Diário de Karlsruhe IV – meus destaques da programação

Último post da série sobre a minha experiência como membro do Collegium do Stummfilm Festival de Karlsruhe, Alemanha, em março deste ano. Hoje vou comentar brevemente alguns dos filmes que mais me marcaram… A programação completa pode ser acessada aqui.

telakarlsruhe

A sala de projeção.

Meu primeiro destaque é a sessão de abertura do festival: foram exibidos “Au bal de flore” (Alice Guy, 1900) e “Hamlet” (Svend Gade, Heinz Schall, 1920).

O filme de Alice Guy foi o único filme do primeiro cinema da programação. Foi especialmente legal para mim, já que o tema da minha apresentação no Collegium era justamente esse período e essa realizadora. O curta é um exemplo típico do cinema de atrações: é uma cena de dança, colorida com estêncil. O filme foi programado no festival por causa do alinhamento com o tema (Cross-dressing no Cinema Silencioso). As duas personagens (uma mulher e um homem) são interpretadas por duas dançarinas. É interessante perceber como aparece uma certa insinuação homossexual no final, quando a personagem masculina beija os braços da outra moça. Está disponível no Youtube.

O filme não explica e nem justifica a escolha por duas dançarinas em nenhum momento, como passa a acontecer nos filmes posteriores (em todos os outros filmes do festival havia sempre um motivo para o travestimento – na maior parte das vezes, o disfarce da própria identidade). Isso acontece porque esse filme está muito mais ligado ao tipo de atração do vaudeville, onde essas “trocas de gênero” eram comuns. Eu achei muito importante esse filme ter sido exibido porque mostra um tipo de cinema diferente, que mesmo os frequentadores de festivais de cinema silencioso não estão tão acostumados a assistir e apreciar!

Hamlet” foi uma enorme surpresa para mim! Eu não conhecia o filme e conheço pouquíssimo sobre a atriz Asta Nielsen. Nós assistimos a uma linda restauração de 2007, que trouxe de volta as cores do filme, até então disponível somente em preto e branco. A história do filme parte de uma interpretação do Hamlet segundo a qual o príncipe da Dinamarca seria uma mulher. Ela é criada como homem para defender o trono e tem que esconder sua verdadeira identidade. Asta Nielsen é incrível. Seu corpo é extremamente versátil e seu rosto pálido faz transbordarem seus conflitos internos por ter que viver como homem.

É possível assistir ao filme no Youtube, mas já aviso que a qualidade é péssima, não é a mesma versão restaurada que vimos no festival e está sem legendas!

Festival Karlsruhe

Catálogo (aberto na página sobre “Hamlet”), pôster, cartão postal e o meu crachá.

Outro destaque que eu gostaria de comentar rapidamente é o filme “Charley’s Aunt“, com Sydney Chaplin (irmão de Charles Chaplin!). O filme é uma slapstick comedy bem convencional. Posso dizer também que é um filme conservador, no sentido de manter os gêneros intocados, apesar do cross-dressing. Mas eu queria citar porque quem se traveste é um homem que tem que se passar pela “tia Donna Lucia”, uma brasileira riquíssima. Para mim, as partes mais engraçadas foram as referências ao Brasil, sempre pintado como um país muito exótico, muito quente. E toda a caracterização da personagem brasileira faz ela parecer mais uma espanhola (ou a imagem clichê que temos da moda espanhola da época, hehe)!

Outro filme que adorei conhecer foi “Das Liebes ABC” (Magnus Stifter, 1916). De novo Asta Nielsen se traveste! Ela foi a estrela do festival, sem dúvida. Adorei a forma como o filme faz graça com os padrões “do que deve ser” um homem e uma mulher. Já falei um pouco do filme nesse post, quando comentei a apresentação da Vanessa, também selecionada para o Collegium.

Asta Nielsen - ABC

Asta Nielsen “aprendendo” o que é ser homem e o que é ser mulher em um livro em “Das Liebes ABC”.

E, por último, “Der Geiger von Florenz” (Paul Czinner, 1925), com Conrad Veidt. É a história de uma menina que, para fugir de sua madrasta e de (se me lembro bem) sua escola, foge para a Itália disfarçada de homem. O roteiro é bem maluco e inverossímil, o que faz o filme se assemelhar a uma comédia, às vezes. Mas na verdade é um drama sobre a dificuldade que essa garota tem de se encaixar em seu papel social como mulher. Foi um dos filmes mais intrigantes.

