Diário de Karlsruhe IV – meus destaques da programação

Último post da série sobre a minha experiência como membro do Collegium do Stummfilm Festival de Karlsruhe, Alemanha, em março deste ano. Hoje vou comentar brevemente alguns dos filmes que mais me marcaram… A programação completa pode ser acessada aqui.

telakarlsruhe

A sala de projeção.

Meu primeiro destaque é a sessão de abertura do festival: foram exibidos “Au bal de flore” (Alice Guy, 1900) e “Hamlet” (Svend Gade, Heinz Schall, 1920).

O filme de Alice Guy foi o único filme do primeiro cinema da programação. Foi especialmente legal para mim, já que o tema da minha apresentação no Collegium era justamente esse período e essa realizadora. O curta é um exemplo típico do cinema de atrações: é uma cena de dança, colorida com estêncil. O filme foi programado no festival por causa do alinhamento com o tema (Cross-dressing no Cinema Silencioso). As duas personagens (uma mulher e um homem) são interpretadas por duas dançarinas. É interessante perceber como aparece uma certa insinuação homossexual no final, quando a personagem masculina beija os braços da outra moça. Está disponível no Youtube.

O filme não explica e nem justifica a escolha por duas dançarinas em nenhum momento, como passa a acontecer nos filmes posteriores (em todos os outros filmes do festival havia sempre um motivo para o travestimento – na maior parte das vezes, o disfarce da própria identidade). Isso acontece porque esse filme está muito mais ligado ao tipo de atração do vaudeville, onde essas “trocas de gênero” eram comuns. Eu achei muito importante esse filme ter sido exibido porque mostra um tipo de cinema diferente, que mesmo os frequentadores de festivais de cinema silencioso não estão tão acostumados a assistir e apreciar!

Hamlet” foi uma enorme surpresa para mim! Eu não conhecia o filme e conheço pouquíssimo sobre a atriz Asta Nielsen. Nós assistimos a uma linda restauração de 2007, que trouxe de volta as cores do filme, até então disponível somente em preto e branco. A história do filme parte de uma interpretação do Hamlet segundo a qual o príncipe da Dinamarca seria uma mulher. Ela é criada como homem para defender o trono e tem que esconder sua verdadeira identidade. Asta Nielsen é incrível. Seu corpo é extremamente versátil e seu rosto pálido faz transbordarem seus conflitos internos por ter que viver como homem.

É possível assistir ao filme no Youtube, mas já aviso que a qualidade é péssima, não é a mesma versão restaurada que vimos no festival e está sem legendas!

Festival Karlsruhe

Catálogo (aberto na página sobre “Hamlet”), pôster, cartão postal e o meu crachá.

Outro destaque que eu gostaria de comentar rapidamente é o filme “Charley’s Aunt“, com Sydney Chaplin (irmão de Charles Chaplin!). O filme é uma slapstick comedy bem convencional. Posso dizer também que é um filme conservador, no sentido de manter os gêneros intocados, apesar do cross-dressing. Mas eu queria citar porque quem se traveste é um homem que tem que se passar pela “tia Donna Lucia”, uma brasileira riquíssima. Para mim, as partes mais engraçadas foram as referências ao Brasil, sempre pintado como um país muito exótico, muito quente. E toda a caracterização da personagem brasileira faz ela parecer mais uma espanhola (ou a imagem clichê que temos da moda espanhola da época, hehe)!

Outro filme que adorei conhecer foi “Das Liebes ABC” (Magnus Stifter, 1916). De novo Asta Nielsen se traveste! Ela foi a estrela do festival, sem dúvida. Adorei a forma como o filme faz graça com os padrões “do que deve ser” um homem e uma mulher. Já falei um pouco do filme nesse post, quando comentei a apresentação da Vanessa, também selecionada para o Collegium.

Asta Nielsen - ABC

Asta Nielsen “aprendendo” o que é ser homem e o que é ser mulher em um livro em “Das Liebes ABC”.

