NA MOSCA! #12 – Explorando o filme “Metrópolis” de Fritz Lang

banner na mosca borda

Lembram do post que eu fiz sobre o Teatro Óptico de Émile Reynaud? A dica da semana é parecida: vou indicar outro tour virtual do site da Cinemateca Francesa! Dessa vez é sobre o robô do filme “Metrópolis” (Fritz Lang, 1926).

metropolis

Como no final do filme o robô é queimado (e foi, de fato, queimado nas filmangens), só existem hoje as réplicas. Uma delas está na Cinemateca Francesa (vi outra na Deutsche Kinemathek de Berlim). O tour mostra um pouco como ela foi feita e fala também do robô original, que foram feitos pelo mesmo escultor.

metropolis_fogo

A principal diferença entre o robô do filme e as cópias é que o primeiro era uma espécie de roupa, já que a atriz Brigitte Helm tinha que caber dentro! A cópia tem um manequim por dentro, para fortalecer a estrutura.

metropolis2

Mas toda essa parte do tour, apesar de interessante, não é o mais legal…

A minha dica é explorar a seção about the work, que trata da restauração do filme.

Uma cópia em 16mm, muito danificada, foi encontrada em Buenos Aires. No começo ninguém deu muita atenção a isso, mas quando a película chegou na Alemanha, os pesquisadores envolvidos na preservação do filme perceberam que se tratava de um achado valiosíssimo. O filme foi restaurado e, a partir dessa cópia, um quarto do filme foi recuperado. É como diz Paolo Cherchi Usai, um dos mais importantes pesquisadores da área: os filmes podem ser encontrados em qualquer lugar, quando menos se espera…

Vale a pena conhecer um pouco mais sobre esse caso, que nos ajuda a entender que o filme é um objeto sempre múltiplo e complexo. E que o cinema antigo, ao contrário do que muitos pensam, está em constante transformação!

O site está disponível em inglês e francês. Para acessar é só clicar aqui.

Todas as dicas da semana podem ser vistas na série na mosca.

translate this blog

Diário da Giornate 2014 #5 – a coleção do padre Joseph Joye

banner_diario_giornate_2014

No Diário da Giornate 2014 de hoje vou falar sobre a coleção de Joseph Joye, da qual veremos alguns títulos no festival deste ano.

josef_joye

O padre Joye (Desenho anônimo, 1920)

Joseph Joye (1852-1919) foi um padre suíço que, como muitas outras pessoas ligadas à Igreja, exibia placas de lanterna mágica e filmes com propósitos educativos. O que o diferencia da maior parte dos outros padres exibidores, é a dimensão de sua coleção. São centenas de títulos, que abrangem o período de 1905 a 1914. Não sabemos quais serão exibidos na Giornate, mas a coleção parece ter mais de 1000 curtas diferentes, de diversos gêneros como comédias, melodramas, travelogues, filmes de trucagem, contos de fadas, filmes coloridos etc.

A exibição em igrejas era comum no primeiro cinema. Muitos exibidores itinerantes tinham esses espaços como parceiros para a realização de eventos considerados educativos, como shows de lanterna mágica, de fonógrafo e, claro, de filmes. Os gêneros pelos quais as igrejas mais se interessavam eram travelogues (principalmente quando mostravam lugares considerados sagrados), filmes industriais e outros temas educativos e filmes bíblicos, como as paixões de cristo. No campo da ficção, os contos morais também faziam sucesso.

Além de ganhar uma porcentagem do lucro dos exibidores, as igrejas também podiam, dessa forma, tentar competir com o entretenimento barato que se espalhava pelos teatros comerciais, considerados por elas como imorais. Para motivar o público a optar pela Igreja, alguns padres americanos chegaram a oferecer, além dos filmes educativos, até comida de graça!

Essas relações entre a igreja e o cinema são muito interessantes porque nos chamam a atenção para a diversidade dos meios de exibição do primeiro cinema e para o esforço de diferentes grupos religiosos no sentido de influenciar o modo de recepção dos filmes no período.

Agora resta descobrir o que teremos a oportunidade de ver em outubro!