Mas o que tornou a experiência mais especial foi o acompanhamento musical de Günter Buchwald, um músico alemão especialista em música para cinema silencioso. Já tinha visto algumas apresentações dele em Pordenone, no ano passado, mas essa foi a melhor! Ele tocou piano e violino e criou um clima de delicadeza essencial para a minha compreensão do filme. Adoraria ver o filme de novo com outro acompanhamento, para ver o que mudaria… Mas também adoraria ver mais filmes acompanhados pela música dele. Como esse festival é bem menor que a Giornate de Pordenone, foi fácil conversar com ele. Uma experiência que eu nunca vou esquecer!

A música é muito importante na exibição de filmes do período “mudo”… Não podemos deixar para segundo plano a experiência desses músicos que, com suas interpretações, conseguem chamar nossa atenção para aspectos às vezes inesperados dos filmes.

Então é assim que eu termino a série de posts sobre esse festival de cinema silencioso que eu tive a alegria de poder participar! Foi incrível! Pude rever amigos, conhecer pessoas e criar novas frentes para os meus estudos sobre o cinema antigo…

karlsruhe castelo

Terminando a série de posts sobre Karlsruhe com todo o charme dessa cidadezinha!

Agradeço aos meus pais por terem tornado essa experiência possível; ao pessoal do festival, que me acolheu tão bem; e principalmente ao Caetano, pelo incentivo, pela inspiração e por estar sempre ao meu lado! <3

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Diário de Karlsruhe III – cross-dressing no primeiro cinema (minha apresentação)

Mais um post da série sobre o Stummfilm Festival de Karlsruhe, na Alemanha, para o qual eu fui selecionada como membro do Collegium / Workshop com a pesquisadora Laura Horak. Os outros dois posts da série podem ser lidos aqui e aqui.

Como eu já disse, o tema desse ano foi Cross-dressing no Cinema Silencioso. Cada um dos 5 membros do Collegium devia fazer uma apresentação de 15 minutos sobre qualquer questão relacionada ao tema. A minha fala teve como foco o primeiro cinema.

Todas as dicussões foram em inglês. Decidi publicar minha fala na íntegra e, por isso, vou transcrever aqui em inglês mesmo. Sei que pode ser meio estranho colocar um texto em inglês aqui, mas foi assim que eu apresentei e, quando comecei a traduzir para o português ficou super estranho e ia dar um trabalho enorme! Espero que, ainda assim, possa ser proveitoso. E se alguém puder me ajudar com correções e questionamentos, seria muito bom! Eu não entendo muito desse assunto, então adoraria aprender mais!

Se alguém quiser ler em português, indico meu post “Cross-dressing no primeiro cinema: quais os efeitos?“, que é uma ampliação do texto que eu mandei para o festival quando me inscrevi para o Collegium. Não é o mesmo que a minha apresentação, mas quebra um galho!

Bom… Então lá vai. Tirei algumas partes do começo em que eu dizia quem eu sou e qual meu foco de pesquisa… Não preciso dizer isso aqui no blog, né? Fora isso não mexi em nada. Está como eu apresentei lá, no dia 6 de março de 2014.

palestra karlsruhe

Eu, durante a minha apresentação no Stummfilm Festival de Karlsruhe, Alemanha (março/2014)

Opening
I am here today to talk about some senses of cross-dressing in early cinema. I am the only collegian who is going to talk specificly about this period so I hope we can take this moment to focus on it… It is a period of experimentation and singular characteristcs.
I will start by talking about cross-dressing, then I will say some words about early cinema and then I will show and analyse a film made by french director Alice Guy in 1906.
I would like to apologize in advance for any mistakes that I shall make… I am not used to doing presentations in English like this yet. I am not a specialist in cross-dressing in film, nor in gender related issues, nor in Alice Guy’s work… What I intend to do is to bring our discussion to this early period of film history.

