Curta “E” (2014) – A subjetiva da máquina é possível?

Não costumo falar de filmes contemporâneos aqui no blog, mas esse chamou muito a minha atenção. Além disso, eu notei uma relação com o primeiro cinema e é sobre ela que vou comentar hoje… O filme é o curta-metragem “E” (Alexandre Wahrhaftig, Helena Ungaretti, Miguel Antunes Ramos, 2014).

A subjetiva da máquina é possível?

Os primeiros planos nos levam por um túnel – não sabemos de onde, não sabemos para onde. Vemos apenas o teto e as luzes que correm. O sentimento é de claustrofobia. Onde estamos? Cidade cinza, viadutos sem calçada: imagens estáticas de ruas que parecem ter sido congeladas. Seriam fotografias? Não. Alguns indícios, como os botões de navegação e a transição entre uma imagem e outra denunciam: depois do túnel há o Google Street View.

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Um cursor de mouse confirma: este é um filme de máquinas. O que ouvimos é uma mistura de ruídos estranhos, que instauram um clima de suspense. Será uma ficção científica?
É um filme desabitado. Aparecem as primeiras “pessoas”, em coloridas fotografias reproduzidas em porções de tecido que – a narração nos explica – servem para transformar em “local agradável” um estacionamento. O som, agora uma música italiana romântica que parece reproduzida em vitrola, e esses paineis que remetem à primavera europeia estão muito distantes da falta de vida que predomina no resto do quadro. Parecem querer construir uma ambientação virtual para aquele lugar hostil. Algumas das palavras que se distinguem na música são “recordar” e “sonhar”. O tempo da vida já passou?

e2À primeira vista pode parecer que as pessoas estão totalmente excluídas das imagens, mas é justamente essa pressuposição que pode obrigar o espectador a buscar constantemente por vida. Vemos um gato que foge, um homem que caminha lá no fundo… Mais adiante um trabalhador aponta para um guindaste. Um braço de mulher sai pela janela do carro e pequenos bonecos tomam sol no jardim de uma maquete. Todas essas figuras, tanto as pessoas quanto as imagens de pessoas, são equivalentes no filme e parecem apontar para o aspecto mais fantasmagórico da vida.

O curta se foca nos estacionamentos de carros, que não param de surgir na cidade de São Paulo, e usa esse fenômeno como metonímia para um problema maior, o da especulação imobiliária.

O único indício de humanidade vem das vozes que ouvimos. Histórias de infância, lembranças antigas de um tempo em que se vivia na cidade… Endereços que a imagem nos mostra terem se transformado em áridos estacionamentos, o som nos lembra que já foram alguma vez a casa de alguém, uma sala de cinema, espaços de convivência.

Para além do que podemos imaginar através do som e apesar de todo o esforço que se possa fazer, será muito difícil encontrar vivalma no filme. Que lugar o espectador encontra para si, então, nessas imagens tão vazias?

EPara tentar responder a essa questão, talvez seja necessário pensar a respeito dos diversos travellings que mostram o que poderíamos chamar a princípio de “ponto de vista dos carros”. As imagens dentro do túnel logo no início, os passeios por estacionamentos de shoppings mais adiante, e também o elevador que passa pelos diversos andares de um macabro estacionamento vertical: todas essas cenas parecem conduzir o espectador por diferentes caminhos, que nunca levam a lugar algum. Pode ser produtivo, então, fazer uma digressão de mais de um século, para entender como surgiu esse tipo de plano e qual era o sentido dele na época.

O travelogue, ou filme de viagem, foi um dos gêneros mais populares do primeiro cinema e lidava com formas diversas que iam desde vistas de cidades distantes até filmes de ficção. Esses filmes mostravam metrópoles famosas, povos considerados exóticos e outras imagens ligadas ao mundo da viagem para um público que começava a ser atraído pelo turismo. Viajar estava se transformando em um modo de apropriação do mundo através das imagens.

