Relato – VI Jornada Brasileira de Cinema Silencioso

Como sabem todos os interessados pela preservação audiovisual e pelo estudo do cinema dos primeiros tempos, a Jornada Brasileira de Cinema Silencioso, evento realizado pela Cinemateca Brasileira desde 2007, já estava consolidada no calendário de São Paulo como um momento de encontro e debate para pesquisadores, cinéfilos e um público que vinha crescendo a cada edição. A Jornada, que foi um espaço essencial para a pesquisa nacional, foi criada e vinha sendo construída nesses primeiros cinco anos de existência pelo pesquisador Carlos Roberto de Souza[1].

Enfatizo o foi porque o objetivo deste texto é fazer um relato do que é, para mim, a morte dos mais importantes aspectos da Jornada: a reflexão, o debate e o encontro produtivo para o estudo do cinema silencioso.

Em abril deste ano, toda a comunidade cinematográfica foi surpreendida pela notícia, divulgada no perfil do Facebook de Carlos Roberto, de que “a trindade que dirige a Cinemateca Brasileira o pôs pra fora da Jornada”. Na ocasião, o pesquisador da UFF Rafael de Luna foi o único (que eu soube) a manifestar publicamente sua indignação em um texto bastante esclarecedor sobre a atual situação da instituição: “Cinemateca Brasileira afasta curador da Jornada Brasileira de Cinema Silencioso (ou Paulo Emílio deve estar se contorcendo no túmulo)“[2]. Com este texto, pretendo humildemente participar deste debate.

Eu, que desde 2007 admiro muito o trabalho realizado pela Jornada, não posso deixar de expressar minha decepção com seu novo formato, que agora tem à frente uma equipe de concepção formada por quatro profissionais empenhados em uma “renovação” do evento. Com a justificativa de evocar “a atmosfera da natureza popular das primeiras décadas de vida do cinema”, a VI Jornada construiu um complexo de espetáculos e atrações circenses na área externa da Cinemateca, denominado “Salão das Novidades”. Se a expectativa era atrair público, o objetivo certamente foi alcançado: imagino ter sido o maior público infantil da Jornada, por exemplo. E acredito que uma iniciativa como esta possa ser bastante interessante. É muito comum que o contexto de exibição dos primeiros filmes seja esquecido quando se trata deste período da história do cinema. Uma atividade que retoma esse ambiente de espetáculos curtos e voltados para o impacto visual do espectador certamente pode contribuir para a melhor compreensão da estética do primeiro cinema e para uma crítica da historiografia clássica… O fato para o qual quero chamar atenção é que o “cinema de atrações”[3] não foi contemplado pela programação da Jornada. Esta concepção estética dominou o cinema até 1906-7, enquanto que o mais antigo filme exibido no evento data de 1911. Eu sei que foram exibidos alguns filmes do primeiro cinema nas cabanas externas e nas belas exibições de Ubirajara Zambotto (o “Cinematógrafo”), mas isso não fez parte efetiva de um debate sobre as relações entre esses filmes e seu contexto.

Esta Jornada pareceu-me totalmente cindida: de um lado, os espetáculos externos, que tratavam de um período mais antigo; de outro, as exibições dos filmes dos anos 1910 e 20, um único debate e o curso sobre o cinema soviético ministrado por François Albera. Principalmente no primeiro fim de semana do evento esta separação ficou clara. Havia, no jardim, uma deliciosa fogueira, comida e bebida de graça e inúmeras atrações. Dentro da sala de cinema, muitas cadeiras vazias… Assistir às exibições silenciosas tornou-se uma experiência bastante desagradável porque de dentro da sala era possível ouvir a todo momento o que acontecia na área externa. “Respeitável público! O malabarista chegou!” era o que ouvíamos enquanto tentávamos assistir a filmes como “Escada de serviço”, um filme expressionista alemão de 1921 sobre uma criada e a história que a leva ao suicídio!