E, por último, “Der Geiger von Florenz” (Paul Czinner, 1925), com Conrad Veidt. É a história de uma menina que, para fugir de sua madrasta e de (se me lembro bem) sua escola, foge para a Itália disfarçada de homem. O roteiro é bem maluco e inverossímil, o que faz o filme se assemelhar a uma comédia, às vezes. Mas na verdade é um drama sobre a dificuldade que essa garota tem de se encaixar em seu papel social como mulher. Foi um dos filmes mais intrigantes.

Mas o que tornou a experiência mais especial foi o acompanhamento musical de Günter Buchwald, um músico alemão especialista em música para cinema silencioso. Já tinha visto algumas apresentações dele em Pordenone, no ano passado, mas essa foi a melhor! Ele tocou piano e violino e criou um clima de delicadeza essencial para a minha compreensão do filme. Adoraria ver o filme de novo com outro acompanhamento, para ver o que mudaria… Mas também adoraria ver mais filmes acompanhados pela música dele. Como esse festival é bem menor que a Giornate de Pordenone, foi fácil conversar com ele. Uma experiência que eu nunca vou esquecer!

A música é muito importante na exibição de filmes do período “mudo”… Não podemos deixar para segundo plano a experiência desses músicos que, com suas interpretações, conseguem chamar nossa atenção para aspectos às vezes inesperados dos filmes.

Então é assim que eu termino a série de posts sobre esse festival de cinema silencioso que eu tive a alegria de poder participar! Foi incrível! Pude rever amigos, conhecer pessoas e criar novas frentes para os meus estudos sobre o cinema antigo…

karlsruhe castelo

Terminando a série de posts sobre Karlsruhe com todo o charme dessa cidadezinha!

Agradeço aos meus pais por terem tornado essa experiência possível; ao pessoal do festival, que me acolheu tão bem; e principalmente ao Caetano, pelo incentivo, pela inspiração e por estar sempre ao meu lado! <3

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Diário de Karlsruhe II – apresentações do Collegium

Antes tarde do que nunca! Espero conseguir postar mais no blog a partir de agora… Estou com ideias novas e, claro, muitos posts prometidos e não postados! Como é o caso deste que escrevo agora: o segundo da série de relatos sobre minha experiência como membro do Collegium no Stummfilm Festival em Karlsruhe, na Alemanha, em março deste ano!

No primeiro post da série, eu expliquei um pouco sobre como funcionava o Collegium e fiz algumas comparações com a outra experiência que eu tive na Giornate del Cinema Muto em Pordenone, Itália, em outubro de 2013.

Agora vou contar mais detalhes sobre as apresentações de cada membro do grupo. Não vou conseguir escrever muito porque já faz tempo (o festival foi em março), mas espero conseguir expor algumas das principais questões da discussão!

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Vista da janela da casa em que nós, Collegians, ficamos hospedados em Berghausen, uma cidadezinha ao lado de Karlsruhe

Como eu já disse, esse festival tem um tema por ano e nessa edição o tema era Cross-dressing no Cinema Silencioso. Éramos 5 membros no grupo do Collegium / Workshop e a professora convidada foi Laura Horak (todas essas informações estão no post anterior da série sobre esse festival!).

Federico, da Itália, falou sobre cross-dressing em comédias americanas dos anos 1910 e 1920. Ele mostrou muitas imagens de filmes de Chaplin, Buster Keaton e Laurel and Hardy. O que pudemos perceber é que, nesse tipo de comédia, com atores conhecidos do público, o cross-dressing costuma aparecer apenas como disfarce e a graça está em ver aquele ator famoso (e gordo / e excêntrico) usando roupas de mulher. Quando havia grande verossimilhança, não só para as outras personagens, mas também para o público, parece ter sido uma forma de mostrar a versatilidade dos atores. É o caso de Chaplin. Federico nos mostrou algumas cenas de “A woman“, de 1915 (acho até que já postei esse filme aqui no blog, mas vale a pena ver de novo!):

O cross-dressing aparece como disfarce da personagem, mas quase convence! É impressionante quando ele tira o bigode! Mas não podemos nos esquecer que tipo de mulher Chaplin está “imitando”: são todos os estereótipos da mulher tímida, graciosa, enfim… “feminina”.

