diário da Giornate – o cinema sueco que veremos em Pordenone

Diário da Giornate

Já comentei os filmes suecos de Gustaf Molander e o de Anthony Asquith que serão exibidos na Giornate desse ano. Mas a sessão Sealed Lips é formada também por títulos de outros diretores. São eles:

— “FLICKAN I FRACK” [The girl in tails] (1926, Karin Swanström) —

Flickan i frack (1926) Filmografinr 1926/07Karin Swanström foi uma atriz sueca que participou de muitos filmes dos anos 1920 aos anos 1940. Entre 1923 e 26 ela dirigiu quatro filmes e esse parece ter sido o último. Na década de 1930 ela teve um cargo importante na Svensk Filmindistri. Lançado como The girl in tails nos EUA, o filme conta a história de uma menina que vai a um baile vestida com roupas masculinas porque seu pai não quis comprar um vestido novo para ela. A situação é, claro, um escândalo, principalmente porque ela bebe e fuma charutos.

girl in tails

Parece levantar questões interessantes sobre o cross-dressing!

— “DEN STARKASTE” [The Strongest] (1929, Alf Sjöberg, Axel Lindblom) —

Den starkaste (1929) Filmografinr 1929/04

Já vimos esse nome por aqui! Axel Lindblom é o responsável pela incrível fotografia de “A cottage on Dartmoor“. E nesse “Den Starkaste” ele assume o mesmo papel, além de dividir a direção com Alf Sjöberg, que estava dirigindo pela primeira vez. Foi um dos últimos filmes mudos suecos de importância. Parece ser um filme que tem um tom documental e grande atenção às paisagens (a história se passa na Groenlândia). Também parece ser possível identificar a influência de Eisenstein… Uau, esse promete muito!

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— “KONSTGJORDA SVENSSON” [Artificial Svensson] (1929, Gustaf Edgren) —

Konstgjorda Svensson (1929) Filmografinr 1929/03Recém restaurado, esse filme é considerado o primeiro filme sueco com som sincronizado. Esse filme parece ser um goat gland. Até esses dias eu não conhecia esse termo, mas é como eram chamados os filmes silenciosos feitos no final dos anos 1920 para os quais eram feitas algumas cenas faladas. Eram híbridos feitos para terem maior apelo para o público da época, que estava sedento por talkies, desde que “O cantor de jazz” havia sido lançado. Um exemplo incrível desse tipo de filme de transição é “Lonesome” (Pál Fejös, EUA, 1928), que foi exibido na nossa Jornada Brasileira de Cinema Silencioso em 2008.

Um dos atores do filme é Sven Garbo, o irmão mais velho de Greta Garbo!

— “RÅGENS RIKE” [The Kingdom of Rye] (1929, Ivar Johansson) —

Rågens rike (1929) Filmografinr 1929/05Sobre esse não encontrei quase nenhuma informação… Sei que o filme se passa no campo e que é baseado num poema finlandês. Ah, também vi que era um dos filmes preferidos de Ingmar Bergman… Informações super relevantes! hahaha

Ufa, tentar descobrir informações sobre esses filmes não foi fácil… E viva o Google Tradutor! ;)

diário da Giornate – mais Gustaf Molander!

Diário da Giornate

Mais um post sobre os filmes do diretor Gustaf Molander que vamos ver em outubro na Giornate! Serão quatro filmes dele na mostra sobre o cinema silencioso sueco do final dos anos 1920 e eu já comentei dois: “POLIS PAULUS’ PÅSKASMÄLL” (Pat e Patachon como policiais) e “SYND” (Pecado). Agora é a vez de “HANS ENGELSKA FRU” e FÖRSEGLADE LÄPPAR”.

Bom, na verdade eu não encontrei quase nenhuma informação sobre esses filmes… Então vou comentar rapidamente só pra não deixar passar:

Hans engelska fru (1927) Filmografinr 1927/03HANS ENGELSKA FRU” (ou, ao pé da letra, Sua esposa inglesa nos EUA foi lançado como Discord) é um filme de 1927. No New York Times, em 1928, foi publicada uma crítica ao filme, que fala mal principalmente da fotografia do filme e do trabalho dos atores. Eles também dizem que o roteiro “deve ter sido escrito por uma criança”!

Esse filme é uma co-produção Suécia-Alemanha e tem a participação da atriz alemã Lil Dagover. Essa atriz sempre foi marcada para mim como a imagem do terror expressionista, com aquele rosto pálido e as olheiras enfatizando o olhar de assombro. Ela fez filmes como “O gabinete do Dr. Caligari” (Robert Wiene, 1919), “A morte cansada” (Fritz Lang, 1921) e vários outros. Principalmente por causa da participação dela, estou super ansiosa para assistir esse!

