diário da Giornate – a perseguição em “Too much Johnson”

Diário da Giornate

Como eu disse no post anterior, o filme recém redescoberto de Orson Welles, “Too much Johnson” (1938), será exibido em primeira mão na Giornate del Cinema Muto desse ano, no dia 9 de outubro!

Não sabemos muito sobre o filme, além das informações que já postei… É uma comédia pastelão silenciosa, mas isso não explica muita coisa, né? Vou tentar encontrar mais detalhes enquanto não podemos assistir ao filme de verdade. Na notícia que saiu no New York Times tem uma descrição mais ou menos assim sobre o primeiro curta (são três; cada um abriria um ato da peça, como eu já disse):

O primeiro (e mais completo na cópia redescoberta) era uma perseguição através do baixo Manhattan filmada no estilo de uma comédia silenciosa, com perseguidores do tipo dos Keystone Kops, uma manifestação sufragista para ultrapassar e Cotten [um dos atores] cambaleando à beira de um arranha-céu, como Harold Lloyd em “Safety Last!”

Uau! Temos aí alguns elementos bem característicos das comédias mudas do tipo slapstick! Sobre Harold Lloyd já comentamos bastante por aqui, por exemplo nesse post! Mas podemos olhar mais de perto para essa outra referência, os atrapalhados policiais da Keystone

Cena de "Too much Johnson" de Orson Welles

Cena de “Too much Johnson” de Orson Welles que faz referência aos filmes dos Keystone Kops

Foi no estúdio da Keystone, fundado por Mack Sennett, que surgiram sucessos da comédia pastelão, como os Keystone Kops e ninguém menos que Charlie Chaplin! Os Keystone Kops (ou cops) eram policiais totalmente estabanados, que se envolviam em perseguições cheias de tropeços. Esses bigodudos desgrenhados nos mostram, hoje, como era banalizada a ridicularização das autoridades durante os anos 1910… Eles eram totalmente ineficientes e confusos!

Os Keystone Kops em ação

Os Keystone Kops em ação

Os Keystone Kops surgiram em 1912 (ou 13!) e um dos primeiros (ou o primeiro) filme deles foi “The Bangville Police”. Para começar a se familiarizar com a trupe, aí vai ele:
Uma curiosidade: em 2010, o pesquisador Paul Gierucki comprou um filme em uma feira de antiguidades. A lata dizia “Keystone” e ele pensou ser mais um filme dos famosos Kops. Mas quando assistiu, reconheceu Charlie Chaplin como um dos policiais! Chaplin já havia dito (em sua biografia, por exemplo), que tinha atuado em alguns filmes dos Kops, mas parece que não tínhamos acesso a nenhum! Agora, com o DVD Chaplin at Keystone, é possível assistir a esse filme redescoberto…
Chaplin como um dos Keystone Kops em "The Thief Catcher" (1914)

Chaplin como um dos Keystone Kops em “The Thief Catcher” (1914)

Interessante saber que o filme de Welles não é só um filme sem som sincronizado. Muito mais massa que isso, a obra é um filme mudo no sentido de que sua linguagem remete ao cinema antigo em vários sentidos, inclusive com referências à artistas específicos. Não vejo a hora de poder assistir! :)

PS: Pelas informações sobre o filme em que Chaplin atua como um Keystone Kop, agradeço ao blog Chaplin at Keystone, do meu novo colega Jonny, que estará em Pordenone este ano também como membro do Collegium!

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diário da Giornate – “the freshman”

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Voltando à série de posts de preparação para a Giornate del Cinema Muto de 2013…

lonesome luke harold lloydComo eu disse nos posts anteriores, o ator Harold Lloyd conheceu o produtor Hal Roach (o mesmo que lançou “O Gordo e o Magro” e a série “Our gang”, tema deste post) logo no começo de sua carreira, quando ambos ainda trabalhavam como figurantes. Quando Roach recebeu uma herança e decidiu montar seu próprio estúdio, a Rolin Film Company, em 1913, Lloyd foi trabalhar com ele e criou suas primeiras personagens, como Willie Work e Lonesome Luke. Nessa primeira fase de sua carreira, como muitos outros comediantes da época, sua maior inspiração foi Chaplin. Mesmo quando tentava construir uma imagem oposta a ele, como dá pra ver nesse poster de Lonesome Luke ao lado, a referência ao vagabundo é clara: em vez do bigodinho logo abaixo do nariz, dois tufos separados; em vez das roupas largas, essas calças justas e curtas. O paletó apertado mal fecha os botões…

