americanizando o cinema – segundo dia (09.09.2013) parte 2

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Voltei para comentar mais uma sessão de filmes do curso que Richard Abel deu na Cinemateca Brasileira na semana passada, como parte da mostra 300 anos de cinema. Vou falar um pouquinho sobre a sessão 3, que foi exibida no segundo dia do curso, logo depois da primeira aula. Para ver os outros posts dessa série é so clicar na tag americanizando o cinema.

Essa sessão foi composta por quatro filmes americanos de 1912 a 1915. Chamo atenção para o filme Suspense, um dos mais impressionantes que eu já vi! Então vamos lá:

The Confederate Ironclad, EUA, 1912, DVD, 16 min, d: Kenean Buel; r: Kenean Buel; cp: Kalem; e: Guy Coombs, Anna Q. Nilsson, Hal Clements e Miriam Cooper
É um filme sobre a guerra civil americana, que mistura o drama histórico ao drama pessoal das personagens. É interessante notar como esse tema está presente nessa fase de “americanização” do cinema nos EUA… O filme tem planos lindos tomados de locomotivas em movimento e usa bastante a profundidade de campo. A mocinha principal, quando está no trem, aparece em closes bem próximos, o que intensifica nossa identificação com ela, que é a personagem que acompanhamos mais de perto do início ao fim do filme.

An American in the Making, EUA, 1913, DVD, 15 min, d: Carl Gregory; cp: Thanhouser; e: Harry Benham, Ethyle Cooke e Leland Benham
É um filme educativo sobre a segurança do trabalho, que mistura vistas documentais e uma ficção sobre um imigrante húngaro que chega aos Estados Unidos. Bem ilustrativo desse processo de construção de uma identidade americana para a massa de imigrantes que frequentava o cinema.

Suspense, EUA, 1913, DVD, 10 min, d: Lois Weber e Phillips Smalley; r: Lois Weber; cp: Universal; e: Lois Weber, Valentine Paul, Douglas Gérard e Sam Kaufman
Esse filme é impressionante. O professor Richard Abel comentou que ele estava parcialmente perdido 5 anos atrás, mas agora fiquei na dúvida porque vi que ele já estava disponível em DVD desde 2005! Não sei se era uma versão incompleta ou algo assim… De qualquer maneira, esse é daqueles filmes que todo mundo que se interessa por cinema deveria ver! Pela construção narrativa, pelos ângulos inusitados de câmera, pela montagem… Mas principalmente, pela incrível construção do suspense, que não à toa, é o título do filme. Tudo nele está a serviço dessa tensão que vai crescendo e crescendo a cada plano…

O filme começa com uma trabalhadora doméstica abandonando a casa onde trabalha, porque fica em um local afastado do resto do mundo, detalhe que será importante para a o resto da narrativa, como veremos. E então logo vem um plano de buraco de fechadura, através da qual vemos a dona da casa com seu bebê. Claro, esse tipo de plano não era incomum na época e podemos lembrar de exemplos tão antigos como “Par le trou de serrure” (Pathé, 1901), mas aqui ele não tem uma função de atração, mas sim de apresentar uma personagem e construir o espaço da casa, que depois será relembrado quando o bandido chegar. Tem também, acredito, uma função simbólica, de mostrar talvez a fragilidade de alguém que pensa estar segura, mas está na verdade totalmente vulnerável.

Captura de Tela 2013-09-18 às 19.46.03Quando a mulher sai da casa, deixando a chave embaixo do tapete, temos o primeiro ângulo de câmera mais inusitado. Vemos ela de cima da casa, através de algumas tábuas de madeira. Logo que ela sai aparece o bandido, um típico “vagabundo” dos melodramas da época. Antes que ele chegue na casa, vemos o marido ligar para sua esposa e avisar que vai chegar tarde. Essa cena é mostrada em um plano que compõe três tomadas diferentes: o marido no trabalho, em um triângulo bem no centro, a mulher em casa no canto direito e o bandido se aproximando (e ouvindo a conversa) no canto esquerdo. Essa montagem interna ao plano dá a impressão de simultaneidade, o que aumenta incrivelmente a tensão e cria perguntas para o espectador: será que o bandido vai conseguir entrar? Será que a mulher vai perceber a tempo?