Outra observação interessante é que Chaplin fazia os atores imitarem milimetricamente seus gestos. Primeiro ele mostrava como queria que fizessem e então eles o copiavam. As atrizes estariam, então, sempre imitando um homem imitando mulheres. Acho que pode ser um exercício legal tentar perceber quais as consequências disso para a atuação das mulheres nos filmes dele.

Maria, da Rússia, analisou um filme russo de 1913, cujo título em inglês é “The Little House in Kolomna”. O filme foi inclusive exibido no festival. Também é um caso de disfarce e o ator que pratica o cross-dressing nesse filme é Ivan Mosjoukine, o mesmo que participou do experimento de Lev Kuleshov sobre os efeitos da montagem.

Nesse caso, a personagem se disfarça de empregada doméstica para se aproximar da garota que ele ama. Ao contrário de Chaplin no exemplo anterior, o ator nunca tira o bigode, o que chama atenção para o próprio disfarce, claro. A forma de atuação e toda a forma do filme é muito mais próxima das práticas do primeiro cinema, apesar da data. Isso acontece porque o cinema silencioso russo, assim como o nosso, é “atrasado” em relação aos países centrais.

Um ponto que eu achei interessante foi o que Maria falou quando perguntaram para ela sobre exemplos de cross-dressing depois de 1917. Ela disse que na Rússia socialista não havia a diferenciação entre homens e mulheres como nos outros países, por isso o cross-dressing não fazia sentido. Ela disse que não conhece nenhum exemplo nesse período.

Vanessa, da Áustria, apresentou uma pesquisa sobre dois filmes exibidos no festival, os alemães “The ABCs of love” (1916) e “I don’t want to be a man” (1918).

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Asta Nielsen em “Das Liebes-ABC” de Magnus Stifter (1916)

Asta Nielsen foi, para mim, a grande estrela desse festival. Sua atuação em “Das Liebes-ABC” e no filme que abriu a programação, “Hamlet” (1920) é impressionante. Seu corpo cria formas surpreendentes e ela se transforma em tudo o que uma garota burguesa não pode ser… Mas, apesar de toda a subversão presente em sua atuação, é importante chamar atenção para a relação com a sexualidade da personagem/atriz. Quando está conquistando uma mulher, no papel de homem, ela olha para a câmera e mostra para o público que é tudo encenação, afirmando sua heterossexualidade.

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Ossi Oswalda e Curt Goetz em “Ich möchte kein Mann sein” de Ernst Lubitsch (1918)

A sexualidade também é uma questão importante em “Ich möchte kein Mann sein”, como a imagem acima já sugere! A personagem principal do filme, a garota interpretada por Ossi Oswalda, não quer ser educada como uma “lady”. Se veste como homem e vai para uma festa. Depois de uma noite de paquera, ela e a personagem de Curt Goetz acabam se beijando. Mais uma vez, apesar da interessante imagem de dois gentlemen se beijando, tudo é justificado por estarem os dois bêbados.

É interessante notar como nos dois filmes as atrizes não estão apenas se passando por homens, mas se passando pelo que seria o “homem ideal” da época. Rico, galanteador, fumante… O ato de fumar foi também bastante discutido por nós. Era uma prática proibida para as mulheres e é esse tipo de atitude que os dois filmes exploram.

