americanizando o cinema – primeiro dia (08.09.2013) parte 1

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Então vamos lá: vou comentar um pouco sobre o primeiro dia do curso O advento do cinema na França e nos Estados Unidos, 1905-1914 ministrado pelo professor americano Richard Abel (University of Michigan). Como eu já disse, esse curso faz parte da mostra 300 anos de cinema, organizada pela Cinemateca Brasileira.

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Chegando na Cinemateca para o primeiro dia do curso (que na verdade foi só uma introdução com duas sessões de filmes; as aulas mesmo só começaram no dia seguinte), pegamos o catálogo e vimos a exposição da mostra. Apesar de ser recheado de imagens lindas de placas de lanternas mágicas, como dá pra ver nessa foto aí do lado, o catálogo segue a mesma linha do folheto pobrinho da Jornada no ano passado. Nenhum texto legal, só uns resumos estranhos sobre a mostra e a programação. Vale pelas imagens…

E a exposição mostra bem o caráter de múltiplas frentes dessa mostra. Pode parecer meio desconexa, mas eu achei interessante justamente por unir objetos e documentos que parecem distantes (como lanternas mágicas – elas, mais uma vez! – e revistas ou cartazes e outros equipamentos). A exposição mostra um pouco do acervo da Cinemateca e nesses tempos difíceis pelos quais a instituição passa, achei bem bacana e importante colocar algumas coisas para verem a luz do dia, sabe? Na exposição deu pra entender um pouco melhor a proposta da mostra, que parece ser uma forma de mostrar ao público diferentes frentes de atuação da Cinemateca e foi apresentada por Adilson Mendes (que parece ser o curador do evento, apesar de eu não ter encontrado “créditos” em nenhum lugar) como uma reação de seus funcionários em relação à crise recente.

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Agora vamos ao que interessa: os filmes! O primeiro programa que vimos nesse primeiro dia era formado por curtas americanos de 1905 a 1909. Vou comentar um a um, colocando inclusive questões que o professor Richard Abel falou durante o curso:

Interior New York Subway, EUA, 1905, DVD, 5 min, c: G. W. Bitzer; cp: AM&B
UAU! Ver esse filme na tela grande foi muito emocionante. É um filme do tipo phanton ride, ou seja, é uma vista de um veículo em movimento (no caso, um trem de metrô). Foi necessário mobilizar três trens diferentes para fazer o filme: um para posicionar a câmera, outro que corre em paralelo (e ilumina o caminho), e um terceiro, esse que a gente vê o tempo todo. Bem no começo (lá pelo segundo 0:20 nessa versão aí debaixo) dá pra ver a equipe com a iluminação. Esse tipo de filme era bastante comum na época e eram essas “viagens fantasmas” que eram exibidas nos Hale’s Tours para dar a impressão de que o espectador era um passageiro (de um trem, de um metrô e até mesmo de carros, que também eram novidade!)

(nossa, não dá nem pra comparar essa versão com a que vimos na Cinemateca, a imagem estava perfeita! não sei de qual dvd o filme foi projetado…)

The Kleptomaniac, EUA, 1905, DVD, 10 min, d: Edwin S. Porter; cp: Edison Co.; e: Aline Boyd, Phineas Nairs, Jane Stewart, George Voijere, Ann Eggleston, William S. Rising e Helen Courtney
O filme conta a história de duas mulheres: uma é rica e rouba aparentemente por prazer (a cleptomaníaca que dá nome ao filme) e uma moça pobre que rouba por necessidade. É interessante notar como as duas personagens são apresentadas… A mulher rica, Mrs Banker, é mostrada na rua, indo de carruagem para uma loja de departamento; a pobre é mostrada no interior de sua casa, com as filhas passando fome, chorando. Há claramente uma simpatia pela segunda, que no final será injustiçada. É legal reparar também que, na cena do roubo de Mrs Banker, a gente custa a identificá-la no meio de tanta gente que anda pra lá e pra cá pela loja. É o plano como unidade autônoma, característico do primeiro cinema, que privilegia as vistas de conjunto afastadas, mostrando uma grande porção do espaço e muitos atores ao mesmo tempo. O professor Abel disse que esse era um filme normalmente apresentado com um conferencista, que ia chamando a atenção do público para determinados detalhes enquanto narrava a história.