A moça então descobre que está sozinha, que foi abandonada pela criada e, preocupada, fecha as janelas e portas em planos que vão construindo os espaços da casa: a sala, a escada, o quarto no andar de cima. Mais uma vez as fechaduras e a sensação de insegurança. Em narrativa paralela, acompanhamos a mulher com sua criança ouvindo barulhos estranhos e o bandido rondando a propriedade. O primeiro encontro dos dois é mostrado em um plongée completamente vertical, muito estranho, que mostra o ponto de vista dela, que olha para baixo pela janela do quarto. A sensação de vertigem que o plano causa acentua ainda mais o sentimento de vulnerabilidade da moça e da casa.

E volta o plano recortado com as três tomadas, as mesmas personagens nas mesmas posições, mas agora a mulher liga para o marido para avisar que o bandido está por perto enquanto este encontra a chave embaixo do tapete (de novo, as chaves!) e finalmente entra e corta o fio do telefone, o que encerra o único meio de comunicação da casa com o resto do mundo! Imediatamente, o homem sai de seu escritório e rouba um carro para ir o mais rápido possível para socorrer sua mulher e seu bebê.

Captura de Tela 2013-09-18 às 19.35.31Vem então uma cena de impressionante tensão. Mais uma vez através da narrativa paralela, temos três linhas narrativas que caminham juntas: o marido correndo de carro para salvar sua família, o bandido entrando na casa e se aproximando cada vez mais do quarto onde está a mulher com o bebê, e esta, tentando se proteger de todas as formas possíveis da iminente chegada do vagabundo. E nessas três linhas narrativas, interessantíssimos detalhes estilísticos chamam a atenção:

O dono do carro roubado com o qual o pai corre para a casa está atrás dele durante todo o caminho e o vemos através do espelho retrovisor do carro em movimento. Em determinado ponto do trajeto, o pai atropela um desavisado que estava fumando no meio da estrada, o que lembra muito o filme “The ? Motorist” (1906). É um acontecimento que retarda o desfecho da narrativa e aumenta (ainda mais!) o suspense. Será que o pai chegará a tempo de salvar sua família? – é o que o espectador se pergunta a cada corte.

Captura de Tela 2013-09-18 às 19.36.29Enquanto isso, o bandido vai se aproximando do quarto e, ao subir as escadas, vai chegando muito perto da câmera até o vermos em um super close-up, parecido com essa cena de “The Musketeers of Pig Alley” (Griffith, 1912). Ele consegue entrar no quarto e, no momento de maior pânico da moça, o marido finalmente chega e o dono do carro roubado o perdoa por ter tido um motivo justo para o roubo.

É mais um desses filmes em que a família burguesa está em perigo, com a harmonia restabelecida no final, que parece ser bem comum nessa fase de “americanização” do cinema nos EUA. Eu sei que, como coloquei algumas referências, pode parecer que esses procedimentos estilísticos fossem comuns na época. Mas não eram!

É um roteiro muito simples que, com uma série de detalhes de composição, montagem e simbolismo, constrói um suspense super intenso com o mínimo de intertítulos.

Hazards of Helen: The Escape on the Fast Freight, EUA, 1915, DVD, 13 min, a: E. W. Matlack; p: Paul C. Hurst; cp: Kalem; e: Helen Holmes, Leo D. Maloney, James Davis, G. A. Willians, Paul C. Hurst e Ben Jones
Este é uma versão de “The Lonedale Operator”, com cenas de ação surpreendentes, como a parte em que a moça se joga de um viaduto em cima de um trem em movimento para lutar com os bandidos!

Por hoje é só! No próximo post da série americanizando o cinema vou falar sobre o terceiro dia do curso: a segunda aula e a quarta sessão, em que foi exibido só um filme, de 40 minutos, “The invaders” (1912). No terceiro dia também teve o lançamento do livro “Americanizando o filme – ensaios de história social e cultural do cinema” de Richard Abel, sobre o qual também vou falar, claro!

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