americanizando o cinema – terceiro dia (10.09.2013) parte 1

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Chegamos ao post sobre o terceiro dia do curso O advento do cinema na França e nos Estados Unidos, 1905-1914 que o professor americano Richard Abel deu na semana passada na Cinemateca Brasileira. Para ler todos os posts dessa série, é só clicar na tag americanizando o cinema!

Nesse terceiro dia o professor deu a segunda aula do curso, cujo nome foi “Um cinema ainda não norte-americano, 1905-1909” e assistimos a quarta sessão ligada ao curso, que foi composta de um só filme, de 40 minutos, “The invaders” (Thomas H. Ince, EUA, 1912). Teve também o lançamento do livro “Americanizando o filme – ensaios de história social e cultural do cinema“, com ensaios selecionados por Adilson Mendes (que, pelo que eu entendi, como já disse, é o curador da mostra 300 anos de cinema, da qual o curso faz parte).

Aproveito então para fazer mais uma crítica ao evento. Apesar de ser uma iniciativa maravilhosa, que partiu dos funcionários da Cinemateca como uma forma de mostrar o trabalho feito pela instituição nesses tempos de crise, a mostra tem alguns problemas complicados, como já comentei aqui. Durante o curso, percebi outra complicação. Em todas as aulas, Adilson divulgava as sessões de filmes mudos com acompanhamento musical executado ao vivo, que eram no mesmo horário das sessões referentes às aulas do curso. Claro que, com atrações bem mais conhecidas (teve filme do Buster Keaton e A paixão de Joana D’Arc“), as sessões do curso ficavam vazias, com cerca de 8 pessoas na sala! Achei uma grande falta de respeito com o professor Richard Abel eles ficarem “enfatizando o convite a todos” para que fossem às sessões “super lindas” que eram no mesmo horário das sessões programadas por ele para complementar o curso! Me lembrou o tratamento que a equipe da Jornada do ano passado deu aos conferencistas…

A mesma situação aconteceu com o lançamento do livro, que estava marcado para o mesmo horário da sessão desse terceiro dia. Para pegar a minha dedicatória no livro tive que perder o começo da sessão. Não entendo o motivo de ser tudo tão corrido assim, prejudicando os alunos do curso!

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fachada da Cinemateca Brasileira

De qualquer maneira, ter participado desse evento foi uma experiência maravilhosa! Quero compartilhar com meus poucos e queridos leitores (hehe) as partes mais interessantes!

O professor começou fazendo uma crítica à historiografia do primeiro cinema que, segundo ele, tende a focar as transformações que os filmes de ficção sofreram ao longo dos anos, sem olhar muito para o campo da distribuição. Como já deve ter dado para perceber, Richard Abel se dedica a estudar justamente esse campo. Fazendo uma analogia explicitamente anacrônica, ele comparou a França com os Estados Unidos, dizendo que nos EUA eles se focavam no hardware (criando patentes de equipamentos diversos, principalmente projetores – para exibidores itinerantes, por exemplo – e produzindo de 1 a 2 filmes por semana). Enquanto isso, na França, o foco estava no software, ou seja, na qualidade e quantidade dos filmes produzidos e exportados.

Ele falou um pouco, então, sobre os nickelodeons, que foi o que mais transformou a indústria cinematográfica dos EUA a partir de 1905, segundo ele. Não vou citar aqui tudo o que ele disse sobre esse tema, porque já falei disso em outros posts da série. Mas, resumindo, ele comentou que os nickelodeons se espalharam pelo país a partir de 1906, que era uma forma de diversão barata, que o público era composto por mulheres, crianças e pela classe trabalhadora, principalmente os imigrantes. A partir de 1908, começou a surgir, na imprensa, uma preocupação com questões de segurança nessas salas e com o tipo de filme que esse público estava vendo. Muitos jornalistas passaram a considerar os filmes franceses imorais, dizendo que incentivavam o crime, por exemplo. Surgiu uma censura policial. E a MPPC, que surgiu nesse mesmo ano, criou o National Board of Censorship, que passou a cuidar também a segurança e limpeza dos nickelodeons.

Da mesma forma como Richard Abel fez na primeira aula, listando os principais gêneros dos filmes franceses, nessa aula ele também fez isso (só que dessa vez com os filmes americanos de 1905 a 1909) e é o que eu vou tentar mais ou menos reproduzir aqui. Vou tentar focar nos filmes que ainda não comentei, ou seja, filmes que não foram exibidos em sessões do curso já comentadas aqui no blog.

atualidades (principalmente os filmes de viagem): “Interior New York Subway” (AM&B, 1905), que já comentamos aqui, e “Coney Island at night” (Edison, 1905), que mostra o deslumbre pela eletricidade. Ele citou também os Hale’s Tours, que eram muito populares na época.