Aqui podemos ver uma comédia dessa época, “Lonesome Luke: The cinema director” (ou “Luke’s Movie Muddle”, de 1916):

Escolhi esse filme para colocar aqui (não só por ser um dos poucos que encontrei online dessa fase da carreira de Lloyd), mas porque me chamou muito a atenção. Lloyd trabalha em uma sala de cinema praticamente sozinho: ele vende os ingressos na bilheteria, recolhe logo em seguida na entrada da sala, tem o papel de lanterninha e ainda quer paquerar as espectadoras enquanto a sessão não começa. Além dele, só participam do quadro de funcionários da sala um desastrado projecionista, que acaba se enrolando todo na película e atrasando o filme, e um pianista, que faz o acompanhamento musical! É claro que o filme é uma comédia pastelão, não tem o objetivo de ser fiel à realidade, mas com certeza nos dá uma ideia de como eram as salas de cinema da época. Podemos ver, por exemplo, que uma prática tão comum nos primeiros anos do cinema como falar durante a projeção vira motivo de piada e recriminação do lanterninha, que quer calar a boca das senhoras que insistem em conversar. Muito já havia mudado na forma dos filmes e no modo de vê-los!

Depois de ter alguns problemas com o produtor Roach, trabalhar com Mack Sennett e voltar para a companhia do primeiro, com quem, apesar das brigas, tinha uma relação muito especial, ele criou sua própria produtora, a Harold Lloyd Corporation. Até o começo dos anos 1920, seus filmes tinham muita ação física, mas a partir dessa nova fase, além de passar a produzir filmes de longa metragem, ele passou a dar mais atenção à personagem e as gags (que antes recheavam os filmes de ponta a ponta) diminuíram. Ele foi, então, criando essa personagem que é um cara normal, um pouco desajeitado e distraído.

É dessa nova fase o filme que será exibido na sessão de encerramento da Giornate del Cinema Muto desse ano, “The Freshman” (1925). Esse eu ainda não consegui assistir, mas parece genial. No site da Giornate tem uma citação de Kevin Brownlow que está me deixando muito ansiosa:

[The Freshman é] um épico do embaraço!

Nesse link tem um trechinho que dá uma dica do que ele está falando!

CarlDavisO filme, que foi o maior sucesso de Lloyd na época, terá um novo acompanhamento musical criado por Carl Davis e executado pela FVG Mitteleuropa Orchestra. Davis é um compositor e regente que já trabalhou com muitos filmes silenciosos, incluindo “Napoléon” (Abel Gance, 1927), “Intolerância” (D. W. Griffith, 1916) e filmes de Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd, entre outros. Ouvindo a trilha que ele fez pro filme “A General“, de Buster Keaton, dá pra ter uma ideia do trabalho dele.

Para saber mais sobre Harold Lloyd e ver vários trechos de seus filmes (inclusive “The Freshman”), recomendo o documentário “Harold Lloyd: the third genius” (1989), de Kevin Brownlow, que está disponível online (é só clicar no título)! Vale a pena assistir, são várias entrevistas com figuras como Hal Roach, Mildred Davis e o próprio Lloyd. E a música foi feita por… Carl Davis! ;)

Aquela explicação que está nos extras do blu-ray de Safety Last! (que eu comentei nesse post) já tinha sido mostrada nesse documentário! Dá pra ver, inclusive, que ele usou a mesma técnica em outros filmes da época, que eram chamados de thrill pictures, como “High & Dizzy“.