A sessão será realizada em comemoração dos 50 anos da AIRSC (Associazione Italiana per le Ricerche di Storia del Cinema). Olha só o convite:

airsc

A 33a. edição do festival Le Giornate del Cinema Muto começa neste sábado, dia 4! Como já disse, estarei lá aproveitando ao máximo a experiência. E, quando eu voltar para o Brasil, contarei tudo aqui no blog!

Para ver todos os posts que eu fiz sobre a Giornate 2013, é só acessar a série Diário da Giornate. Os posts sobre a Giornate 2014 estarão organizados na série Diário da Giornate 2014.

translate this blog

NA MOSCA! #11 – Europa Film Treasures

banner na mosca borda

A dica dessa semana é, como em muitas outras semanas, filmes para assistir online!

O Europa Film Treasures era o site mais legal da internet (pelo menos para mim!). Era um acervo gigantesco de filmes de cerca de 30 arquivos europeus diferentes, onde era possível pesquisar por década, gênero etc… Os filmes tinham boa qualidade e cada um era acompanhado de textinhos preciosos, cheios de informações interessantes. A parte triste é que o site, que era mantido pela Lobster Films, está fora do ar desde o ano passado.

Mas, recentemente, uma pequena parte daquele acervo maravilhoso passou a ser disponibilizado novamente em forma de curadorias semanais no site do canal de TV francês ARTE.

Na primeira semana, o tema foi viagem. Meu destaque vai para “Un voyage en aéroplane avec Wilbur Wright à Rome” (1909). Foi a primeira vez (ou uma das primeiras vezes, hehe) em que se filmou de um avião. O resultado é uma phantom ride emocionante!

unvoyageenaeroplaneavecwilburwrightarome

Mais sobre phantom rides aqui.

Na segunda semana, o tema foi cor. Meu destaque vai para “Le moulin maudit” (1909). Não é à toa que as cores da Pathé são tão famosas…

lemoulinmaudit

Mais sobre cor aqui. Ah, já falei sobre o filme “Le Moulin maudit” neste post.

Na terceira semana, o tema foi Méliès e outros “magos” do cinema. Meu destaque vai para “L’Araignée d’or” (1909). Tem cenas muito lindas e divertidas em stop motion:

laraigneedor

Para ver todos os filmes, clique aqui. O site é em francês.

Estou curiosa para saber o que está reservado para as próximas semanas!

Todas as dicas da semana podem ser vistas na série na mosca.

translate this blog

Até breve!

Estou escrevendo para avisar meus queridos leitores que estou indo viajar. De 4 a 11 de outubro estarei em Pordenone, na Itália, para acompanhar o Le Giornate del Cinema Muto, o mais importante festival de cinema silencioso do mundo!

Ano passado eu fui selecionada como parte do programa para jovens estudantes que a Giornate mantém há 16 anos. O Collegium, como é chamado, consiste basicamente em uma série de palestras sobre restauração de filmes, história do cinema mudo e outras questões ligadas ao tema. Os selecionados têm estadia de graça na cidade durante a semana do festival e depois devem escrever um texto sobre algum aspecto dessa semana super intensa, o Collegium Paper.

Depois de ir pela primeira vez como collegians, os jovens selecionados têm a oportunidade de retornar no ano seguinte como mentors. E, como eu já disse, é isso que eu vou fazer!

cartaz_giornate

Vou aproveitar para passar uma semana em Paris e depois também irei para Nova Iorque. É claro que essas viagens vão render posts para o blog. Pretendo visitar a Cinemateca Francesa, a recém-inaugurada Fondation Jérôme Seydoux-Pathé e outros lugares em que o cinema antigo é o protagonista!

Então podem esperar muitos posts sobre a Giornate e essas outras experiências em breve!

welcome home

David Robinson, diretor do festival, na abertura da edição passada: “Welcome home!”

Nem acredito que terei a oportunidade de, mais uma vez, assistir a tantos filmes incríveis e estar perto de tanta gente interessante! :)

Ah, e não vou deixar o blog abandonado durante minha ausência! Preparei alguns posts para esse período: dicas da semana e alguns comentários sobre a programação da Giornate ainda vêm por aí… Para ver todos os posts que eu já escrevi sobre a edição desse ano do festival, clique aqui.