Introduction
Cross-dressing describes the practice of wearing clothes or accessories commonly associated with the “opposite” gender. We know many cases in History of people who disguise as other gender for many reasons. Women have dressed like men to access forbiden spheres, like the war or work places, for exemple. Men have also done this to hide their identities in cases that they had the possibility of being arrested for some crime or something… In carnival, cross-dressing once was a key element of anarchic expression. And, of course, people have done it because of their gender identity.
And as Laura Horak, specialist in gender and sexuality in media and entertainment culture, says:

Cross–gender casting has a long history in theater. Although men played women more often than the opposite, women too performed their share of male parts—from the “breeches” roles of the 16th through the 19th century, to the male impersonators of the vaudeville stage and the “principal boys” of British Christmas pantomime. [1]

Besides knowing many cases of cross-dressing in History, it’s very difficult to find transvestites, homosexuals or transsexuals in the early films. Movies portraying these kinds of characters in the beginnings of cinema, if existing, were probably exhibited marginally. Most likely, the social stigma attached to these kinds of images kept them from making the official film histories.
We know that the public sphere is historically dominated by men. And the social differences between men and women are still a current issue. But we also know that the turn of the century was a moment of huge changes in that scenario. The struggle for the feminine suffrage helped women to start leaving the domestic space. They started to occupy the streets, amusement parks, departament stores and other spaces of consumption and social coexistence…
Gender theorist Judith Butler suggests that the “acts” through which gender is constructed have similarities with theatrical gestures. [2] They would then be associated to an exteriority of the body. Since the body, in early cinema, is central and the interiority of the characters is not relevant (as will be in the hegemonic cinema of the teens), it could be productive to analyze the representation of gender in this period.

Early cinema
The movie I brought to show to you today is Alice Guy’s The consequences of feminism. As I said it is from 1906 and this year is an important date for early cinema history. It was from 1906, for example, that fictional films started outnumbering actuality films.
The so-called “cinema of attractions” period ends precisely in 1906-7. Tom Gunning describes it as

a cinema that directly solicits spectator attention, inciting visual curiosity, and supplying pleasure through an exciting spectacle – a unique event, that is of interest in itself. Fictional situations tend to be restricted to gags, vaudeville numbers or recreations of shocking or curious incidents. The cinema of attractions expends little energy creating characters with psychological motivations or individual personality. [3]

So it is an exhibitionist cinema, very different from the films that follow, which are longer and focus much more on telling a story. Cinema of attractions does not disappear after 1906, but rather continues as a component of narrative films, more evident in some genres like the musical. And we can also see some elements of attractions in avant-garde cinema and even later…
From 1904, an important genre, the “chase film”, embodied the transition between attraction and narrative. This kind of films shows a character that is chased by a group of persuers from one location to the next. Each shot is held until pursued and pursuers exit the frame. The next shot begins this movement through the frame over again. So these films present a series of attractions linked by a visual and sutle narrative continuity.
But let’s go back to cross-dressing! Most of the films of this period in which we find cross-dressing are those in which a female character is interpreted by a man for comic effect (The old maid having her picture taken, Edison, 1901, for example) or for “practical” reasons: when the character appears wearing only her underwear (and it is not an erotic film) or when the role requires some physical effort (Her first ride bike, Pathé, 1907, for example). In other films, the change is subtler: not necessarily containing cross-dressing, but in which the woman has the dominating role while the man is naïve or fragile (The Landlady, Gaumont, 1900).

Alice Guy
In the work of french director Alice Guy we find a productive field for this discussion. She occupied positions commonly dominated by men: she is considered to be the first woman filmmaker, beginning making films in 1896. Later, in 1910, she founded her own company, Solax, in the United States, and then built her own studio in Fort Lee (New Jersey) in 1912.
Cross-dressing and gender issues in general appear in the films of Alice Guy in many ways. There are films which show marital equality, women using weapons normally handled by men, role reversal without cross-dressing…
At the hypnotist’s (Chez le Magnétiseur) a movie from 1898, shows a mesmerist hypnotising a woman, then using a magnetic force to remove her clothes and reveal the fact that the woman is actually a man. But this is just a simple example… Let’s watch the film I brought. As I said, it is called The consequences of feminism.

Film analysis
It takes place in the future, when women, through feminist struggle, have taken the place of men. The women carry canes, wear ties and men’s top hats, are aggressive and leave home for work. The men carry sunshades, wear flowers on their hair and take care of the children and the house. The oppression of the women over the men is such that they create a rebellion, retake the public space and celebrate, ironically, over beer.
The film is from 1906 and it has 7 minutes. [Nesse ponto eu mostrei o filme na íntegra, então aí vai!]