Woman faints as Lloyd pulls rare thriller

Notícia da época sobre “Safety Last!” (1923)

***

Para terminar, uma frase do produtor Hal Roach sobre Lloyd:

Harold Lloyd não era um comediante, mas foi o melhor ator para representar um comediante que eu já vi

Acho que vale a pena pensar sobre o que isso significa… É uma frase irônica, claro. Todos sabemos que Lloyd era, sim, um comediante. Mas a ideia de ele que representava um comediante cria uma nova camada de sentido para sua personagem. Inclusive se lembrarmos que em vários de seus filmes ele aparece como the boy, sendo muitas vezes referido pelo próprio nome, Harold, ou mesmo Harold Lloyd. Não é à toa que ele não tinha uma forma de andar característica, por exemplo, como a de Chaplin, ou roupas excêntricas. É como se o próprio ator estivesse exposto, de certa forma…

harold lloyd – comediante das alturas

Preparando o próximo post da série sobre a programação da Giornate del Cinema Muto, que será sobre o filme “The Freshman“, com Harold Lloyd, aproveitei para assistir a alguns filmes e encontrei algumas informações bem interessantes…

safetylast

Safety last!” (Fred C. Newmeyer, Sam Taylor, 1923 – “O homem mosca” no Brasil), o longa mais famoso de Harold Lloyd, tem uma das cenas mais homenageadas da história do cinema. Uma das vezes mais recentes em que vimos alguém pendurado nos ponteiros de um relógio foi em “A invenção de Hugo Cabret” (Martin Scorsese, 2011).

A cena da escalada do prédio é realmente impressionante: é muito engraçada, mas também é MUITO tensa! Dos 70 minutos de duração total, 20 são dedicados à escalada! A cena funciona no filme como uma atração quase independente. Nós esquecemos rapidamente o motivo que faz Harold ter que subir no prédio (que é chamar atenção de um grande público para aumentar o movimento na loja em que ele trabalha como vendedor, que fica no piso térreo da construção) e dedicamos toda a nossa atenção à superação de cada obstáculo que ele vai encontrando pelo caminho (pombas, um cachorro, o famoso relógio, um ratinho etc.).

É o público, dentro do filme, que o obriga a continuar com o espetáculo que pode custar sua vida. Essa massa que assiste a proeza da personagem e que aplaude a cada andar conquistado é responsável por manter a situação até que ele chegue ao telhado do prédio. Tudo pelo espetáculo!

Harold Lloyd Safety Last publico

Em outros filmes, como “Look out below” (1918) e “High and dizzy” (1920), Lloyd também criou cenas impressionantes no parapeito de prédios e em andaimes altíssimos…

A tensão que sentimos ao perceber que a personagem poderia morrer parece se estender também para o próprio ator, pois as cenas são muito realistas! Às vezes parece ser uma cena documental sobre um homem que de fato escalou um prédio (ou subiu num andaime, ou caminhou por um parapeito estreitíssimo).

E, de certa maneira, foi o que ele fez… Mas com alguma segurança! Aí vai uma explicação genial de como a cena foi feita:

O vídeo acima é um trecho de um dos extras do blu-ray recém lançado pela Criterion Collection. Vemos no vídeo o pesquisador John Bengtson, cujo blog, Silent Locations, mostra muitas locações de filmes de Chaplin, Keaton, Lloyd e outros. Mas o mais interessante do trabalho dele são essas explicações que nos aproximam da produção da era silenciosa. O ator não está muito longe de sua personagem: Harold Lloyd escalou também um prédio, de certa maneira…

Esse senso de realidade era uma característica forte de Harold Lloyd. Sua “máscara”, os óculos redondos, parecem trazer esse palhaço para perto do espectador da época. Ele é um “cara normal”. Um jovem de classe média típico, como os que frequentavam o cinema nos anos 1920.

***

Para terminar: o garoto ruivinho de “Our Gang” (série produzida pelo mesmo produtor de “Safety last!” e tema deste post), Mickey Daniels, aparece rapidamente no clássico de Harold Lloyd, como um vendedor de jornal. Aí vai uma imagem do malandro:

littlerascalinsafetylast

diário da Giornate – “our gang”

Diário da Giornate

Começando a série de posts de preparação para a Giornate del Cinema Muto deste ano, vou falar um pouco sobre a sessão de Eventos Especiais, que terá a exibição de alguns filmes com novas trilhas sonoras. Dois deles são de uma mesma “família”:

No noise” (Hal Roach, 1923) com música ao vivo da Orchestra Scuola Media “Leonardo da Vinci” di Cordenons