Até breve, pessoal!

translate this blog

NA MOSCA! #10 – “A contadora de filmes”

banner na mosca borda

A indicação desta semana é o pequeno livro “A contadora de filmes” (2009) do escritor chileno Hernán Rivera Letelier, lançado no Brasil pela editora Cosac Naify.

O livro trata de um povoado de mineiros no deserto chileno do Atacama pelo olhar da menina Maria Margarida, eleita a melhor contadora de filmes de sua família. Sempre que podiam pagar, ela ia sozinha para o cinema da cidade e, quando voltava, encontrava seu pai e seus irmãos todos arrumados, prontos para assisti-la. Suas interpretações, que incluíam todas as cenas, diálogos e detalhes dos filmes, ficam famosas na vila e uma multidão passa a se reunir para vê-la.

contadora_de_filmes_aberto

“A contadora de filmes”

Tudo isso é narrado pela própria menina, que se dirige ao leitor como se falasse para um público, do mesmo jeito que narrava os filmes.

É um texto simples, mas muito instigante. Quando li esse trecho, reproduzido na quarta capa, não pude resistir a comprar o livro:

Certa vez li por aí, ou vi num filme, que quando os judeus eram levados pelos alemães naqueles vagões fechados, de transportar gado – com apenas uma ranhura na parte alta para que entrasse um pouco de ar -, enquanto iam atravessando campos com cheiro de capim úmido, escolhiam o melhor narrador entre eles e, subindo-o em seus ombros, o elevavam até a ranhura para que fosse descrevendo a paisagem e contando o que via conforme o trem avançava.
Eu agora estou convencida de que entre eles deve ter havido muitos que preferiam imaginar as maravilhas contadas pelo companheiro a ter o privilégio de olhar pela ranhura.

É um livro essencialmente sobre cinefilia, mas é também o relato de diversas formas de violência, que a garota sofre por ser mulher e por ser pobre. Há poucas referências ao cinema mudo, mas ainda assim achei que seria bacana indicar aqui no blog. Através do relato de uma contadora de histórias em um povoado isolado, o livro nos faz lembrar da importância da experiência coletiva do cinema.

contadora_de_filmes_lorota

A Lorota aprova!

Todas as dicas da semana podem ser vistas na série na mosca.

translate this blog

Diário da Giornate 2014 #4 – as cores de Georges Méliès

banner_diario_giornate_2014

No Diário da Giornate 2014 de hoje vou falar sobre Georges Méliès! Como eu já disse, a Giornate del Cinema Muto desse ano vai exibir uma seleção de seus filmes coloridos com a técnica do estêncil. Mas como no site do festival não há nenhuma informação precisa sobre as sessões, ou seja, ainda não sabemos quais títulos serão exibidos, pensei em focar mais nessa técnica de colorização de filmes.

Eu adoro esse tema porque as pessoas não costumam saber que a maior parte dos filmes lançados desde o surgimento do cinema até a metade da década de 1910 era colorida de alguma forma. Muita gente acha que filme antigo é sempre sem som e em preto e branco. Mas muitos experimentos da época (no caso do som, por exemplo) e até mesmo práticas difundidas (como as técnicas de colorização) nos mostram que o cinema “silencioso” é, ao contrário do que muitos pensam, um campo cheio de tendências diferentes…

Uma delas é a aplicação manual de cores quadro a quadro, herança dos métodos usados nas placas de lanterna mágica. A técnica do estêncil, assim como a pintura à mão feita com pequenos pincéis, eram métodos caros e demorados porque cada cópia do filme tinha que ser pintada por um grupo de trabalhadores, normalmente mulheres, e cada uma era responsável por aplicar apenas uma cor na cópia toda. Esses processos tendiam a realçar os aspectos abstratos dos filmes, criando atmosferas fantásticas e bidimensionais.

vincennes

As trabalhadoras na oficina da Pathé.