At the beginning, we see some men working at a hatmaking shop, a traditionally women’s occupation. And then we see women smoking and reading papers while men iron; women carrying guns and smoking pipes… Disputing to be with a man… It can be a little difficult for us to understand, but there is a narrative. A man is used by a woman (in the original script she is called Doña Juana). He leaves his family to be with her but she prefers to stay at the bar. By the end of the film, when they meet again after many years (so it seems) the young man begs her to return home with him. She ignores him, so he throws acid in her face. Then he and other husbands, tired of being abandoned by their wives, create the rebellion.
I think the movie is an example of the “period of narrativization”. In a way, like the “chase film”, The consequences of feminism shows a synthesis of attractions and narrative. In this case, the attractions are, I believe, the ambiguous characterization of men and women. But the most interesting part of the film, more than the clothes, is the behavior of the characters.
Unlike the “temporary transvestite film” – like “Some like it hot” (Billy Wilder, 1959) and “Victor and Victoria” (Blake Edwards, 1982), analyzed by Chris Straayer [4] -, in which there is an emphasis on biological sex differences, Alice Guy’s film shows precisely that gender differences have nothing to do with nature. When we see men doing things and acting like we are used to see women doing and acting, we start to think about gender comportment as a historical construction. And an important aspect of the film’s scenario is that it is set in the future… Like the title of it’s remake from 1912 (made by Alice Guy in Solax Studios, in the United States), the story takes place “In the year 2000”. By setting the story in the future and showing a time very different from ours (in a way), it suggests that gender comportments change over time.
In the “temporal tranvestite film” the cross-dressed character normally learns how to be “a better man” or “a better woman” by experiencing the apposite gender life. But in Alice Guy’s film there is no such thing. There is also no “unmasking” in this film. Who can learn something about gender behavior is perhaps the spectator.
In the film the interiority of the characters is not very relevant. More interesting is to see women and men in the opposite gender situations and see how they deal with it.
But I should talk more about the ending of the film, when men banish women from the café. This ending is ambiguous: does the film show the superiority of men? That men and women should remain in their socially bound spaces? Or does it show how gestures and garments construct gender identity? Aside from the comical effect, the picture also makes us think about the roles we play in a sexist society. The exchange of roles in the movie is absurd, as is the widespread idea that behaviors related to gender are the work of nature.
The ending is interesting because it brings back what is “normal” in our society, in other words, the domination of men over women. But at the same time it shows a rebellion of the opressed.
So I believe that the most important aspect of the film is the denaturalization of the opression of men over women.
We know that clothes and other objects can carry gender-specific meanings… So I would like to finish my presentation bringing an interesting question made by Alison McMahan, an specialist in Alice Guy’s work: “If the markers of our gender identity are so easily changeable, what does that say about identity itself?” [5]

[1] “Edna ‘Billy’ Foster, the Biograph Boy”, Laura Horak, p 256-261. In: “Not so silent – women in Cinema before Sound”, Sofia Bull, Astrid Söderbergh Widding (eds.).
[2] “Performative Acts and Gender Constitution: an Essay in Phenomenology and Feminist Theory”, Judith Butler.
[3] “The cinema of attractions: Early film, its spectator and the Avant-Garde”, Tom Gunning, p 58. In: “Early cinema: space, frame, narrative”, Thomas Elsaesser (ed.).
[4] “Redressing the “Natural”: the temporary transvestite film”, p. 42-78. In: “Deviant eyes, deviant bodies: sexual re-orientations in film and video”, Chris Straayer.
[5] “Alice Guy Blaché: Lost visionary of the cinema”, Alison McMahan, p 226.

***

No próximo e último post da série sobre o festival de cinema silencioso de Karlsruhe vou escrever sobre os filmes exibidos que mais chamaram a minha atenção!

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Diário de Karlsruhe II – apresentações do Collegium

Antes tarde do que nunca! Espero conseguir postar mais no blog a partir de agora… Estou com ideias novas e, claro, muitos posts prometidos e não postados! Como é o caso deste que escrevo agora: o segundo da série de relatos sobre minha experiência como membro do Collegium no Stummfilm Festival em Karlsruhe, na Alemanha, em março deste ano!