DerMudeTod

“A morte cansada”

Förseglade läppar (1927) Filmografinr 1927/10E, pra terminar o comentário sobre os filmes de Molander que veremos na Giornate, aquele que dá título à sessão de filmes suecos: “FÖRSEGLADE LÄPPAR” (Sealed Lips, também de 1927). Também encontrei uma crítica da época no New York Times… Eles simplesmente odiaram o filme! Comentaram coisas como “a técnica da produção é enfaticamente antiquada” e “o filme não é o tipo mais excitante de entretenimento, como se pode imaginar, mas sim um tédio”. Pelo que eu entendi, o filme é mais uma história de triângulo amoroso, em que um artista casado se apaixona por uma menina que está no convento.

Pelo que estou vendo, os filmes silenciosos suecos dessa época parecem ter tido uma péssima repercussão nos Estados Unidos, principalmente no que se refere aos modos de interpretação dos atores, que eram vistos como ultrapassados pelos americanos.

No próximo post eu vou tentar falar sobre alguns aspectos da história do cinema sueco e vou divulgar alguns links legais para assistir filmes online!

diário da Giornate – “Pecado” de Gustaf Molander

Diário da Giornate

Synd (1928) Filmografinr 1928/08Além do filme já comentado por aquiPOLIS PAULUS’ PÅSKASMÄLL” (ou, para que a gente não se perca nesses nomes difíceis, algo como Pat e Patachon como policiais), a mostra de cinema sueco da Giornate del Cinema Muto desse ano ainda vai exibir mais três longas desse mesmo diretor, Gustaf Molander. São eles “SYND” (ou Pecado), “HANS ENGELSKA FRU” e “FÖRSEGLADE LÄPPAR” (ou Sealed Lips, o título que dá nome à mostra).

Hoje vou falar um pouco sobre “SYND“, longa de 1928 cujo roteiro foi baseado em uma peça do sueco August Strindberg de 1899, “Brott och Brott” (em inglês Crime and Crime).

SYND” é a história de um triângulo amoroso. Maurice Gérard, um dramaturgo francês mal sucedido, mora com sua esposa, Jeanne, e sua filhinha, Marion. A família está passando por dificuldades, pois ninguém quer comprar as peças de Maurice. Apesar disso, sua mulher e a menininha Marion estão sempre alegres. Ela é a perfeita mocinha: carinhosa com a filha e com o marido, sensível e sonhadora…

A atriz Elissa Landi como Jeanne em "Synd"

A atriz Elissa Landi como Jeanne em “Synd”

Logo no começo do filme, já vemos algumas indicações de que uma tragédia pode acontecer. Os problemas financeiros estão fazendo o escritor ter pensamentos um tanto sombrios… Ele acaba revelando, numa situação de desespero, o desejo de que a filha não tivesse nascido, já que agora ele não tem condições de sustentar a família.

Tudo parece que vai melhorar quando um teatro aceita uma de suas peças. Henriette Mauclerc, uma bela atriz, interpretada pela francesa Gina Manès, acaba sendo escolhida para fazer o papel principal. A estreia é um sucesso e todos, mas principalmente Maurice, ficam encantados com a interpretação da moça. Ela é o completo oposto da esposa ingênua. Ela é uma mulher dominadora que se interessa pelo escritor desde o princípio e não precisa fazer muito para que ele abandone a esposa logo depois da apresentação da peça. Digo isso porque ele é um cara totalmente sem vontade, um tonto! E ela é má, essa é a verdade! (hahaha) Pra dar uma ideia de como ela é coração-gelado: ela fica bravíssima quando percebe que Maurice está vacilando em fugir com ela por causa da filha e insinua que seria melhor se a menina não existisse.

Bom, depois de duas personagens diferentes desejarem a morte da criança, passamos a esperar por esse assassinato, o que dá um pouco de suspense à trama!

synd 3

Gina Manès como Henriette em “Synd”

A esposa é a pureza, enquanto a amante é o mal. O filme só não perde totalmente o interesse porque a interpretação de Gina Manès é muito boa – a gente acaba odiando tanto essa vilã! E assim como as mulheres são opostos caricatos, o filme também tem uma visão simplória da boemia de Paris, com uma cena num café agitado, cheio de fumaça e gente extravagante. Maurice acaba se encantando por esse mundo, de hoteis caros, champanhe e glamour. Ele é aquele cara totalmente sem vontade própria, que vai sendo levado pelos encantos da fama, do dinheiro e dessa mulher sedutora.