No site (super recomendado!) Timeline of Historical Film Colors, da pesquisadora Barbara Flueckiger, tem uma boa explicação (sobre os métodos de estêncil usados pela Pathé):

A colorização com estênceis exigia o corte manual, quadro a quadro, das áreas que seriam tingidas. Essas cópias recortadas serviam como moldes e era preciso fazer um para cada cor para só depois usá-las para pintar a película. Normalmente eram usadas de 3 a 6 cores por filme.
Quando foi introduzida uma máquina de corte a técnica melhorou muito, pois a cortadora podia seguir os contornos das áreas selecionadas em uma ampliação projetada em vidro. Com um pantógrafo era possível, então, reduzir a ampliação de volta para o tamanho do frame. A máquina fazia o corte no molde com uma agulha.
Muitas centenas de mulheres trabalhavam nessa tarefa de precisão na oficina da Pathé que ficava em Vincennes. Técnicas similares foram usadas por Gaumont, Oskar Meßter e o Cinemacoloris, processo inventado por Segundo de Chomón.
Os filmes coloridos com estênceis podem ser identificados pelos nítidos contornos que definem as áreas coloridas. As tonalidades usadas eram, na maior parte das vezes, suaves tons pastel.

stencil

Méliès fez filmes de muitos gêneros diferentes, mas a maior parte de sua produção era do tipo de filme pelo qual ele é mais conhecido: os filmes de trucagens e féeries (que eram contos de fadas / contos fantásticos). Grande parte deles era distribuída em versões coloridas, desde 1897, e ele usou tanto a pintura à mão quanto a técnica do estêncil, que surgiu por volta de 1904.

Eu não sei quais filmes dele foram coloridos com estêncil e por isso estou muito curiosa para saber quais são os títulos e assistir a esse programa na Giornate. Todos os filmes dele que eu conheço têm aquela linda instabilidade da pintura à mão…

viagem_a_lua_cor1

“Viagem à lua” (Georges Méliès, 1902)

A relação entre cor e histórias fantásticas é muito mais antiga que a virada do século, claro, e esteve presente também nos livros infantis ilustrados, no teatro de mágicas, na fotografia, cartões postais etc. Em vez de criar imagens mais realistas, como tanto ouvimos por aí, o uso das cores nesses casos enfatizou muitas vezes os aspectos abstratos ou de espetáculo da imagem.

Méliès dedicou inúmeros esforços para a colorização de seus filmes. Na verdade, tudo era pensado nesse sentido: o cenário, a maquiagem, os objetos utilizados. Tudo precisava ser pintado em tons de cinza porque algumas cores, como o vermelho, por exemplo, apareciam no resultado final como blocos pretos, sem nenhuma transparência, o que impossibilitava a pintura daquela porção da película.

viagem_a_lua_cor2

“Viagem à lua” (Georges Méliès, 1902)

viagem_a_lua_cor3

“Viagem à lua” (Georges Méliès, 1902)

cinema silencioso colorido será um dos grandes temas dessa edição do festival, que terá, além dos filmes de Méliès, várias sessões dedicadas ao sistema Technicolor, que surgiu nos anos 1910 e se popularizou na década seguinte.

Eu já escrevi sobre esse assunto: fiz uma seleção de 10 filmes silenciosos coloridos que valem a pena ser vistos. Saiu no Silent London em inglês e aqui no blog postei uma versão estendida e em português. Quando eu voltar de Pordenone postarei mais sobre esse assunto, com certeza…

As imagens do filme “Viagem à lua” deste post foram retiradas do catálogo sobre a restauração do filme, lançado por Groupama Gan Foundation for Cinema e Technicolor Foundation for Cinema Heritage.
Para ver todos os posts que eu fiz sobre a Giornate 2013, é só acessar a série Diário da Giornate. Os posts sobre a Giornate 2014 estarão organizados na série Diário da Giornate 2014.

translate this blog

NA MOSCA #9 – a lanterna mágica de “No caminho de Swann” (Marcel Proust, 1913)

banner na mosca borda

A dica dessa semana é o acervo de lanternas mágicas da Cinemateca Francesa, que possui cerca de 17 mil peças de diversos países e inúmeros temas. Parte desse repertório está disponibilizada em um site, que está dividido em quatro coleções:

Life Models – placas feitas a partir de fotografias e pintadas à mão, que surgiram em 1870 na Inglaterra;
Royal Polytechnique – uma instituição londrina do século XIX conhecida pela inigualável qualidade de suas placas feitas à mão;
Lapierre – placas de Auguste Lapierre, que fizeram muito sucesso na França do século XIX;
Plaques animées – que são placas de movimento mecânico dos séculos XVIII e XIX.