Christina, da Alemanha, comentou um filme sueco que vimos em Pordenone no ano passado, “The girl in tails” (1926). É o único filme (além do que eu analisei) dirigido por uma mulher, a sueca Karin Swanström.

girl in tails

Magda Holm em “The girl in tails” (1926)

Nesse caso, a personagem feminina usa um smoking para poder ir a um baile, pois seu pai não comprou um vestido que ela pudesse usar na ocasião. Vestida como um homem, ela aproveita para fazer tudo aquilo que não podia fazer como mulher: beber, fumar charutos etc. É interessante ver como ela faz isso sem medo do que os outros vão pensar dela, não se importando com a opinião de seu namorado, por exemplo. O filme usa alguns elementos de slapstick comedy e talvez seja o mais ousado de todos os filmes discutidos pelo Collegium. A personagem não se disfarça, ela não quer enganar ninguém, como nos outros casos…

E por último, a minha apresentação. Eu falei sobre o cross-dressing no primeiro cinema e analisei o filme “The consequences of feminism” (1906) de Alice Guy. Eu deixei pro final aqui no blog, mas na verdade fui a primeira a me apresentar, porque o filme que eu escolhi é o mais antigo.

No próximo post dessa série vou publicar a minha fala na íntegra!

E talvez ainda poste alguma coisa sobre outros filmes exibidos no festival…

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Diário de Karlsruhe I – introdução

Hoje vou contar um pouco sobre como foi a minha experiência como membro do Collegium do Stummfilm Festival de Karlsruhe, no mês passado.

Mapa Karlsruhe

Mapa da cidade.

Karlsruhe é uma pequena cidade localizada no estado de Baden-Württemberg, na Alemanha. O festival já tem 12 anos, mas foi só agora que eles criaram esse programa para jovens estudantes.

Como eu já comentei bastante aqui no blog, no ano passado fui selecionada também para participar do Collegium da Giornate del Cinema Muto, em Pordenone, na Itália. As experiências foram bastante diferentes porque os festivais e os Collegiums têm propostas e dimensões diferentes. O programa italiano já têm uma certa tradição (ano passado foi a 32a edição do Festival e 15a edição do Collegium), enquanto o alemão está apenas começando. Em Pordenone, éramos 12 jovens (mais os chamados “mentors”, que são os Collegians do ano anterior que podem retornar), já em Karlsruhe, éramos apenas 5. A Giornate é um evento gigantesco, onde você pode encontrar todos os figurões do mundo do cinema silencioso, enquanto o Stummfilm-Festival é bem menor e está recebendo convidados internacionais apenas agora.

Tudo isso fez as minhas duas experiências serem bem diversas. A Giornate é uma loucura, você conhece muita gente nova por dia, vê muitas coisas diferentes, é uma avalanche de informações… Mas em Karlsruhe, justamente por ser um festival bem menor, você tem a chance de conhecer as pessoas com mais calma, de conversar de fato com cada um… Mas a principal diferença está na proposta do próprio programa ou, como eles chamavam em Karlsruhe, o Workshop.

Em Pordenone, os jovens selecionados devem participar das sessões diárias do Collegium, que são palestras/debates com pessoas que trabalham em diferentes áreas, como restauração, arquivos, pesquisa… Eu sei que ainda estou “devendo” escrever por aqui mais detalhes de pelo menos algumas dessas sessões, mas já adianto que nem todas são muito interessantes e que a ideia de que os jovens participem ativamente das discussões não é levada a cabo porque todo o clima das sessões é muito formal, com o uso de microfones e uma certa distância… Depois do término da maratona que é a semana do festival (as projeções começam às 9 horas da manhã e terminam depois da meia-noite!), cada um de nós deve escolher um aspecto da programação e escrever um artigo (não-acadêmico, eles fazem questão de enfatizar) que é publicado depois. (Quando eu fizer um post melhor só sobre esse assunto, eu atualizo aqui com o link.)