A cena mais interessante talvez seja a que se passa na delegacia, em que Henriette e Maurice são interrogados sobre o sumiço da menininha Marion. Claro que tudo indica que eles assassinaram a menina… O legal é que várias testemunhas são ouvidas e acompanhamos suas diferentes versões em flashback.

Assim como em “A Cottage on Dartmoor“, filme que também será exibido na Giornate esse ano e sobre o qual já comentei aqui, percebi nesse longa de Gustaf Molander alguns elementos do cinema noir de anos depois: algum suspense, crime, a presença de uma espécie de femme fatale… E talvez a iluminação também tenha alguma carga expressiva no filme, mas a qualidade da imagem não me permitiu ver direito para poder comentar. Não é um filme que eu recomendaria para quem ainda não assistiu a muitos filmes silenciosos. Nesse caso, eu sugiro assistir ao “Dartmoor”, de Anthony Asquith, que é muito mais ambíguo, cheio de sutilezas e desafiador.

Espero que na Giornate eu possa ter um olhar diferente para esse filme, que hoje não me empolgou muito. Estou ansiosa para saber o que estará escrito sobre ele no catálogo desse ano, já que não encontrei nenhum texto sobre esse longa!

De qualquer maneira, não vou contar o final para não estragar a experiência de quem quiser assistir. O filme completo está disponível no Youtube:

diário da Giornate – “Pat e Patachon” na Suécia

Diário da Giornate

Mais um post sobre o cinema sueco. Vou falar sobre um dos quatro filmes do diretor Gustaf Molander que serão exibidos na edição desse ano da Giornate del Cinema Muto: “POLIS PAULUS’ PÅSKASMÄLL” [The Smugglers – e algo como “Pat e Patachon como policiais” em português, eu acho!] (1925). Os outros são “SYND” [Sin] (1928), “FÖRSEGLADE LÄPPAR” [Sealed Lips] (1927) e “HANS ENGELSKA FRU” (1927) e ficam para próximos posts.

Molander foi um dos mais importantes diretores do cinema sueco: trabalhou no cinema dos anos 1920 aos anos 60 e na década de 30 ele dirigiu 10% dos filmes suecos produzidos. Ele trabalhava num estilo hollywoodiano, com produções rápidas. Uma dessas produções foi esse longa com a dupla de comediantes Pat e Patachon.

Polis Paulus' påskasmäll (1925) Filmografinr 1925/11Pat e Patachon eram dinamarqueses e haviam sido lançados como uma dupla pelo ator e diretor Lau Lauritzen em 1921, com o filme “Film, Flirt og Forlovelse” (algo do tipo Filme, paquera e compromisso). Fy og Bi (o nome original da dupla na Dinamarca) fez muito sucesso na Europa durante os anos 1920 e eles continuaram fazendo filmes durante a década de 1930. Um era magro e alto (Carl Schenstrøm) e o outro era gordinho e baixo (Harald Madsen). Eles tiveram filmes dirigidos por diferentes realizadores e feitos em países como Dinamarca, Suécia, Inglaterra, Alemanha e Áustria. Em alguns lugares eles se chamavam O Alto e o Baixo.

Claro, não tem como não lembrar do O Gordo e o Magro, dupla que já foi citada aqui. Encontrei alguns textos que diziam que a dupla dinamarquesa tinha influenciado o surgimento dos americados, mas ambas surgiram em 1921 e, mesmo sem dados muito precisos, parece que Laurel and Hardy foram lançados antes mesmo dos europeus.

Eles não fizeram sucesso nos Estados Unidos. Existe uma história de que algum filme deles foi exibido lá para alguns figurões do cinema, entre eles, Charles Chaplin, que teria comentado ao final da sessão:

Um filme excelente. Os dois comediantes merecem louros por suas realizações, mas sua comédia não tem a ver com a mentalidade americana.

O que será que isso significa? Por que será que não emplacaram nos EUA? Não encontrei muita coisa sobre eles na internet, mas nesse trecho que achei no Youtube dá pra ter uma ideia de como era o trabalho deles:

Eles eram muito populares na Europa e chegaram a ser mais apreciados que Chaplin na Alemanha, por exemplo. Ah! E eles são os músicos bêbados que aparecem rapidinho numa das cenas mais legais do filme “A última gargalhada” (F.W. Murnau, 1924). Aí vai o trecho para relembrar:

Pesquisando sobre eles, encontrei esse trecho de um livro autobiográfico de José Saramago:

