produção/exibição/etc. (sobre a Edison Manufacturing foi Charles Musser que escreveu). Enfim, são muitas e muitas páginas de textos cheios de referências sobre os temas mais diversos (inclusive do chamado “pré-cinema”), com bibliografias específicas e várias imagens. É essencial para quem se interessa por esse período da história do cinema.

bene encyclopedia

O Benê também adora a Encyclopedia! hahaha

Cruzes! Parece que eu nunca consigo chegar ao curso. Mas é que não dá pra falar dele sem contextualizar um pouco o trabalho do professor Richard Abel e a minha experiência com ele! Mas prometo que no próximo post vou comentar sobre o primeiro dia do curso, que foi na verdade um dia de duas sessões de filmes americanos de 1905 a 1912 (as aulas mesmo só começaram no segundo dia do curso). A programação completa está aqui.

Agradeço a meus companheiros Gabi e Dani pela ajuda com a foto do Benê, principalmente por terem escondido petiscos atrás do livro! :)

mostra 300 anos de cinema

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Vou dar uma pequena pausa nos posts sobre a programação da Giornate del Cinema Muto de Pordenone, para começar uma nova série aqui no blog. Hoje e nos próximos dias vou falar um pouco sobre uma bela surpresa que tive essa semana!

Minha querida amiga Marina (que também ama o cinema antigo) me falou nesse domingo passado sobre um curso sobre o cinema dos primeiros tempos com ninguém menos que Richard Abel. O curso começava no mesmo dia e eu não podia perder! Não sei como eu não fiquei sabendo disso com mais antecedência… Será que a divulgação não foi muito boa ou fui eu, que estava muito perdida na ansiedade pré-Pordenone? O curso faz parte de um projeto mais amplo, a mostra 300 anos de cinema.

300anoscinemaInspirada num evento de 1955 organizado por Henri Langlois na Cinemateca Francesa, essa mostra é a programação da Cinemateca Brasileira para este mês de setembro. O evento francês homenageou Jean Renoir e celebrou os 90 anos de Jehanne d’Alcy, a viúva de Méliès. A mostra se chamava “300 ans de cinématographie, 60 ans de cinéma” (ou seja, 300 anos de cinematografia, 60 anos de cinema).

Eu achei o nome da mostra brasileira meio forçado, sabe… Dizer que são 300 anos de cinema pode banalizar o sentido dessas formas de entretenimento anteriores ao cinema. Acho que pode acabar numa visão teleológica da história das imagens projetadas, como se não houvesse outro caminho senão uma evolução em direção ao cinema… Não é à toa que a mostra da Cinemateca Francesa dizia que de cinema eram só 60 anos! Acho que disponibilizar o texto original de Langlois poderia ter contribuído para o debate.

Apesar de disso, acredito que a iniciativa de produzir essa mostra seja de extrema importância, já que a nossa Cinemateca vive um momento de profunda crise. Em um ano super parado, em que não tivemos nem a Jornada Brasileira do Cinema Silencioso, uma mostra como essa, que mobiliza diferentes frentes de atuação da instituição, é um presente!

Fiquei bem curiosa pelas projeções de lanterna mágica… Eu nunca vi “ao vivo”, hehe! Espero conseguir ver alguma coisa. Pensando nisso, lembrei desse link genial do Museo Nazionale del Cinema (Torino), que disponibiliza diversas placas de lanterna mágica, inclusive placas animadas, como essa, que é do final do século XIX:

lanterna 2

Clicando nesse link aqui, dá pra ver a placa em animação. É só clicar em play.

Nesse site no Museo Nazionale tem imagens muito legais de placas diversas… Mas a placa que mais me encanta é essa aqui:

lanterna magica menininho

O link que eu mais recomendo no mundo é esse aqui. É essa placa em animação. É a coisa mais linda que eu já vi.

Acho que essas placas fazem a gente pensar sobre o espectador do primeiro cinema. Será que era tão ingênuo assim como alguns ainda insistem em dizer? Essas placas mostram que eles já estavam familiarizados com a projeção em movimento.

Não sei que placas serão exibidas nessa mostra da Cinemateca, mas vou tentar ir ver e depois comentar aqui no blog…

Infelizmente, por causa dos preparativos para Pordenone, não poderei participar de quase nada das outras atrações da mostra, que terá também performances (?), filmes mudos com acompanhamento musical e muitas outras coisas. Estou participando só do curso de Richard Abel e é sobre isso que falarei nos próximos posts dessa série Americanizando o Cinema. Sei que esse título pode soar meio esquisito, mas eu vou explicar melhor nas próximas publicações!