filmes de fantasia: além dos já comentados “The Teddy bears” (1907) e “Princess nicotine” (Vitagraph, 1907), ele citou também “Dream of a rarebit fiend” (Edison, 1906), que foi muito popular, e “College Chums” (Edison, 1907), que era provavelmente exibido com cantores fazendo a dublagem.

comédias: sobre esse gênero ele não falou muito, só citou “Waiting at the Church” (Edison, 1906) e “The thieving hand” (Vitagraph, 1908).

melodramas sensacionalistas: além de “The train  wreckers” (Edison, 1905), “The Kleptomaniac” (Edison, 1905), “The black hand” (AM&B, 1906) e “The Country Doctor” (Biograph, 1909) que já foram comentados aqui no blog, ele também falou sobre “The unwritten law” (1907), que era a dramatização de um assassinato real, e “The lonely villa” (Griffith, 1909), que foi o remake do filme da Pathé “The Physician of the castle” (1908). É interessante notas as diferenças entre os dois filmes, por exemplo no que diz respeito à distância que as personagens são mostradas (no filme de Griffith os planos são mais próximos, apesar de não ter os planos médios na cena do telefone).

Na segunda parte da aula o professor Richard Abel se dedicou a mostrar, sempre exibindo no telão textos e anúncios de revistas da época, como foi que a Pathé passou a ser vista nos Estados Unidos como um corpo estranho.

No começo da era do nickelodeon, a empresa francesa era muito elogiada por seu padrão de qualidade e seus filmes dominavam o mercado. A empresa era uma das mais copiadas e vários exibidores diziam que os filmes da Pathé eram o motivo de seu sucesso de público. Para se ter uma ideia, em 1907, os filmes ingleses e franceses eram muito mais abundantes nos EUA que os próprios filmes americanos. Richard Abel comentou também os motivos principais para os filmes da Pathé serem tão populares: como já comentamos aqui no blog, a quantidade de filmes lançados semanalmente era muito maior que das outras empresas e a qualidade dos filmes, principalmente em relação às cores, chamava a atenção do público, que parecia preferir os filmes da Pathé. Abel comentou também que a empresa usava uma estratégia formal: as narrativas eram desconhecidas das plateias, mas em vez de precisar de um conferencista para a narração, a Pathé foi desenvolvendo técnicas de montagem e encenação para que os filmes não tivessem muitos intertítulos e nem necessitassem de explicações. Era isso que chamava o público imigrante, que não falava inglês. Por isso também a Pathé foi muito popular nos guetos judeus.

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Moving Picture World, 1910

Mas, a partir de 1908, o domínio da Pathé começou a diminuir, enquanto os filmes americanos foram se popularizando. A imprensa da época testemunhou uma guerra ideológica entre franceses e americanos. Muitos jornais especializados do período chamam atenção dos produtores para a concorrência, que deveria se acirrar para que o produto americano tivesse mais lugar no mercado.

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Moving Picture World, 1909

Os principais argumentos para criticar a Pathé foram de ordem moral. Os jornalistas diziam coisas como “determinado filme é tão apropriado para crianças como seria a vista de um matadouro” ou “tal filme é tão mórbido que não deveria estar no mercado” etc. Como o professor Richard Abel usou muitos trechos citados em seu texto “Os perigos da Pathé ou a americanização dos primórdios do cinema americano”, vou transcrever aqui uma parte desse artigo:

Toda essa controvérsia faz supor que, nos Estados Unidos, a Pathé estava situada próxima do centro de um debate sobre o status dos primórdios do cinema como uma forma moderna de cultura de massa e, mais importante, sobre sua função ideológica como “uma nova força social” em uma esfera pública cada vez mais discutida. Em certo sentido, o discurso conflitante sobre a Pathé revela como a empresa e seus produtos tiveram um duplo papel na “legitimação” do cinema nos Estados Unidos. Inicialmente, esse papel era o que alinhar certos atributos positivamente percebidos na cultura francesa com o cinema “norte-americano”. (…) Com a mesma frequência, no entanto, e com ênfase ainda maior a partir de 1907, a imprensa especializada e os exibidores evitavam tais apelos “legitimantes” para veicular outra concepção da cultura francesa como inconveniente, depravada e decididamente diferente da cultura norte-americana – em especial na sua exibição de sexualidade, violência sensacionalista e cenas cômicas ofensivas. [Para a referência, ver nota abaixo]

Esse contexto de transição da hegemonia francesa para o fortalecimento da produção americana foi propício para o desenvolvimento de filmes com temáticas “americanizantes”, como os faroestes em geral e filmes sobre a guerra civil americana. E mais filmes foram sendo produzidos na tentativa de controlar o modo como esses estrangeiros, mulheres e crianças estavam se tornando americanos.

[Nota da citação] “Cinema e a invenção da vida moderna” (organização de Leo Charney e Vanessa R. Schwartz, editora Cosac Naify), páginas 230 e 231.

Nos próximos posts dessa série vou falar sobre o lançamento do livro de Richard Abel, que aconteceu nesse mesmo dia… E, claro, sobre o último dia do curso!

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