Nem tudo foram sustos nas salas de cinema aonde o garoto de calções e o cabelo cortado à escovinha podia entrar. Havia também fitas cómicas, em geral curtas, com o Charlot, o Pamplinas, o Bucha e o Estica, mas os actores de quem eu mais gostava eram o Pat e o Patachon, que hoje parece terem caído em absoluto esquecimento. Ninguém escreve sobre eles e os filmes não aparecem na televisão. Vi-os sobretudo no Cinema Animatógrafo, na Rua do Arco do Bandeira, aonde ia de vez em quando, e recordo quanto me ri numa fita em que eles (estou a vê-los neste momento) faziam de moleiros. Muito mais tarde viria saber que eram dinamarqueses e que se chamavam, o alto e magro, Carl Schenstrom, o baixo e gordo, Harald Madsen. Com estas características físicas era certo e sabido que chegaria o dia em que teriam de interpretar Dom Quixote e Sancho Pança, respectivamente. Esse dia chegou em 1926, mas eu não vi a fita.

“As pequenas memórias”, 2006

Aqui dá pra assistir um trechinho do Dom Quixote que eles fizeram!

Como eu disse, a tradução do título do longa que será exibido na Giornate seria algo como Pat e Patachon como policiais

pat e patachon como policiais

Faz lembrar os Keystone Kops e outros policiais atrapalhados de que falamos aqui e aqui, não? Mais uma vez, o cinema silencioso mostra que não tem medo de desdenhar das autoridades, tirando sarro de policiais! Mas só em outubro poderei dizer mais sobre esse longa que parece ser bem divertido…!

diário da Giornate – “Uma casa em Dartmoor”, Anthony Asquith

Diário da Giornate

A história do cinema sueco é fascinante! O pouco que conheço já me encantou. Como eu comentei em outros posts aqui no blog, a Giornate del Cinema Muto desse ano exibirá uma longa seleção de filmes silenciosos suecos do final dos anos 1920. O programa se chama Sealed Lips, que é o título de um dos filmes que serão apresentados, “FÖRSEGLADE LÄPPAR” [Sealed Lips] (Gustaf Molander, 1927).

Aí vai a seleção dos filmes que serão exibidos:

POLIS PAULUS’ PÅSKASMÄLL [The Smugglers] (1925, Gustaf Molander)
FLICKEN I FRACK (1926, Karin Swanström)
HANS ENGELSKA FRU (1927, Gustaf Molander)
FÖRSEGLADE LÄPPAR [Sealed Lips] (1927, Gustaf Molander)
SYND [Sin] (1928, Gustaf Molander)
KONSTGJORDA SVENSSON [Artificial Svensson] (1929, Gustaf Edgren)
DEN STARKASTE [The Strongest] (1929, Alf Sjöberg, Axel Lindblom)
RÅGENS RIKE [The Kingdom of Rye] (1929, Ivar Johansson)
FÅNGEN N:R 53 [A Cottage on Dartmoor] (1929, Anthony Asquith)

Vou começar comentando esse último, “A Cottage on Dartmoor” (Uma casa em Dartmoor), que é o corte sueco da co-produção Inglaterra-Suécia do diretor inglês Anthony Asquith. Esse filme já havia sido exibido na segunda edição da Jornada Brasileira de Cinema Silencioso numa sessão de cinco filmes preparada por Paolo Cherchi Usai, em que o uso da arquitetura era o fio condutor. Isso foi um repeteco da exibição feita em 2004 na Giornate, no contexto de uma sessão sobre filmes ingleses silenciosos. Agora, sendo exibido nessa sessão “Sealed Lips”, talvez a gente possa perceber relações dessa obra com os outros filmes da Suécia.

A descrição da Giornate diz que essa época do cinema sueco (final dos anos 1920) foi obscurecida pelo foco dado pela historiografia para os filmes do período precedente, a chamada “Golden Age” sueca (anos 1910), que foi quando diretores como Victor Sjöström começaram suas carreiras. Esse período posterior que será apresentado no festival é marcado pelo desejo do cinema sueco de alcançar um público internacional. Para isso, fizeram muitas co-produções, contratando atores e diretores estrangeiros, como é o caso do inglês Asquith.

