americanizando o cinema – primeiro dia (08.09.2013) parte 2

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Aqui estou eu de novo para comentar o curso O advento do cinema na França e nos Estados Unidos, 1905-1914 ministrado pelo professor Richard Abel lá na Cinemateca Brasileira. Vou falar sobre a segunda sessão de filmes do primeiro dia. Foram filmes americanos de 1911 e 1912.  São curtas do final do chamado “período de transição” (1907-1913) – ou, como Tom Gunning sugere, “período de transformação”.

MPPC Nickelodeon fev.1909

anúncio na revista Nickelodeon (fevereiro de 1909)

Desde 1908 os filmes de um rolo eram a mercadoria padrão que circulava entre produtoras e exibidores. E havia, nos Estados Unidos, uma regulamentação, feita pela Motion Picture Patents Company (MPPC, fundada em 1909), que determinava uma quantidade de filmes de um rolo que cada companhia tinha que lançar no mercado em datas pré-determinadas. Isso fez com que a produção dos filmes fosse padronizada e acelerada para suprir a necessidade de atualização constante dos exibidores. Essas questões econômicas e logísticas não podem nunca ser separadas da análise desses filmes, pois tiveram grande influência sobre as formas que os produtores encontraram para, em pouco tempo, criar histórias claras, ágeis e interessantes para o público ávido por novidades.

Foi nesse período que o número de planos por filme aumentou consideravelmente. De não mais que 12 antes de 1907 para chegar a 98 em “The Lonedale Operator”, por exemplo!

The Lonedale Operator, EUA, 1911, DVD, 17 min, d: D. W. Griffith; r: Mack Sennett; c: G. W. Bitzer; cp: Biograph; e: George Nichols, Blanche Sweet, Joseph Graybill, Dell Henderson, Verner Clarges, Jeanie Macpherson e W. C. Robinson, Guy Hedlund, Edward Dillon, Francis J. Grandon, Wilfred Lucas, W. Chrystie Miller e Charles Wes

É um dos filmes mais vistos e comentados do Griffith desse “período de transição”. Como eu disse, o filme tem 98 planos, mas o número de posições que a câmera ocupa é bem menor: 23. Ou seja, é um filme repleto de cortes e de repetições, que é um dos procedimentos usados para fixar as relações espaciais no imaginário dos espectadores. Um exemplo forte do uso dessas repetições é a forma como o filme estabelece o espaço do escritório: nós assistimos por quatro vezes as personagens entrando (ou saindo) pela primeira sala e passando pela porta que separa esta da sala principal, onde fica o telégrafo, o que enfatiza ainda mais o suspense quando chegam os bandidos.

Outra forma de repetição é a narrativa paralela. A cena do resgate da menina alterna entre três linhas narrativas diferentes: a menina desesperada esperando por ajuda, os bandidos se aproximando cada vez mais e o trem que corre para resgatá-la. Esses três espaços vão sendo mostrados em planos curtos, o que aumenta ainda mais a tensão e o suspense, criando perguntas para o espectador: será que os bandidos vão conseguir entrar? Será que o resgate vai chegar à tempo? etc.

A versão que a gente viu na Cinemateca não era colorida, mas as cores têm um papel narrativo muito importante nesse filme, principalmente na cena final, quando os bandidos são enganados pela chave inglesa que a mocinha usa, achando que era uma arma de fogo porque estava escuro dentro do escritório – e o tingimento em azul indicava isso.

Também interessante é notar o uso dramático do close, que era incomum nesse período. Na verdade, segundo Tom Gunning, o uso sistemático dos planos que dissecam as cenas marcam justamente o fim do chamado “período de transição”.

The Crime of Carelessness, EUA, 1912, DVD, 14 min, d: Harold M. Shaw; r: James Oppenheim; p: Edison Co.; e: Bigelow Cooper, Austin Conroy, Mabel Trunnelle, Barry O´Moore, John Sturgeon e Willian Bechtel

É um filme de ficção com caráter educativo sobre um trabalhador negligente com as regras de segurança na fábrica, que acaba por causar um incêndio. Interessante contrastar o modo de atuação desse filme com outros do período, como “The New York Hat”, que é muito mais contido.

São bem boas as cenas do incêndio, que foram feitas com uma maquete.

The New York Hat, EUA, 1912, DVD, 15 min, d: D. W. Griffith; r: Anita Loss e Francis Marion; cp: Biograph; e: Mary Pickford, Charles Hill Mailes, Kate Bruce, Lionel Barrymore, Alfred Paget, Claire Mc Dowell, Mae Marsh e Clara T. Bracy, Madge Kirby e Lillian Gish

UAU! É absolutamente encantadora a atuação de Mary Pickford nesse filme. Vale muito a pena assistir! O filme mostra o poder das mercadorias urbanas no contexto de uma cidadezinha do interior. Ele me lembrou o texto de Alexandra Keller “Disseminações da modernidade: representação e desejo do consumidor nos primeiros catálogos de venda por correspondência” (publicado no livro “Cinema e a invenção da vida moderna”), onde a autora mostra a importância dos catálogos de lojas de departamento para o público feminino rural na disseminação do poder por meio do consumo. O tal chapéu de Nova Iorque é, nesse filme, o objeto que distingue a menina de todos os outros e é o que desencadeia uma série de complicações para ela. É interessante lembrar também que a maior parte do público do cinema dessa época era composta por mulheres, com quem o filme parece querer se comunicar.

The Better Man, EUA, 1912, DVD, 12 min, d: Rollin S. Sturgeon; cp: Vitagraph; e: Robert Thornby, George Stanley, Anne Schaefer e Charles Bennett

É um filme bem interessante, que tem alguns planos incomuns no período, como por exemplo um contra-plongée super bonito e um plano estático das personagens, que cria um suspense. Pena não ter encontrado online para rever…

Indian Massacre Heart of an Indian, EUA, 1912, DVD, 32 min, d: Thomas H. Ince; r: Thomas H. Ince; cp: Bison-101; e: Francis Ford, Ann Little e J. Barney Sherry

Não posso comentar sobre esse porque infelizmente não assisti (acabei saindo antes da sessão acabar!) e também não encontrei online!

No próximo post vou comentar a primeira aula e a terceira sessão de filmes do curso.

PS: É claro que, para cada um desses filmes, haveria muito mais o que comentar… Sobre a construção de espaços contíguos, por exemplo, no caso de “The Lonedale Operator” ou sobre a imagem do mexicano que se constrói em “The better man”. Mas eu estou optando por comentar o que tem mais a ver com o tema do curso do professor Richard Abel.

Para alguns comentários desse post, usei o texto de Tom Gunning “Systematizing the electric message – narrative form, gender, and modernity in The Lonedale Operator“, publicado em “American Cinema’s Transitional Era: Audiences, Institutions, Practices” (editado por Charlie Keil e Shelley Stamp).

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