No primeiro post da série, eu expliquei um pouco sobre como funcionava o Collegium e fiz algumas comparações com a outra experiência que eu tive na Giornate del Cinema Muto em Pordenone, Itália, em outubro de 2013.

Agora vou contar mais detalhes sobre as apresentações de cada membro do grupo. Não vou conseguir escrever muito porque já faz tempo (o festival foi em março), mas espero conseguir expor algumas das principais questões da discussão!

berghausen

Vista da janela da casa em que nós, Collegians, ficamos hospedados em Berghausen, uma cidadezinha ao lado de Karlsruhe

Como eu já disse, esse festival tem um tema por ano e nessa edição o tema era Cross-dressing no Cinema Silencioso. Éramos 5 membros no grupo do Collegium / Workshop e a professora convidada foi Laura Horak (todas essas informações estão no post anterior da série sobre esse festival!).

Federico, da Itália, falou sobre cross-dressing em comédias americanas dos anos 1910 e 1920. Ele mostrou muitas imagens de filmes de Chaplin, Buster Keaton e Laurel and Hardy. O que pudemos perceber é que, nesse tipo de comédia, com atores conhecidos do público, o cross-dressing costuma aparecer apenas como disfarce e a graça está em ver aquele ator famoso (e gordo / e excêntrico) usando roupas de mulher. Quando havia grande verossimilhança, não só para as outras personagens, mas também para o público, parece ter sido uma forma de mostrar a versatilidade dos atores. É o caso de Chaplin. Federico nos mostrou algumas cenas de “A woman“, de 1915 (acho até que já postei esse filme aqui no blog, mas vale a pena ver de novo!):

O cross-dressing aparece como disfarce da personagem, mas quase convence! É impressionante quando ele tira o bigode! Mas não podemos nos esquecer que tipo de mulher Chaplin está “imitando”: são todos os estereótipos da mulher tímida, graciosa, enfim… “feminina”.

Outra observação interessante é que Chaplin fazia os atores imitarem milimetricamente seus gestos. Primeiro ele mostrava como queria que fizessem e então eles o copiavam. As atrizes estariam, então, sempre imitando um homem imitando mulheres. Acho que pode ser um exercício legal tentar perceber quais as consequências disso para a atuação das mulheres nos filmes dele.

Maria, da Rússia, analisou um filme russo de 1913, cujo título em inglês é “The Little House in Kolomna”. O filme foi inclusive exibido no festival. Também é um caso de disfarce e o ator que pratica o cross-dressing nesse filme é Ivan Mosjoukine, o mesmo que participou do experimento de Lev Kuleshov sobre os efeitos da montagem.

Nesse caso, a personagem se disfarça de empregada doméstica para se aproximar da garota que ele ama. Ao contrário de Chaplin no exemplo anterior, o ator nunca tira o bigode, o que chama atenção para o próprio disfarce, claro. A forma de atuação e toda a forma do filme é muito mais próxima das práticas do primeiro cinema, apesar da data. Isso acontece porque o cinema silencioso russo, assim como o nosso, é “atrasado” em relação aos países centrais.

Um ponto que eu achei interessante foi o que Maria falou quando perguntaram para ela sobre exemplos de cross-dressing depois de 1917. Ela disse que na Rússia socialista não havia a diferenciação entre homens e mulheres como nos outros países, por isso o cross-dressing não fazia sentido. Ela disse que não conhece nenhum exemplo nesse período.

Vanessa, da Áustria, apresentou uma pesquisa sobre dois filmes exibidos no festival, os alemães “The ABCs of love” (1916) e “I don’t want to be a man” (1918).

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Asta Nielsen em “Das Liebes-ABC” de Magnus Stifter (1916)

Asta Nielsen foi, para mim, a grande estrela desse festival. Sua atuação em “Das Liebes-ABC” e no filme que abriu a programação, “Hamlet” (1920) é impressionante. Seu corpo cria formas surpreendentes e ela se transforma em tudo o que uma garota burguesa não pode ser… Mas, apesar de toda a subversão presente em sua atuação, é importante chamar atenção para a relação com a sexualidade da personagem/atriz. Quando está conquistando uma mulher, no papel de homem, ela olha para a câmera e mostra para o público que é tudo encenação, afirmando sua heterossexualidade.