Já em Karlsruhe, os jovens são convidados a fazer uma fala sobre o tema do festival. A cada ano eles escolhem um tema para guiar a curadoria dos filmes (sempre filmes mudos) e o tema deste ano foi “cross-dressing”. A inscrição para participar do programa era justamente uma proposta de fala ligada ao tema. Este post que eu escrevi sobre cross-dressing no primeiro cinema foi justamente baseado na proposta que eu mandei para me inscrever. Além disso, o Workshop contou com a presença de uma professora convidada, Laura Horak. Ela é pesquisadora da Universidade de Estocolmo e é especialista em gênero e sexualidade no cinema silencioso.

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Divulgação do festival na cidade.

E essa proposta faz toda a diferença! É uma forma muito interessante de dar a voz aos estudantes. E é também muito produtivo porque determina um foco de discussão para todo o período do festival (que são, infelizmente, apenas 4 dias!). Foi muito curioso assistir a tantos filmes que tratam de uma mesma questão de modos tão diferentes. E a Laura é daquelas professoras que sabem conduzir uma discussão. Então os Collegians e o público interagiram verdadeiramente construindo conhecimentos sobre o tema, mesmo que a maioria de nós não fosse especialista no assunto. Eu aprendi muito!

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Os Collegians!

Então estes éramos nós! Federico, da Itália (o único garoto da foto), falou sobre cross-dressing em comédias americanas dos anos 1910 e 1920; Maria, da Rússia (atrás), analisou um filme russo de 1913, cujo título em inglês é “The Little House in Kolomna”; Vanessa, da Áustria (essa que segura o cartaz), apresentou uma pesquisa sobre dois filmes exibidos no festival, os alemães “The ABCs of love” (1916) e “I don’t want to be a man” (1918); eu, do Brasil (hehe), falei um pouco sobre o cross-dressing no primeiro cinema e analisei o filme “The consequences of feminism” (1906) de Alice Guy; Christina, da Alemanha (de camisa jeans), comentou um filme sueco que vimos em Pordenone no ano passado, “The girl in tails” (1926).

Vou fazer ainda mais dois post sobre esse festival, comentando com mais detalhes as apresentações de cada um e comentando os filmes exibidos. E pretendo também postar pelo menos uma parte da minha fala, claro. Mas por hoje é só!

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cross-dressing no primeiro cinema – quais os efeitos?

Hoje vou escrever sobre um tema que eu não conheço muito bem… Se alguém puder apontar erros ou sugerir outras fontes de pesquisa, agradeço muito!

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“Arlequim sentado”, Pablo Picasso, 1901

Há vários casos na História de pessoas que se passam por membros do gênero oposto por diversos motivos. Mulheres que se passaram por homens para poder acessar esferas proibidas para elas, como a guerra e o trabalho fora de casa, e homens que se disfarçaram de mulher para esconder sua identidade, fugir de perseguições etc. No carnaval, por exemplo, o cross-dressing já foi um elemento chave de expressão anárquica (hoje acredito que não mais, passando a ser apenas mais uma forma de reforçar estereótipos).

Aqui no Brasil o cross-dressing vem sendo bastante discutido nos últimos anos. A cartunista Laerte, por exemplo, expõe a questão em sua obra (e em seu próprio corpo):

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Tirinha de Larte retirada de http://murieltotal.zip.net

Sabemos que essa prática era comum no teatro e no vaudeville. E nos primeiros anos do cinema? O cross-dressing tinha espaço? E com que efeitos? Só aparecia em comédias?

É muito difícil encontrar filmes dos primeiros tempos que mostrem travestis, homossexuais, cross-dressers etc. Se existiram filmes que representavam essas personagens na primeira década do cinema, eles deviam ser produzidos e exibidos em espaços marginais. Provavelmente, o estigma social ligado a esse tipo de imagem impediu que os filmes sobrevivessem e entrassem para as histórias oficiais.