Toda a coleção vale a pena ser explorada, é claro, mas a minha dica está na seção Lapierre: são as placas descritas por Marcel Proust no primeiro volume de “Em busca do tempo perdido“, No caminho de Swann (1913). Alguns poderão se lembrar que logo no começo do livro encontramos a descrição de uma projeção de lanterna mágica dentro do quarto do protagonista. Aí vai um trecho da cena:

Todos os dias em Combray, desde o final da tarde, muito antes do momento em que deveria ir para a cama e ficar, sem dormir, longe de minha mãe e de minha avó, o quarto de dormir tornava-se o ponto fixo e doloroso de minhas preocupações. Bem se haviam lembrado, para distrair-me nas noites em que me achavam com um ar muito melancólico, de presentear-me com uma lanterna mágica, com a qual cobriam minha lâmpada, enquanto não chegava a hora de jantar; a lanterna, à maneira dos primeiros arquitetos e mestres vidraceiros da idade gótica, sobrepunha, à opacidade das paredes, impalpáveis criações, sobrenaturais aparições multicores, onde se pintavam legendas como em um vitral vacilante e efêmero. Mas com isso ainda mais crescia minha tristeza, pois a simples mudança de iluminação destruía o hábito que eu tinha de meu quarto, e graças ao qual este se me tornava suportável, descontado o suplício de ir deitar-me. Agora já não o reconhecia e sentia-me inquieto como em um quarto de hotel ou de chalé, aonde tivesse chegado pela primeira vez, ao desembarcar de um trem.

Depois disso, o narrador descreve um pouco a história de Geneviève de Brabant. Segundo a Cinemateca Francesa, as placas descritas por ele são estas:

1-2

Geneviève, filha do Duque de Brabant, se casa com o senhor Siffroy.

3-4

Mas, logo depois do casamento, Siffroy precisa ir para a guerra.

5-6

Antes de partir, ele confia seu reino ao mordomo Golo. Este tenta em vão seduzir Geneviève e, em seguida, por conta de sua recusa, ele decide jogar a moça na prisão com um filho recém-nascido, acusando-o de ser o resultado de um adultério.

7-8

Siffroy ouve a notícia e, enfurecido, ordena a morte de Geneviève e seu filho.

9-10

Mas Golo não consegue matá-los e abandona Geneviève e o bebê na floresta. Geneviève se refugia, então, em uma caverna e alimenta seu filho com o leite de uma corça. Um dia, ao sair para caçar, Siffroy persegue a mesma corça e encontra a caverna onde está Geneviève.

11-12

Siffroy entende seu erro e executa Golo. Geneviève e seu filho voltam a viver no palácio, onde levam uma vida pacífica.

Depois o narrador de “No caminho de Swann” continua:

Certamente achava eu um especial encanto naquelas brilhantes projeções que pareciam emanar de um passado merovíngio e passeavam em redor de mim tão antigos reflexos de história. Mas não posso descrever que mal-estar me causava aquela intrusão do mistério e da beleza em um quarto que eu acabara de encher com minha personalidade a ponto de não dar mais atenção a ele do que a meu próprio eu. Cessando, assim, a influência anestésica do hábito, punha-me então a pensar e a sentir: coisas tão tristes. Aquela maçaneta da porta de meu quarto, que se diferenciava para mim de todas as maçanetas de porta do mundo, pelo fato de que parecia abrir-se por si, sem que eu tivesse necessidade de torcê-la, de tal modo se me tornara inconsciente seu manejo, ei-la que servia agora de corpo astral a Golo. E assim que tocavam a sineta para o jantar, apressava-me em correr ao refeitório, onde todas as noites esparzia sua luz a grande lâmpada de teto, que nada sabia de Golo nem de Barba Azul, e que conhecia meus pais e o assado de caçarola; e caía nos braços de mamãe, a quem as desgraças de Geneviève de Brabant me tornavam mais querida, ao passo que os crimes de Golo me faziam examinar com mais escrúpulo minha própria consciência.