Ich mochte kein mann sein

Ossi Oswalda e Curt Goetz em “Ich möchte kein Mann sein” de Ernst Lubitsch (1918)

A sexualidade também é uma questão importante em “Ich möchte kein Mann sein”, como a imagem acima já sugere! A personagem principal do filme, a garota interpretada por Ossi Oswalda, não quer ser educada como uma “lady”. Se veste como homem e vai para uma festa. Depois de uma noite de paquera, ela e a personagem de Curt Goetz acabam se beijando. Mais uma vez, apesar da interessante imagem de dois gentlemen se beijando, tudo é justificado por estarem os dois bêbados.

É interessante notar como nos dois filmes as atrizes não estão apenas se passando por homens, mas se passando pelo que seria o “homem ideal” da época. Rico, galanteador, fumante… O ato de fumar foi também bastante discutido por nós. Era uma prática proibida para as mulheres e é esse tipo de atitude que os dois filmes exploram.

Christina, da Alemanha, comentou um filme sueco que vimos em Pordenone no ano passado, “The girl in tails” (1926). É o único filme (além do que eu analisei) dirigido por uma mulher, a sueca Karin Swanström.

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Magda Holm em “The girl in tails” (1926)

Nesse caso, a personagem feminina usa um smoking para poder ir a um baile, pois seu pai não comprou um vestido que ela pudesse usar na ocasião. Vestida como um homem, ela aproveita para fazer tudo aquilo que não podia fazer como mulher: beber, fumar charutos etc. É interessante ver como ela faz isso sem medo do que os outros vão pensar dela, não se importando com a opinião de seu namorado, por exemplo. O filme usa alguns elementos de slapstick comedy e talvez seja o mais ousado de todos os filmes discutidos pelo Collegium. A personagem não se disfarça, ela não quer enganar ninguém, como nos outros casos…

E por último, a minha apresentação. Eu falei sobre o cross-dressing no primeiro cinema e analisei o filme “The consequences of feminism” (1906) de Alice Guy. Eu deixei pro final aqui no blog, mas na verdade fui a primeira a me apresentar, porque o filme que eu escolhi é o mais antigo.

No próximo post dessa série vou publicar a minha fala na íntegra!

E talvez ainda poste alguma coisa sobre outros filmes exibidos no festival…

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Diário de Karlsruhe I – introdução

Hoje vou contar um pouco sobre como foi a minha experiência como membro do Collegium do Stummfilm Festival de Karlsruhe, no mês passado.

Mapa Karlsruhe

Mapa da cidade.

Karlsruhe é uma pequena cidade localizada no estado de Baden-Württemberg, na Alemanha. O festival já tem 12 anos, mas foi só agora que eles criaram esse programa para jovens estudantes.

Como eu já comentei bastante aqui no blog, no ano passado fui selecionada também para participar do Collegium da Giornate del Cinema Muto, em Pordenone, na Itália. As experiências foram bastante diferentes porque os festivais e os Collegiums têm propostas e dimensões diferentes. O programa italiano já têm uma certa tradição (ano passado foi a 32a edição do Festival e 15a edição do Collegium), enquanto o alemão está apenas começando. Em Pordenone, éramos 12 jovens (mais os chamados “mentors”, que são os Collegians do ano anterior que podem retornar), já em Karlsruhe, éramos apenas 5. A Giornate é um evento gigantesco, onde você pode encontrar todos os figurões do mundo do cinema silencioso, enquanto o Stummfilm-Festival é bem menor e está recebendo convidados internacionais apenas agora.

Tudo isso fez as minhas duas experiências serem bem diversas. A Giornate é uma loucura, você conhece muita gente nova por dia, vê muitas coisas diferentes, é uma avalanche de informações… Mas em Karlsruhe, justamente por ser um festival bem menor, você tem a chance de conhecer as pessoas com mais calma, de conversar de fato com cada um… Mas a principal diferença está na proposta do próprio programa ou, como eles chamavam em Karlsruhe, o Workshop.