The Train Wreckers, EUA, 1905, DVD, 10 min, d: Edwin S. Porter; cp: Edison Co.; e: Gilbert M. “Broncho Billy” Anderson
underthegaslightEsse é uma versão de “The great train robbery” (1903). A cena do resgate da moça nos trilhos (que foi feita revertendo o filme) é bem interessante e emocionante! O professor Abel comentou depois na aula que esse filme mudou uma tradição, que era a de que a pessoa presa nos trilhos era normalmente o homem (e a mocinha ia salvá-lo). Achei isso muito curioso porque acho que já está totalmente consolidado o oposto no nosso imaginário. Na verdade essa cena já existia antes do cinema, nas peças de melodrama do séculp XIX. A peça que inaugurou isso foi “Under the Gaslight” da década de 1870 (e dá pra ver no pôster aí em cima como era mesmo um homem preso nos trilhos). Mas não existem muitos exemplos dessa cena no cinema mudo… Foram se tornando cada vez mais comuns os filmes com cenas filmadas de dentro dos trens, ponto de vista que o teatro não permitia.

The Black Hand, EUA, 1906, DVD, 11 min, d: Wallace McCutcheon; cp: AM&B; e: Anthony O´Sullivan e Robert G. Vignola
Gostei muito desse! O professor Abel disse que a cena do rapto da menininha foi feita com a câmera escondida. E que foi tão realista que a equipe de produção do filme teve problemas com os policiais, que acreditaram se tratar de um sequestro real! A cena é realmente muito forte e tem um tom documental que destoa do resto do filme, que tem interiores com cenários pintados. É interessante também notar a mistura entre narração e atração na cena da emboscada que os policiais preparam para o chantagista. O filme vem construindo um suspense em relação a isso, não sabemos se eles vão conseguir pegar o bandido ou não. E aí, como eles se escondem no frigorífico (!), vemos uma pausa na construção do suspense para uma gag bem engraçada (e simples) para depois retomar a narrativa e resolver o suspense.

The “Teddy” Bears, EUA, 1907, DVD, 13 min, d: Wallace McCutcheon; p: Edwin S. Porter; f: Edwin S. Porter
Esse filme é muito engraçado, vale a pena (mesmo com essa qualidade péssima que encontrei online)! É mais ou menos a história da Cachinhos Dourados. As fantasias e roupas dos ursos são uma atração à parte (literalmente, no sentido de Tom Gunning! hehe). Outra atração é a cena da dança dos ursos, que a menina assiste por um buraco numa porta. A cena não tem nada a ver com o resto da narrativa, é uma atração autônoma mesmo, mais um exemplo da mistura entre narração e atração… A cena demorou uma semana para ser feita e usa a técnica de stop motion. O final é bem sinistro – parece que, sem esse final, o filme foi usado como propaganda para vender ursinhos de pelúcia!

Princess Nicotine, EUA, 1909, DVD, 5 min, cp: Vitagraph; e: Paul Panzer e Gladys Hulette
Esse também foi usado como propaganda. Mas nesse caso, de cigarros, claro! O filme usa várias trucagens diferentes, como sobreimpressões, objetos gigantes e outros. Parece que na época foram publicados comentários surpresos com o fato de ser uma mulher de verdade e não uma boneca!

(esse filme não é o mesmo que a gente assistiu na Cinemateca, tenho quase certeza. o começo, pelo menos, está diferente!)

A Country Doctor, EUA, 1909, DVD, 14 min, d e r: D. W. Griffith; cp: Biograph; e: Frank Powell, Florence Lawrence, Gladys Egan, Kate Bruce, Adele DeGarde, Mary Pickford, Rose King

Esse filme foi bastante comentado pelo professor Richard Abel! Ele começa com um plano bem interessante de apresentação da vila e das personagens: uma panorâmica que vai de uma vista geral para particularizar a família do médico. Um recurso que se tornou importante no chamado “cinema clássico”. No final do filme, teremos um plano muito semelhante, mas fazendo o caminho inverso (da casa deles para a vista geral). É um plano metafórico, que mostra a “tristeza” do vale, agora sem a família feliz em frente à casa. É interessante notar também o uso da repetição para a construção dos espaços. Vemos isso nas idas e vindas da criada entre a casa do médico e a casa da outra família que também tem uma criança doente. Essa estratégia também aparece na similaridade gráfica entre os planos, frontais, que mostram as duas menininhas doentes em suas camas, perpendiculares ao eixo das câmeras. Isso torna ainda mais forte o paralelismo entre as duas situações.

Um detalhe que chamou a atenção do pessoal lá na sessão foi o logotipo da Biograph no meio do cenário realista como se fosse uma parte do papel de parede. Isso era feito para evitar que outras empresas se apropriassem das imagens irregularmente. Para nós isso é muito estranho, cria um ponto de estranhamento no cenário, mas na época era muito comum!

Puxa, esse post já está super longo! Depois eu posto a segunda sessão de filmes desse primeiro dia, então!

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