Explicitada esta cisão na programação da VI Jornada, fica mais fácil entender as grandes perdas desta edição: os debates e o catálogo. Tenho os cinco catálogos das edições anteriores guardados com muito carinho, como muitos outros pesquisadores. Com imagens e textos de época, entrevistas e artigos escritos especialmente para estes livros, os catálogos da Jornada eram fontes de referência importantíssimas! Neste ano vimos um folheto vergonhoso, com poucos parágrafos de algumas linhas que reproduziam o senso comum.

Catálogos das edições anteriores da Jornada

E o único debate, a conferência “Cinema brasileiro nos anos 1920” com os pesquisadores Rielle Navitski (Uni. de Berkeley) e Eduardo Morettin (ECA-USP), foi mal organizado e terrivelmente desrespeitoso com a estudiosa americana que falou em português (!) e teve que pular várias partes de sua apresentação por causa da falta de tempo. O momento dedicado às questões do público também foi ridiculamente curto: duas perguntas e já tínhamos que sair correndo da sala! O mesmo aconteceu com o curso ministrado por François Albera (Uni. de Lausanne). O curso foi maravilhoso, mas a organização da Jornada mais uma vez mostrou desrespeito para com o convidado e o público. Havia menos tempo para as aulas do que o previsto e só em um dia foi possível fazer perguntas.

Acho que tudo isso que relatei nos sugere um questionamento: qual o foco desta nova equipe de concepção da Jornada? O que será mais valorizado daqui em diante? Parece-me que a imagem de um evento grandioso será enfatizada em detrimento da construção de um espaço de formação e construção coletiva de conhecimentos acerca do cinema silencioso. E é aí que vemos a diferença entre atrair e formar público.

Nesse sentido acho que cabe lembrar de Bertolt Brecht:

“Existem muitos artistas dispostos a não fazer arte apenas para um pequeno círculo de iniciados, que querem criar para o povo. Isso soa democrático, mas, na minha opinião, não é totalmente democrático. Democrático é transformar o pequeno círculo de iniciados em um grande círculo de iniciados. Pois a arte necessita de conhecimentos.”[4]

A Jornada perdeu muito com a mudança de curadoria: tivemos menos filmes, menos debates e menos acesso a textos e documentos… De outro lado tivemos mais espetáculo e mais público. Parece que a intenção dessa nova gestão pende para atrair público, aumentar os números e aparecer como um evento de grandes proporções. Enquanto isso continuamos com a enorme carência de formação consistente de público, com um acesso efetivo aos filmes, à historiografia e ao debate acerca da preservação audiovisual. Uma “jornada” que vinha sendo construída ao longo de cinco anos e que foi precocemente interrompida…

——

[1] Para começar a conhecer o trabalho dele, sugiro dois links: sua belíssima tese de doutorado, “A Cinemateca Brasileira e a preservação de filmes no Brasil“, e essa entrevista realizada por Felipe Bragança e Marina Meliande para a Revista Contracampo.

[2] Para acompanhar melhor a discussão crítica acerca do trabalho da Cinemateca nos últimos anos, recomendo também a Carta aberta a Cinemateca Brasileira.

[3] Como definido por Tom Gunning em seu já clássico artigo “The Cinema of Attraction: early film, its spectator and the avant-garde” em Wide Angle, outono de 1986 (também publicado em “Early Cinema: space, frame, narrative” editado por Thomas Elsaesser).

[4] Bertolt Brecht citado em “Brecht: um jogo de aprendizagem”, de Ingrid Dormien Koudela, p. 110.

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Uma resposta

  1. Texto muito interessante e bem escrito. Acho que se afina com o diagnóstico de que há um fenômeno de “espetacularização” da cultura em São Paulo, cujos exemplos mais evidentes estariam nas megaexposições e no concomitante esvaziamento da discussão apurada, de cunho crítico. Mesmo não sendo especialista, concordo com a interpretação. Seria interessante, a título de divulgação, coletar a opinião de outros integrantes desse grupo que acompanhava as outras Jornadas.

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