Em Pordenone, os jovens selecionados devem participar das sessões diárias do Collegium, que são palestras/debates com pessoas que trabalham em diferentes áreas, como restauração, arquivos, pesquisa… Eu sei que ainda estou “devendo” escrever por aqui mais detalhes de pelo menos algumas dessas sessões, mas já adianto que nem todas são muito interessantes e que a ideia de que os jovens participem ativamente das discussões não é levada a cabo porque todo o clima das sessões é muito formal, com o uso de microfones e uma certa distância… Depois do término da maratona que é a semana do festival (as projeções começam às 9 horas da manhã e terminam depois da meia-noite!), cada um de nós deve escolher um aspecto da programação e escrever um artigo (não-acadêmico, eles fazem questão de enfatizar) que é publicado depois. (Quando eu fizer um post melhor só sobre esse assunto, eu atualizo aqui com o link.)

Já em Karlsruhe, os jovens são convidados a fazer uma fala sobre o tema do festival. A cada ano eles escolhem um tema para guiar a curadoria dos filmes (sempre filmes mudos) e o tema deste ano foi “cross-dressing”. A inscrição para participar do programa era justamente uma proposta de fala ligada ao tema. Este post que eu escrevi sobre cross-dressing no primeiro cinema foi justamente baseado na proposta que eu mandei para me inscrever. Além disso, o Workshop contou com a presença de uma professora convidada, Laura Horak. Ela é pesquisadora da Universidade de Estocolmo e é especialista em gênero e sexualidade no cinema silencioso.

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Divulgação do festival na cidade.

E essa proposta faz toda a diferença! É uma forma muito interessante de dar a voz aos estudantes. E é também muito produtivo porque determina um foco de discussão para todo o período do festival (que são, infelizmente, apenas 4 dias!). Foi muito curioso assistir a tantos filmes que tratam de uma mesma questão de modos tão diferentes. E a Laura é daquelas professoras que sabem conduzir uma discussão. Então os Collegians e o público interagiram verdadeiramente construindo conhecimentos sobre o tema, mesmo que a maioria de nós não fosse especialista no assunto. Eu aprendi muito!

karlsruhe collegium

Os Collegians!

Então estes éramos nós! Federico, da Itália (o único garoto da foto), falou sobre cross-dressing em comédias americanas dos anos 1910 e 1920; Maria, da Rússia (atrás), analisou um filme russo de 1913, cujo título em inglês é “The Little House in Kolomna”; Vanessa, da Áustria (essa que segura o cartaz), apresentou uma pesquisa sobre dois filmes exibidos no festival, os alemães “The ABCs of love” (1916) e “I don’t want to be a man” (1918); eu, do Brasil (hehe), falei um pouco sobre o cross-dressing no primeiro cinema e analisei o filme “The consequences of feminism” (1906) de Alice Guy; Christina, da Alemanha (de camisa jeans), comentou um filme sueco que vimos em Pordenone no ano passado, “The girl in tails” (1926).

Vou fazer ainda mais dois post sobre esse festival, comentando com mais detalhes as apresentações de cada um e comentando os filmes exibidos. E pretendo também postar pelo menos uma parte da minha fala, claro. Mas por hoje é só!

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cross-dressing no primeiro cinema – quais os efeitos?

Hoje vou escrever sobre um tema que eu não conheço muito bem… Se alguém puder apontar erros ou sugerir outras fontes de pesquisa, agradeço muito!

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“Arlequim sentado”, Pablo Picasso, 1901

Há vários casos na História de pessoas que se passam por membros do gênero oposto por diversos motivos. Mulheres que se passaram por homens para poder acessar esferas proibidas para elas, como a guerra e o trabalho fora de casa, e homens que se disfarçaram de mulher para esconder sua identidade, fugir de perseguições etc. No carnaval, por exemplo, o cross-dressing já foi um elemento chave de expressão anárquica (hoje acredito que não mais, passando a ser apenas mais uma forma de reforçar estereótipos).

Aqui no Brasil o cross-dressing vem sendo bastante discutido nos últimos anos. A cartunista Laerte, por exemplo, expõe a questão em sua obra (e em seu próprio corpo):

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Tirinha de Larte retirada de http://murieltotal.zip.net

Sabemos que essa prática era comum no teatro e no vaudeville. E nos primeiros anos do cinema? O cross-dressing tinha espaço? E com que efeitos? Só aparecia em comédias?