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Homens travestidos na virada do século (National Archives of Estonia)

A esfera pública é historicamente dominada pelos homens e as diferenças sociais entre homens e mulheres é um problema atual. Mas sabemos que a virada do século foi um momento de grandes mudanças nesse cenário. Nos Estados Unidos, por exemplo, estavam em curso as lutas pelo voto feminino. No mundo todo, as mulheres estavam saindo do espaço doméstico e ocupando as ruas através de parques de diversões, lojas de departamento e outros espaços de consumo e convivência social.

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A loja de departamento Selfriges na Inglaterra no começo do século

Se os atos através dos quais o gênero é construído têm similaridades com os atos performáticos do teatro, como sugere Judith Butler, então estão ligados a uma exterioridade do corpo. Como, no primeiro cinema, o corpo é central e a interioridade das personagens não é relevante (como passará a ser no cinema hegemônico a partir dos anos 1910), pode ser interessante analisar a representação dos gêneros nesse período inicial do cinema.

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Charlie Chaplin em “A woman” (1915), o terceiro e último filme em que ele aparece vestido como mulher

A maior parte dos filmes do período em que encontramos travestimentos, são aqueles em que uma personagem feminina é interpretada por um homem por motivos “práticos”: quando a personagem aparece usando apenas suas roupas de baixo (e não é um filme erótico/adulto) ou quando exige um grande esforço físico. Há outros filmes em que a troca é mais sutil: não há travestimento, mas a mulher tem o papel de dominadora da situação, enquanto o homem é ingênuo e frágil.

Chaplin como uma sufragista no primeiro ano de sua carreira (A busy day, 1914)

Uma mulher interpretada por um homem que depois troca de roupas com outro homem! (At the hypnotist, Alice Guy-Blaché, 1898)

Nesse, os papeis normalmente assumidos por homens e mulheres estão de certa forma invertidos… A mulher bebe, fuma, rouba. E ainda tem uma piada final sobre a maternidade. (Madam’s Fancies, Alice Guy-Blaché, 1907)

Um exemplo interessante que mescla as duas coisas (troca de vestimentas e troca de papeis) aparece no filme “The consequences of feminism” (Les résultats du féminisme, Gaumont, 1906), de Alice Guy-Blaché. No trabalho dessa pioneira, ela mesma uma mulher que ocupou posições comumente dominadas pelos homens (foi diretora de cinema e montou seu próprio estúdio), encontramos um campo produtivo para essa discussão.

O filme se passa em um futuro em que as mulheres, através da luta feminista, teriam tomado o lugar dos homens. Elas carregam bengalas e armas e usam gravatas e chapéus masculinos. Eles carregam sombrinhas e usam flores no cabelo. Elas são agressivas, eles cuidam das crianças; elas saem para trabalhar, eles passam as roupas em casa. A opressão das mulheres sobre os homens é tanta, que eles criam uma rebelião e tomam de volta seus lugares, expulsam-nas do espaço público e brindam, ironicamente, com cerveja.

A ambiguidade final é a parte mais interessante: o filme mostra a superioridade dos homens? Mostra que homens e mulheres devem permanecer em seus espaços socialmente delimitados? Ou mostra como a performance corporal e a vestimenta constroi a identidade de gênero?

É um filme de efeito cômico irônico, porque faz pensar sobre os papeis que homens e mulheres ocupam em uma sociedade machista. A troca de papeis é absurda no filme, assim como é absurda a ideia de que os comportamentos ligados aos gêneros feminino e masculino sejam naturais ou simplesmente determinados por aspectos biológicos.

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Cross-dressing no cinema silencioso é o tema do ano no festival de Karlsruhe (uma cidadezinha no sudoeste da Alemanha).

Captura de Tela 2014-01-17 às 11.45.00

O festival acontecerá no começo de março. A programação não tem filmes muito antigos. Acho que nenhum é do primeiro cinema! Por isso pensei que seria interessante pesquisar esse tema no cinema das origens.

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