Retorno!

Depois de algum tempo abandonado (mas jamais esquecido!) este blog volta à ativa! Fui intimada por alguns leitores raivosos, ávidos por notícias do mundo silencioso…

Lloyd, Harold (An Eastern Westerner)

Meus queridos leitores, me “incentivando”.

Muitos amigos me perguntam como podem surgir novas notícias sobre um assunto tão velho… Ou como podem festivais de cinema mudo terem sempre filmes novos para exibir. O que muita gente não sabe é que o cinema silencioso está em constante transformação: novos filmes (ou novas versões) são encontrados e, claro, novos olhares sobre os velhos filmes são construídos através de novas publicações. Apesar do período dito mudo ter acabado por volta do final dos anos 1920, continuamos redescobrindo e reconstruindo essa história. E eu vou provar isso aqui no blog! :)

Então, nas próximas semanas vocês podem esperar vários novos textos por aqui…

– pelo menos 4 posts da série Diário da Giornate, sobre a 33a edição da Giornate del Cinema Muto, que aconteceu em outubro de 2014;

– a continuação da série Diário de Pesquisa, com mais relatos da minha Iniciação Científica sobre os simuladores de viagem do primeiro cinema no Brasil;

– alguns posts sobre coisas bacanas ligadas ao cinema silencioso que encontrei em viagens que fiz ano passado para Paris e Nova Iorque, na nova série Diário de Viagem;

– e, claro, dicas semanais, na continuação da série Na Mosca!

Todas essas e outras séries de posts podem ser acessadas pelo menu lateral aqui do blog.

Serão muitos posts interessantes (espero!)… Entre eles destaco a entrevista que eu fiz com o Federico Striuli, querido amigo italiano que fez a curadoria de um programa de primeiro cinema na Giornate 2014!

Isso e muito mais em breve aqui no blog! ;)

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Harold Lloyd na Cinearte

Ainda sobre Harold Lloyd, um post rapidinho:

Encontrei algumas matérias com ele na Cinearte, revista carioca que durou de 1926 a 1942. Desde 1927 a Cinearte teve um correspondente exclusivo em Hollywood. O primeiro a exercer o cargo foi Lamartine S. Marinho, que conseguiu entrevistar até Greta Garbo! Em 32 ele foi substituído por Gilberto Souto, que trabalhava no Correio da Manhã e ficou nesse cargo até o fim da revista. [1] Essa seção foi muito importante para a formação da posição editorial da revista, que via no cinema americano um modelo a ser seguido pelo Brasil, de modo a criar uma indústria cinematográfica nacional, com filmes de ficção, star system e alta qualidade.

Outro comentário importante que é preciso fazer sobre a Cinearte é que ela trabalhou ativamente em defesa do cinema como arte silenciosa no período de transição, na virada dos anos 20 para os anos 30. Apesar de muitas vezes se contradizer nessa questão e acabar aceitando o cinema falado por volta de 1931, a revista publicou muitos textos que defendiam o eles chamavam de “cinema puro”, que seria uma arte baseada na imagem e no gesto.

Enfim, o caso é que encontrei essa entrevista feita com Harold Lloyd por Gilberto Souto numa edição de agosto de 1934:

Souto conversou com Lloyd em uma festa de Hal Roach em Hollywood. E já de início podemos ver as ressalvas que o correspondente faz ao cinema dublado (na transcrição que segue mantive a grafia original):

Perguntou-me elle, por exemplo, se nós receberíamos seus trabalhos com dialogos em portuguez. Elle assim tem feito em varios idiomas – naturalmente por imposição de certas leis européas, que não permittem os Films dialogados em inglez.

Disse-lhe que não. É mil vezes preferivel ouvir-se no original do que assistir a suas comedias, com dialogo em portuguez, mas falado por outras pessoas. É ridículo, artificial e estupido.

Não há coisa mais insupportavel do que as taes synchronizações – quando vemos um artista falando em nossa propria língua – é verdade, mas com os movimentos dos labios imperfeitos – resultando numa palhaçada sem gosto.

Expliquei-lhe o modo pelo qual os departamentos estrangeiros das varias empresas resolveram a questão – a apresentação de taes Films com os letreiros impressos nas scenas facilitando a comprehensão dos dialogos.

Mais adiante na entrevista, Lloyd diz que o filme preferido de sua carreira é “Grandma’s Boy” (1922), um de seus primeiros longas, cujo título em português, como aparece na Cinearte, é O Predilecto da Avózinha :)! Além da entrevista, a matéria tem também a descrição dos cenários do filme que Lloyd estava produzindo no momento, “The Cat’s Paw”, que Gilberto Souto visitou.