Crazy house” (Hal Roach, 1928) com música ao vivo da Orchestra Scuola Media “Centro Storico” di Pordenone

Os dois curtas fazem parte da série Our Gang (também conhecida como The Little Rascals), que foi uma série americana de comédia que fez enorme sucesso na época. Os atores principais eram todos crianças bem jovens (alguns ainda nem frequentavam a escola!) que representavam amigos de vizinhança. A série foi produzida de 1922 a 1944! A graça dos filmes está no carisma (e caretas) das crianças, nas situações de mal entendidos e em outras situações absurdas.

our gang

No começo os filmes eram produzidos pelo estúdio do americano Hal Roach e distribuídos pela Pathé, como é o caso de “No noise”. A partir de 1927, os curtas passaram a ter a MGM como distribuidora – é dessa segunda fase o curta “Crazy house”. Depois de 1929 a série entrou na era dos filmes sonoros e continuou o grande sucesso. Em 38 Roach vendeu a série para a MGM, que continuou a produção até 44. Foram mais de 200 filmes produzidos e depois a série ainda voltou nos anos 1950 na TV. Aqui nesse link dá pra ver os títulos e datas de todos os episódios da série.

Assisti a alguns curtas da série, entre eles “Saturday Morning” (1922), o quinto episódio. Ele aparece no Youtube como “Hurrah for the Holydays!” e parece que não é a versão original: algumas cenas iniciais e intertítulos foram cortados.

Achei bem interessante em primeiro lugar pela atuação das criancas. A série foi famosa por mostrar uma interpretação verossímil, “realista” (já que naquela época as crianças eram maquiadas para se parecerem com adultos e raramente contracenavam com outras crianças). Mas o que me chamou atenção na atuação das crianças (e em outros elementos do filme, como a escolha por alguns closes específicos) foi justamente a ênfase na atração. São comédias que focam bastante o corpo das personagens e suas caretas em primeiro plano. O filme tem vários momentos em que se dedica aos animaizinhos com que as crianças brincam (sapos e filhotinhos de gatos e de patos) e a trucagens (como o sonho de Micky, o ruivinho, que lembra muito o pesadelo de “Dream of a rarebit fiend“, Edison, 1903). Enfim, há muitas cenas que enfatizam a unidade interna do plano, escapando um pouco da narrativa, que, apesar disso, vai se construindo aos poucos. Mas acho que dá pra dizer que na primeira parte do curta, em que a vida cotidiana das personagens é apresentada através de situações engraçadas dentro das casas, o que predomina é a atração.

jean darlingEm “Crazy house“, um dos que serão exibidos na Giornate, os adultos aproveitam o primeiro de abril para encher uma casa com armadilhas e diabruras das mais diversas. Eles dizem que assim voltam a se sentir como crianças. E quando as crianças verdadeiras entram na casa, o filme se concentra em uma série de cenas em que a trupe passa por esses “obstáculos”: as estátuas se mexem, os meninos tentam comer e os talheres estão moles, as comidas são de plástico… Também tem algumas trucagens legais, como sobreimpressões e efeitos de raios que saem de objetos que dão choque!

A estrela desse filme é uma das atrizes mais conhecidas e admiradas do grupo da “Our gang”: Jean Darling! Ano passado (e parece que em muitos outros anos também) ela esteve em Pordenone. Aí vai uma entrevista feita com ela na 31ª Giornate:

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Talvez essa imagem da trupe de crianças com o cachorrinho de olho pintado seja familiar a alguns…

os batutinhas

Pois é, “Os batutinhas”, o clássico da (minha, pelo menos!) infância, foi baseado na antiga série. O título do filme é justamente “The Little Rascals” e quase todas as personagens e cenas foram inspiradas na série original!

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Foi também com Hal Roach que a dupla Laurel & Hardy (“O Gordo e o Magro”, para nós) começou a carreira, no início dos anos 20. E antes de ser um produtor de sucesso, Roach trabalhou como ator de cinema no começo dos anos 1910 e logo conheceu Harold Lloyd, com quem produziu uma série de comédias.

(Esse assunto será tema de um próximo post, já que a sessão de encerramento do festival será o filme “The Freshman“, um longa dos anos 20 com Lloyd!)