10 filmes silenciosos incrivelmente coloridos!

Participei do blog Silent London com um guest post na seção “Silents by Numbers“, onde entusiastas do cinema silencioso contribuem com listas temáticas. Minha proposta foi listar 10 filmes silenciosos coloridos. Para ver o post é só clicar aqui.

Aí vai uma versão estendida (e em português, claro!):

A maior parte dos filmes lançados desde o surgimento do cinema até a metade da década de 1910 era colorida de alguma forma. Se você está achando essa informação estranha, não se assuste: isso tem justificativas. Como um grande número de filmes a partir de 1920 era de fato lançado em preto e branco, uma visão evolucionista da história criou a ideia de que todo o cinema antigo era assim; até os anos 1990, o custo de preservação de filmes coloridos era tão alto, que os arquivos fílmicos optavam por conservar e restaurar versões em p/b; e, por último, o motivo mais triste: muitos arquivos e o próprio público acreditavam que as técnicas antigas de colorização (assim como os próprios filmes) não eram sofisticadas o suficiente para justificar o esforço de recuperação e exibição.

Duas foram as principais tendências nas pesquisas do cinema colorido: a colorização posterior às filmagens e a captação das “cores naturais” durante as filmagens.

As cores “não-naturais” foram criadas de diferentes formas:

Captura de Tela 2014-01-21 às 16.44.24

Placa de lanterna mágica do final do século XIX

– Aplicação manual quadro a quadro (com minúsculos pincéis e lentes de aumento ou com estênceis), herança dos métodos usados nas placas de lanterna mágica. Era um método caro e demorado. Cada cópia do filme tinha que ser pintada por um grupo de trabalhadores (normalmente mulheres) e cada um era responsável por aplicar apenas uma cor na cópia toda. Esses processos tendiam a realçar os aspectos abstratos dos filmes, criando atmosferas fantásticas e bidimensionais.

Captura de Tela 2014-01-21 às 17.12.49

Sala de máquinas de colorização com estênceis da Pathé

– Aplicação de uma só cor para o quadro todo (com grandes pincéis ou mergulhando a película em banhos de tinta). O tingimento é quando a superfície inteira do filme (as partes escuras e as partes claras da imagem) são coloridas. A viragem é quando só as partes escuras da imagem são coloridas (e as partes claras continuam brancas). Esses processos foram usados de diferentes formas e não havia um código preestabelecido para o significado das cores. Às vezes tinham sentidos mais realistas, como o vermelho para uma cena de incêndio, por exemplo, ou azul para cenas noturnas. Mas em outros casos não é tão simples identificar as motivações para determinadas cores usadas.

nosferatu4

Tingimento de “Nosferatu” (F. W. Murnau, 1922)

A busca por “cores naturais” também começou cedo, ao contrário do que muitos pensam. Foram muitas as tentativas de criar câmeras, películas e projetores que reproduzissem o mundo em cores. Desde o comecinho do século experiências como as de Friese-Greene (sobre quem falei aqui), Edward Turner, e os processos Kinemacolor, Prizma, Technicolor e muitos outros (mas muitos mesmo!) tiveram maior ou menor sucesso na tentativa de produzir imagens coloridas comercialmente.

Para saber mais sobre isso, recomendo o capítulo “The way of all fresh tones” do livro de Paolo Cherchi Usai “Silent cinema, an introduction” e o site Timeline of Historical Film Colors, da pesquisadora Barbara Flueck-Iger.
Então aí vai minha lista. Não é um “top 10”, não é o que eu considero “os melhores filmes coloridos do mundo”. É só uma seleção de 10 filmes que ilustram um pouco essa variedade de maneiras encontradas para produzir filmes coloridos na era silenciosa. São filmes que ajudam a gente a ver o cinema antigo com novos olhos!
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Annabelle Serpentine Dance (Edison, 1895)
O primeiro de muitos filmes dedicados ao gênero da “dança serpentina”, criada pela bailarina americana Loïe Fuller em 1889. A pintura feita à mão, quadro a quadro, remete ao espetáculo de Fuller, que combinava o constante movimento de seu vestido com a projeção de luzes elétricas de diversas cores.
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Pierrette’s Escapades (Alice Guy-Blaché, 1900)
Um exemplo da pintura feita à mão da Gaumont.
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Experimentos sem título (Edward Turner, 1901/02)
Esses filmes, recentemente descobertos, que são na verdade testes de uma nova invenção, mostram como começou cedo a busca pela reprodução das “cores naturais” no cinema.
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Viagem à lua (Georges Méliès, 1902)
A versão em cores do filme era desconhecida até 1993, quando foi encontrada em Barcelona em péssimas condições. Só em 2010 a restauração pôde ser lançada e transformou a imagem que temos deste que é o mais icônico de todos os filmes silenciosos!
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The Lonedale Operator (D. W. Griffith, 1911)
Aqui está um uso interessante da cor no cinema silencioso. A cor tem um papel narrativo na cena final. A mocinha só consegue enganar os bandidos (fazendo-os acreditar que ela tem uma arma, quando na verdade é uma chave inglesa) porque a cena se passa no escuro. E o que sugere isso é o tingimento azul.
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A day with John Burroughs (1919)
Assisti a esse filme em Pordenone, no ano passado. Fiquei encantada com as lições de vida desse velhinho. As cores, do sistema Prizma Color, criam uma atmosfera muito delicada.
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O Gabinete do Doutor Caligari (Robert Wiene, 1919)
Todos conhecem esse! Mas agora em fevereiro será lançada no Festival de Berlim uma versão restaurada baseada no tingimento e viragem originais.
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Virginian Types: Blue Ridge Mountaineers (1926)
Um exemplo incrível, descoberto há pouco tempo, de Pathécolor. Aqui podemos ver um uso mais recente desse processo que a Pathé criou em 1905. Era uma forma de colorir o filme com estênceis, automatizando a demorada pintura à mão.
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Lonesome (Paul Fejos, 1928) 
Filme híbrido em vários sentidos: é um filme mudo, um filme sonoro, em preto e branco e colorido! As cenas em cores são muito interessantes! (o vídeo é um trailer feito pela Criterion Collection que mostra 3 motivos para assistir ao filme)
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The Love Charm (Howard Mitchell, 1928)
E este é um exemplo pouco conhecido do processo de duas cores da Technicolor. É uma história de amor bem esquisita e com cores maravilhosas!
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Por favor, se acham que está faltando algum filme ou se discordam totalmente da minha lista, digam como seriam as suas! :)
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– a maior parte das informações deste post retirei do livro de Paolo Cherchi Usai “Silent Cinema, an introduction”
– agradeço aos amigos sempre presentes pela ajuda com o post e a versão em inglês: Cae e Ariel 

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  1. Adorei a lista! As cores são realmente incríveis!
    E isso, de não se saber que os filmes eram coloridos é muito doido!
    Parabéns, tá demais!!!

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  2. Nina, adorei a lista, como já comentei no site do Silent London. Como disse a você antes, vi no MOMA um filme vienense maravilhoso, de 1918 (ou 19?) chamado Der Mandarin, de Fritz Freisler. Se bem me recordo, a técnica usada no filme foi a do tingimento (usando o vocabulário que acabei de aprender aqui =) )
    Espero que fique disponível logo. Tentei pesquisar vídeos na internet, mas não encontrei nem um trecho sequer do filme para te mostrar.

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