Vale a pena ler tudo… A matéria pode ser visualizada em três partes, aquiaqui e aqui! E as edições da Cinearte estão disponíveis neste link do Museu Lasar Segall.

Nota:

[1] Fonte: Enciclopédia do Cinema Brasileiro, Fernão Ramos e Luiz Felipe Miranda (orgs.), Editora Senac, p. 127.

diário da Giornate – “the freshman”

Diário da Giornate

Voltando à série de posts de preparação para a Giornate del Cinema Muto de 2013…

lonesome luke harold lloydComo eu disse nos posts anteriores, o ator Harold Lloyd conheceu o produtor Hal Roach (o mesmo que lançou “O Gordo e o Magro” e a série “Our gang”, tema deste post) logo no começo de sua carreira, quando ambos ainda trabalhavam como figurantes. Quando Roach recebeu uma herança e decidiu montar seu próprio estúdio, a Rolin Film Company, em 1913, Lloyd foi trabalhar com ele e criou suas primeiras personagens, como Willie Work e Lonesome Luke. Nessa primeira fase de sua carreira, como muitos outros comediantes da época, sua maior inspiração foi Chaplin. Mesmo quando tentava construir uma imagem oposta a ele, como dá pra ver nesse poster de Lonesome Luke ao lado, a referência ao vagabundo é clara: em vez do bigodinho logo abaixo do nariz, dois tufos separados; em vez das roupas largas, essas calças justas e curtas. O paletó apertado mal fecha os botões…

Aqui podemos ver uma comédia dessa época, “Lonesome Luke: The cinema director” (ou “Luke’s Movie Muddle”, de 1916):

Escolhi esse filme para colocar aqui (não só por ser um dos poucos que encontrei online dessa fase da carreira de Lloyd), mas porque me chamou muito a atenção. Lloyd trabalha em uma sala de cinema praticamente sozinho: ele vende os ingressos na bilheteria, recolhe logo em seguida na entrada da sala, tem o papel de lanterninha e ainda quer paquerar as espectadoras enquanto a sessão não começa. Além dele, só participam do quadro de funcionários da sala um desastrado projecionista, que acaba se enrolando todo na película e atrasando o filme, e um pianista, que faz o acompanhamento musical! É claro que o filme é uma comédia pastelão, não tem o objetivo de ser fiel à realidade, mas com certeza nos dá uma ideia de como eram as salas de cinema da época. Podemos ver, por exemplo, que uma prática tão comum nos primeiros anos do cinema como falar durante a projeção vira motivo de piada e recriminação do lanterninha, que quer calar a boca das senhoras que insistem em conversar. Muito já havia mudado na forma dos filmes e no modo de vê-los!

Depois de ter alguns problemas com o produtor Roach, trabalhar com Mack Sennett e voltar para a companhia do primeiro, com quem, apesar das brigas, tinha uma relação muito especial, ele criou sua própria produtora, a Harold Lloyd Corporation. Até o começo dos anos 1920, seus filmes tinham muita ação física, mas a partir dessa nova fase, além de passar a produzir filmes de longa metragem, ele passou a dar mais atenção à personagem e as gags (que antes recheavam os filmes de ponta a ponta) diminuíram. Ele foi, então, criando essa personagem que é um cara normal, um pouco desajeitado e distraído.

É dessa nova fase o filme que será exibido na sessão de encerramento da Giornate del Cinema Muto desse ano, “The Freshman” (1925). Esse eu ainda não consegui assistir, mas parece genial. No site da Giornate tem uma citação de Kevin Brownlow que está me deixando muito ansiosa:

[The Freshman é] um épico do embaraço!

Nesse link tem um trechinho que dá uma dica do que ele está falando!

CarlDavisO filme, que foi o maior sucesso de Lloyd na época, terá um novo acompanhamento musical criado por Carl Davis e executado pela FVG Mitteleuropa Orchestra. Davis é um compositor e regente que já trabalhou com muitos filmes silenciosos, incluindo “Napoléon” (Abel Gance, 1927), “Intolerância” (D. W. Griffith, 1916) e filmes de Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd, entre outros. Ouvindo a trilha que ele fez pro filme “A General“, de Buster Keaton, dá pra ter uma ideia do trabalho dele.