É muito difícil encontrar filmes dos primeiros tempos que mostrem travestis, homossexuais, cross-dressers etc. Se existiram filmes que representavam essas personagens na primeira década do cinema, eles deviam ser produzidos e exibidos em espaços marginais. Provavelmente, o estigma social ligado a esse tipo de imagem impediu que os filmes sobrevivessem e entrassem para as histórias oficiais.

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Homens travestidos na virada do século (National Archives of Estonia)

A esfera pública é historicamente dominada pelos homens e as diferenças sociais entre homens e mulheres é um problema atual. Mas sabemos que a virada do século foi um momento de grandes mudanças nesse cenário. Nos Estados Unidos, por exemplo, estavam em curso as lutas pelo voto feminino. No mundo todo, as mulheres estavam saindo do espaço doméstico e ocupando as ruas através de parques de diversões, lojas de departamento e outros espaços de consumo e convivência social.

SelfridgesRooftop

A loja de departamento Selfriges na Inglaterra no começo do século

Se os atos através dos quais o gênero é construído têm similaridades com os atos performáticos do teatro, como sugere Judith Butler, então estão ligados a uma exterioridade do corpo. Como, no primeiro cinema, o corpo é central e a interioridade das personagens não é relevante (como passará a ser no cinema hegemônico a partir dos anos 1910), pode ser interessante analisar a representação dos gêneros nesse período inicial do cinema.

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Charlie Chaplin em “A woman” (1915), o terceiro e último filme em que ele aparece vestido como mulher

A maior parte dos filmes do período em que encontramos travestimentos, são aqueles em que uma personagem feminina é interpretada por um homem por motivos “práticos”: quando a personagem aparece usando apenas suas roupas de baixo (e não é um filme erótico/adulto) ou quando exige um grande esforço físico. Há outros filmes em que a troca é mais sutil: não há travestimento, mas a mulher tem o papel de dominadora da situação, enquanto o homem é ingênuo e frágil.

Chaplin como uma sufragista no primeiro ano de sua carreira (A busy day, 1914)

Uma mulher interpretada por um homem que depois troca de roupas com outro homem! (At the hypnotist, Alice Guy-Blaché, 1898)

Nesse, os papeis normalmente assumidos por homens e mulheres estão de certa forma invertidos… A mulher bebe, fuma, rouba. E ainda tem uma piada final sobre a maternidade. (Madam’s Fancies, Alice Guy-Blaché, 1907)

Um exemplo interessante que mescla as duas coisas (troca de vestimentas e troca de papeis) aparece no filme “The consequences of feminism” (Les résultats du féminisme, Gaumont, 1906), de Alice Guy-Blaché. No trabalho dessa pioneira, ela mesma uma mulher que ocupou posições comumente dominadas pelos homens (foi diretora de cinema e montou seu próprio estúdio), encontramos um campo produtivo para essa discussão.

O filme se passa em um futuro em que as mulheres, através da luta feminista, teriam tomado o lugar dos homens. Elas carregam bengalas e armas e usam gravatas e chapéus masculinos. Eles carregam sombrinhas e usam flores no cabelo. Elas são agressivas, eles cuidam das crianças; elas saem para trabalhar, eles passam as roupas em casa. A opressão das mulheres sobre os homens é tanta, que eles criam uma rebelião e tomam de volta seus lugares, expulsam-nas do espaço público e brindam, ironicamente, com cerveja.

A ambiguidade final é a parte mais interessante: o filme mostra a superioridade dos homens? Mostra que homens e mulheres devem permanecer em seus espaços socialmente delimitados? Ou mostra como a performance corporal e a vestimenta constroi a identidade de gênero?

É um filme de efeito cômico irônico, porque faz pensar sobre os papeis que homens e mulheres ocupam em uma sociedade machista. A troca de papeis é absurda no filme, assim como é absurda a ideia de que os comportamentos ligados aos gêneros feminino e masculino sejam naturais ou simplesmente determinados por aspectos biológicos.

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Cross-dressing no cinema silencioso é o tema do ano no festival de Karlsruhe (uma cidadezinha no sudoeste da Alemanha).

Captura de Tela 2014-01-17 às 11.45.00

O festival acontecerá no começo de março. A programação não tem filmes muito antigos. Acho que nenhum é do primeiro cinema! Por isso pensei que seria interessante pesquisar esse tema no cinema das origens.

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