diário da Giornate – uma crônica cinematográfica de 1897

Diário da Giornate

Pesquisando sobre o cinema silencioso mexicano, já que alguns filmes sobre a revolução mexicana serão exibidos na Giornate del Cinema Muto desse ano, achei o livro “Los orígenes del cine en México (1896-1900)” de Aurelio de los Reyes. Que sorte encontrar esse livro na biblioteca da minha faculdade! É uma das primeiras obra de De los Reyes que, como eu já comentei, é o principal estudioso sobre o período mudo do cinema do México. A principal fonte de pesquisa do livro são os jornais da época, já que a grande maioria dos filmes se perderam e, no tempo em que ele escreveu (1972), o acesso aos filmes sobreviventes era ainda mais difícil que hoje.

Minha ilustração favorita do livro de Aurelio de los Reyes!

Minha ilustração favorita do livro de Aurelio de los Reyes!

No final do livro há um apêndice com documentos da época, trechos de notícias e reportagens relacionadas ao cinema dos primeiros tempos no México. Um texto que me chamou a atenção foi uma “crônica cinematográfica” publicada no jornal El Mundo (Ilustrado) em 28 de novembro de 1897.

É como uma vista da cidade, com especial atenção para seu movimento.

Reproduzo aqui uma tradução minha da crônica:

Cansado de rever os jornais, ávido pelas notícias, e de encontrar neles versos e contos de meus amigos distantes, abandono meu assento e me acotovelo na sacada de meu quarto de trabalho. Não estou com vontade de conversar com meus amigos no clube, sobre casas ligeiras e alegres, mulheres mundanas ou cavalos de corrida, sua eterna conversa, e me entrego a observar a rua, iluminada debilmente pela luz melancólica do gás. São nove da noite.
E aí, na varanda, cotovelos no parapeito, vão desfilando diante de meus olhos indiferentes e ociosos:
Primeiro um mocinho elegante que caminha apressado – talvez para um encontro de amor -, e que ao andar vai se olhando em sua sombra. Atrás dele, a alguns passos, duas lindas senhoritas passeiam, de braços dados, com as adoráveis cabecinhas cobertas e aprisionando suas finíssimas silhuetas em primorosos jerseys. Falam com entusiasmo e de vez em quando suas risadas cristalinas, frescas e mal contidas, chegam a meus ouvidos. Um jovem com o chapéu na mão se aproxima para falar com elas, mas um carro que nesse momento atravessa a rua me impede de ouvir suas palavras. Pela portinhola, alguém que não conheço acena com a mão e grita para mim – “Adeus, Marius” – saudação a que não respondo porque, quando quero fazê-lo, o carro já está longe. Depois, alguns ladrõezinhos passam correndo e com tal velocidade que não vêem em um enorme cachorro de Terranova, que dorme ao longo da vereda, e caem em cima do inofensivo animal; afastam-se às gargalhadas.
Uns passinhos ligeiros e miúdos ao lado de outros mais firmes e sossegados me fazem pulsar o coração com violência e virar rapidamente a cabeça. É ela, minha amada, clara e elegante, que passa esquiva, orgulhosa, falando com sua mãe e que não olharia por nada para minha varanda porque de longe já havia me avistado.
E eu, de cotovelos no parapeito, a mão direita escondida em meu desordenado penteado, enquanto a esquerda me oprime nervosamente a palavra, fico observando até perde-la de vista…
Da sacada entreaberta da casa vizinha escapam muitas notas vibrantes de uma valsa caprichosa e aristocrática – a mesma que dançava com ela quando declarei meu amor -, e uma revoada de pássaros brancos, as Lembranças, vêm cantarolar em minha alma, onde uma semínima, a Tristeza, agita desesperadamente as ondas…

É interessante notar a convivência entre elementos modernos (como carros, velocidade, pressa e o próprio ato de observar a cidade através de uma janela) e elementos que mostram o lado arcaico da cidade mexicana da época (luz a gás, o amor romântico). Isso parece apontar para a coexistência dos aspectos pré-modernos e modernos que sabemos existir na história dos países periféricos. Elementos que se sucederam nos países centrais, conviveram em simultaneidade por nossas bandas. 

Parece que essa crônica fazia parte de uma série, como uma coluna publicada com uma certa periodicidade. No livro “Los orígenes del cine en México (1896-1900)” o texto está assinado por José M. Barreto, mas parece que na época as crônicas eram assinadas por Lumière e intituladas de Cinematógrafo, o que estreita ainda mais a relação com o cinema.

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