Para saber mais sobre Harold Lloyd e ver vários trechos de seus filmes (inclusive “The Freshman”), recomendo o documentário “Harold Lloyd: the third genius” (1989), de Kevin Brownlow, que está disponível online (é só clicar no título)! Vale a pena assistir, são várias entrevistas com figuras como Hal Roach, Mildred Davis e o próprio Lloyd. E a música foi feita por… Carl Davis! ;)

Aquela explicação que está nos extras do blu-ray de Safety Last! (que eu comentei nesse post) já tinha sido mostrada nesse documentário! Dá pra ver, inclusive, que ele usou a mesma técnica em outros filmes da época, que eram chamados de thrill pictures, como “High & Dizzy“.

Woman faints as Lloyd pulls rare thriller

Notícia da época sobre “Safety Last!” (1923)

***

Para terminar, uma frase do produtor Hal Roach sobre Lloyd:

Harold Lloyd não era um comediante, mas foi o melhor ator para representar um comediante que eu já vi

Acho que vale a pena pensar sobre o que isso significa… É uma frase irônica, claro. Todos sabemos que Lloyd era, sim, um comediante. Mas a ideia de ele que representava um comediante cria uma nova camada de sentido para sua personagem. Inclusive se lembrarmos que em vários de seus filmes ele aparece como the boy, sendo muitas vezes referido pelo próprio nome, Harold, ou mesmo Harold Lloyd. Não é à toa que ele não tinha uma forma de andar característica, por exemplo, como a de Chaplin, ou roupas excêntricas. É como se o próprio ator estivesse exposto, de certa forma…

harold lloyd – comediante das alturas

Preparando o próximo post da série sobre a programação da Giornate del Cinema Muto, que será sobre o filme “The Freshman“, com Harold Lloyd, aproveitei para assistir a alguns filmes e encontrei algumas informações bem interessantes…

safetylast

Safety last!” (Fred C. Newmeyer, Sam Taylor, 1923 – “O homem mosca” no Brasil), o longa mais famoso de Harold Lloyd, tem uma das cenas mais homenageadas da história do cinema. Uma das vezes mais recentes em que vimos alguém pendurado nos ponteiros de um relógio foi em “A invenção de Hugo Cabret” (Martin Scorsese, 2011).

A cena da escalada do prédio é realmente impressionante: é muito engraçada, mas também é MUITO tensa! Dos 70 minutos de duração total, 20 são dedicados à escalada! A cena funciona no filme como uma atração quase independente. Nós esquecemos rapidamente o motivo que faz Harold ter que subir no prédio (que é chamar atenção de um grande público para aumentar o movimento na loja em que ele trabalha como vendedor, que fica no piso térreo da construção) e dedicamos toda a nossa atenção à superação de cada obstáculo que ele vai encontrando pelo caminho (pombas, um cachorro, o famoso relógio, um ratinho etc.).

É o público, dentro do filme, que o obriga a continuar com o espetáculo que pode custar sua vida. Essa massa que assiste a proeza da personagem e que aplaude a cada andar conquistado é responsável por manter a situação até que ele chegue ao telhado do prédio. Tudo pelo espetáculo!

Harold Lloyd Safety Last publico

Em outros filmes, como “Look out below” (1918) e “High and dizzy” (1920), Lloyd também criou cenas impressionantes no parapeito de prédios e em andaimes altíssimos…

A tensão que sentimos ao perceber que a personagem poderia morrer parece se estender também para o próprio ator, pois as cenas são muito realistas! Às vezes parece ser uma cena documental sobre um homem que de fato escalou um prédio (ou subiu num andaime, ou caminhou por um parapeito estreitíssimo).

E, de certa maneira, foi o que ele fez… Mas com alguma segurança! Aí vai uma explicação genial de como a cena foi feita:

O vídeo acima é um trecho de um dos extras do blu-ray recém lançado pela Criterion Collection. Vemos no vídeo o pesquisador John Bengtson, cujo blog, Silent Locations, mostra muitas locações de filmes de Chaplin, Keaton, Lloyd e outros. Mas o mais interessante do trabalho dele são essas explicações que nos aproximam da produção da era silenciosa. O ator não está muito longe de sua personagem: Harold Lloyd escalou também um prédio, de certa maneira…

Esse senso de realidade era uma característica forte de Harold Lloyd. Sua “máscara”, os óculos redondos, parecem trazer esse palhaço para perto do espectador da época. Ele é um “cara normal”. Um jovem de classe média típico, como os que frequentavam o cinema nos anos 1920.

***

Para terminar: o garoto ruivinho de “Our Gang” (série produzida pelo mesmo produtor de “Safety last!” e tema deste post), Mickey Daniels, aparece rapidamente no clássico de Harold Lloyd, como um vendedor de jornal. Aí vai uma imagem do malandro:

littlerascalinsafetylast