Ainda segundo o site da Cinemateca Francesa, a lanterna que aparece na cena seria do tipo Lampascope, que era uma lanterna mágica para projeção caseira acoplada a uma lâmpada de querosene.

lampascope

O site da Cinemateca Francesa ainda tem textos sobre história da lanterna mágica e vários links relacionados. Vale a pena clicar!

As descrições das placas foram traduzidas por mim a partir dos textos do site da Cinemateca Francesa. Os trechos do romance de Proust foram retirados da tradução de Mario Quintana.

Também postei sobre lanternas mágicas aqui.
Todas as dicas da semana podem ser vistas na série na mosca.

translate this blog

Diário da Giornate 2014 #3 – os filmes do fotógrafo Paul Nadar

banner_diario_giornate_2014

Hoje vou falar sobre mais uma sessão de primeiro cinema que veremos em outubro na Giornate del Cinema Muto, em Pordenone, na Itália. No post passado dessa série, eu comentei um pouco sobre o filme de montanha… E agora deparei os mesmos problemas: falta de informações confiáveis e dificuldade de encontrar fontes de pesquisa. A sessão que eu escolhi para hoje é a de filmes de Paul Nadar.

No site da Giornate, essa sessão é citada sem descrição alguma. O que sabemos é apenas que haverá a projeção de filmes desse fotógrafo. Não encontrei informação sobre ele em nenhum dos meus livros… E na internet há muita confusão entre Paul Nadar e seu pai, Gaspard-Félix Tournachon, também fotógrafo e conhecido como Nadar. Então vamos lá, com o pouco que achei sobre o assunto:

nadar

Auto-retrado de Gaspard-Félix Tournachon, pai de Paul Nadar.

Nadar, o pai (1820-1910), foi muito conhecido por seus retratos de artistas da época, como Charles Baudelaire, Gustave Courbet, Eugène Delacroix e muitos outros. Foi também o primeiro (ou um dos primeiros) a capturar imagens fotográficas de um balão.

Em 1874, Paul passou a cuidar do estúdio de seu pai, em Paris. Na última década do século XIX, ele começou a trabalhar com imagens animadas e patenteou um sistema de projeção. Parece que ele criou duas câmeras diferentes, que usavam películas não perfuradas. Uma delas era de 58mm e a outra de 35. Ele apresentou os projetores ao Musée Grevin com o objetivo de substituir o Teatro Óptico de Émile Reynauld, sobre o qual falei neste post. Mas os aparelhos foram negados por conta do ruído que produziam e acabaram nunca sendo comercializados.

A partir de 1893 ele se tornou um agente da Eastman Kodak na França e parece que produziu, em 1896, pelo menos 6 filmes. Essas películas foram recuperadas por Henri Langlois e a compilação, sob o título Programme Nadar, foi exibida na Cinemateca Francesa em 1970. Algumas são atualidades filmadas na França e outras são danças serpentinas, pelo menos uma delas realizada pela bailarina Loïe Fuller (sobre quem também já escrevi um post).

Loie_Fuller

Cartaz da apresentação de Fuller no Folies-Bergère em Paris.

Imagino que sejam esses filmes o que será exibido nessa próxima Giornate del Cinema Muto. Infelizmente, não tenho mais informações sobre o assunto… Se alguém souber de algo ou tiver indicações de links ou livros, por favor me diga nos comentários! :)

No próximo post da série Diário da Giornate 2014 vou falar sobre os filmes de Méliès coloridos com estêncil. Com certeza será um tema mais fácil!