Em “A Cottage on Darmoor“, a contribuição sueca está, principalmente, na fotografia de Axel Lindblom e na atuação de Uno Henning (que interpreta Joe, um barbeiro). A principal característica do filme parece ser a união das técnicas narrativas de Hollywood com alguns traços formais da vanguarda europeia. Logo na primeira cena podemos observar essa mistura. Vemos um cenário expressionista: árvores de troncos retorcidos, com seus galhos secos, pedras enormes e fumaça por todos os lados. Os gestos ofegantes de um fugitivo, que parece carregar um grande peso dentro de si, parecem se espalhar pela paisagem, que pulsa com ele. O uso expressivo do jogo entre luz e sombra também contribui para a instauração de uma atmosfera de suspense.

cottage on dartmoor arvore 2

“A Cottage on Dartmoor”

Mas logo essa cena é intercalada com outra, em que uma mãe e seu bebê vivem tranquilos em sua casa sem saber que aquele homem está indo em sua direção. Sem palavras, esse início mostra os principais elementos da situação: é da prisão que o homem vem fugindo e esse encontro com a moça é antecipado por uma enorme tensão. A mulher, ao se ferir com uma agulha, parece prever o terrível encontro.

cottage on dartmoor expressionista

O momento anterior ao encontro

E aí somos surpreendidos por um flashback que aparece sem nenhum aviso: quando a moça vê que o fugitivo invadiu sua casa, ela grita “JOE!” e o filme corta para o mesmo Joe, de cabelo penteado, num cenário muito mais iluminado (que logo compreendemos se passar num tempo anterior) e sua resposta “Yes, Sally?”. Então vemos Sally e Joe trabalhando juntos numa barbearia e tudo faz sentido. O fugitivo e a moça se conhecem faz tempo.

Cesare e Joe

Cesare em “O gabinete do Dr. Caligari” e Joe em “A Cottage on Dartmoor”

Não me parece exagero comparar esses dois planos: a primeira aparição do sonâmbulo Cesare em “O gabinete do Dr. Caligari” e o close do rosto perturbado do fugitivo Joe em “A Cottage on Dartmoor”. O uso expressivo das sombras, os olhos arregalados e maquiados a encarar a câmera, a expressão de terror… Claro que há uma diferença importante: no primeiro tudo é mais marcado, a sombra é desenhada em volta do rosto da personagem e os olhos pretos são super fortes. No segundo vemos um dégradé de luz e a maquiagem é mais sutil.

E o flashback já começa com uma cena de ciúmes e percebemos que Joe investe na tentativa de ter um relacionamento com Sally, enquanto ela demonstra certa ambiguidade – às vezes cede, mas também se mostra interessada por um cliente. Um triângulo amoroso então se desenvolve entre o barbeiro Joe, a manicure Sally e o cliente, Harry, que acabou de comprar uma fazenda em Dartmoor.

A Cottage on Dartmoor” tem uma outra cena muito interessante que mostra bem a transição do cinema mudo para o falado. Harry convida Sally para assistir a um talkie. Joe também vai para observar o encontro dos dois às escondidas. Em nenhum momento vemos as imagens que são projetadas na tela. Acompanhamos somente os rostos dos espectadores na plateia e a orquestra que faz o acompanhamento musical do filme. As pessoas conversam enquanto assistem e a cena tem uma montagem frenética mostrando as diferentes reações do público. É bem engraçado o momento em que um menino repara que o homem sentado a seu lado se parece muito com a personagem do filme…

cottage on dartmoor menino ve harold lloyd

Com esses óculos, já dá pra imaginar de quem é o filme que está sendo exibido. Claro, Harold Lloyd! Achei interessante essa cena porque muito se fala sobre a personagem de Lloyd, que é sempre um cara “normal”, sem as características grotescas de outros comediantes da época, alguém com quem o público poderia se identificar facilmente. E o menino reconhecer um homem parecido com ele, com os mesmos óculos redondos, mostra que isso estava mesmo presente no imaginário da época!

Logo em seguida vemos uma propaganda impressa da sessão, que mostra que o filme exibido é “My Woman”, ‘precedido por Harold Lloyd’ e tudo se confirma. Esse longa, que parece ser um título fictício (pelo menos não encontrei nenhum registro de que o filme exista de verdade), é o tal talkie a que eles foram assistir! Uma senhora não consegue escutar, o homem dos óculos redondos sai da sala, outro dorme… Os músicos da orquestra param de tocar e passam a beber e jogar cartas. Está clara a posição de Asquith em relação ao filme sonoro: parece que, para ele, pelo menos nessa época, o cinema perde a vida que tinha quando ainda era a arte do silêncio.

O filme pode ser visto inteiro no Youtube:

 Vale muito a pena assistir… Pelos planos com ângulos de câmera inusitados que sempre dizem algo sobre as personagens, pela iluminação expressionista, pelas atuações ambíguas, pela forma como trata o cinema falado… Pela trama, que parece ter inspirado o cinema noir… E, principalmente, pelo suspense que é construído com pouquíssimos intertítulos e com uma montagem muitas vezes simbólica.