Um dos subgêneros mais importantes do travelogue foi o phantom ride, que surgiu já no final do século XIX. Esses filmes eram produzidos a partir da dianteira ou traseira de veículos em movimento, como carros, metrô e, principalmente, trens. Os trilhos que apontam para o horizonte, os postes telegráficos que passam rapidamente e todos os outros objetos em quadro servem de marcação para o fluxo do movimento, o que sugere para o espectador uma posição especial: a de passageiro da viagem representada na tela.

trip down market street before fire 1906

Frame de “A trip down Market Street before the fire” (Irmãos Miles, 1906, EUA)

Na virada do século XIX para o XX, quando quase ninguém podia viajar e muito menos dirigir carros, esses filmes apostavam na ilusão de profundidade criada pela perspectiva e na ideia de fazer o espectador viajar sem sair do lugar para fazer dessas exibições momentos de aproximação com o que havia de mais moderno na cultura urbana. Qual será o sentido, então, de colocar o espectador nessa posição hoje – quando estamos tão familiarizados com a experiência da viagem, do trânsito, do jogo em primeira pessoa?

curta e1 O interesse por esses filmes derivava, na época, da ilusão da sensação de movimento e da possibilidade de conhecer paisagens exóticas, distantes ou urbanas. Mas as phantom rides de “E” não mostram nada de interessante, não chegam a lugar algum. A própria perspectiva praticamente desaparece. A vista dos túneis no início do curta é um exemplo importante nesse sentido, pois o quadro mostra o teto, não a luz no horizonte. E a imagem parece sugerir um estado de sem-saída.

As vistas do Google Street View também têm esse sentido: a dimensão utilitária do aplicativo é esvaziada no filme e ele passa a como que “andar sozinho”. O cursor de mouse que não tem dono, o olhar que não é de ninguém… Tudo isso cria a impressão de estarmos vendo um mundo que morreu. E de fato, em determinado ponto do filme, a ferramenta é usada para mostrar o passado, as casas que já não existem para dar lugar aos estacionamentos.

Essas “viagens” acabam por ter o efeito de estranhamento: um lugar tão corriqueiro se transforma em um ambiente insuportável. “Passear” pelos corredores de um estacionamento de shopping passa a ser uma experiência macabra. A impressão que temos é a de que alguma criatura monstruosa pode aparecer a qualquer instante, ou de que estamos nos aproximando da morte. O som, uma mistura de barulhos mecânicos e outros ruídos agudos e esquisitíssimos, contribuem muito para esse clima de terror.

Mas quem é responsável por esses trajetos que levam de um andar a outro, nesses estacionamentos desertos de gente, mas abarrotados de automóveis? A perspectiva de uma phantom ride pressupõe um veículo onde está instalada a câmera e do qual o espectador imagina ser passageiro. Em um filme desabitado como esse, será possível identificar-se como passageiro (ou motorista)?

E_photo05Sempre que um carro em movimento é focalizado pela câmara, seus vidros refletem o exterior e o que domina o interior é a escuridão. O ponto de vista das phantom rides desse filme não é humano, e sim o da máquina. E essa é uma das estratégias, acredito, que “E” usa para criar um olhar muito singular para a questão da especulação imobiliária. E é por conta do uso que o curta faz dessas “subjetivas da máquina” que seu impacto é tão grande.

A jogada macabra do filme é identificar a nós, os espectadores, com o “olhar” mecânico, o “olhar” dos carros. O filme prova que a subjetiva da máquina é possível, mas só quando tudo o que há de humano é excluído, limado. Assim como a lógica da especulação imobiliária parece construir em detrimento das pessoas. E percebemos que o monstro somos nós, dentro de nossos carros, achando tudo isso normal.

“E” foi o vencedor da Mostra de Cinema de Tiradentes desse ano e poderá ser visto em São Paulo na próxima edição do Kinoforum, que começa em breve. Ainda esta semana postarei as datas e horários. Agradeço ao Leco, um dos diretores, por disponibilizar as imagens que eu postei aqui. 

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