Para ver todos os posts que eu fiz sobre a Giornate 2013, é só acessar a série Diário da Giornate. Os posts sobre a Giornate 2014 estarão organizados na série Diário da Giornate 2014.

translate this blog

NA MOSCA! #8 – há cem anos, começava a guerra

banner na mosca borda

A dica dessa semana é uma mostra virtual criada pelo European Film Gateway, um portal que reúne o acervo online de diversos arquivo e cinematecas europeias. European Film and the First World War foi criada para o centenário da eclosão da Primeira Grande Guerra, em 1914, e os filmes e conteúdos foram cedidos por instituições como Cineteca di Bologna, Deutsche Kinemathek, EYE Film Institute, Cinémathèque Royale de Belgique e muitos outros.

europeanfilmgateway_1914

As diferentes seções da exposição virtual.

A mostra está dividida em sete partes, como é possível ver na imagem acima. Em cada uma delas, você encontra uma série de filmes, fotografias, textos e cartazes de época. É super fácil de navegar! E também dá para ver o conteúdo todo em uma linha do tempo, clicando em Chronology. Aí vão algumas das coisas mais interessantes que eu encontrei lá:

Da seção Film and Propaganda, a animação “Das Säugetier” (1916) é bem interessante… Uma personagem se transforma de polvo para criar uma metáfora da Inglaterra vista pelos olhos alemães. Nessa parte sobre propaganda também tem filmes sobre a resistência.

dassaugetier

Das Säugetier (1916, Alemanha)

Na seção At the Front estão dispoíveis algumas fotografias de Wolfgang Filzinger, um cinegrafista que escreveu um artigo para uma revista alemã de cinema em 1915 sobre as dificuldades de se filmar no front. Segundo ele, além de lidar com lentes lentas e câmeras e tripés pesados, os cinegrafistas tinham que se esconder dos inimigos e dos próprios aliados, que quando percebiam que estavam sendo focalizados se viravam para as câmeras e acenavam, tornando impossível que as imagens fossem depois consideradas autênticas. Para esperar um motivo interessante, como uma explosão de granada, por exemplo, os operadores de câmera tinham que passar longos períodos na zona de perigo… Por isso precisavam ser pessoas familiarizadas com os procedimentos militares.

wolfgang filzinger

Wolfgand Filzinger e sua câmera.

E, para terminar meus destaques, a seção Science and technical innovation mostra, entre outras coisas, as mulheres na guerra. São vídeos, fotos e textos que mostram o trabalho delas na indústria de armas.

mulheres na guerra

Então essa foi a dica da semana… E não deixem de explorar a mostra virtual European Film and the First World War!

Todas as dicas da semana podem ser vistas na série na mosca.

translate this blog

Diário de Pesquisa #1 – como eu escrevi meu projeto

banner pesquisa Vou começar uma nova série de posts aqui no blog, onde pretendo unir textos mais teóricos e mais pessoais. Diário de Pesquisa é o espaço que eu criei para falar sobre minhas dificuldades e descobertas ao longo da pesquisa de Iniciação Científica que estou começando agora. Vou atualizar essa tag sempre que encontrar alguma informação interessante, ler um livro ou artigo muito bom, ter alguma ideia nova… Vou falar também sobre a organização da pesquisa, cronograma, bibliografia, metodologia… Enfim, sobre tudo o que eu não sei como funciona, mas terei que aprender fazendo! Acho que isso vai me ajudar bastante a organizar os pensamentos ao longo do processo e espero poder ajudar outras pessoas que também estão começando no mundo acadêmico.

Nesse primeiro post introdutório vou falar um pouco sobre a escrita do projeto, que foi um processo longuíssimo para mim. Quando eu comecei a escrever de fato, até que foi rápido. Escrevi toda a base do texto em mais ou menos um mês (depois vieram as releituras e correções de amigos e, com isso, inúmeras pequenas alterações). Mas para conseguir definir o objeto de pesquisa demorou muitos meses. Antes de contar como foi a minha experiência, queria dizer algumas coisas simples que me ajudaram muito:

  • conversar com os amigos (tentar explicar o que eu estava estudando ajudou a organizar as ideias e começar a entender o que eu queria pesquisar de fato)
  • manter um diário (no meu caso é um caderno, que anda sempre comigo, onde eu escrevo novas ideias, perguntas, citações, títulos de textos que eu preciso ler etc.)
  • escrever muito (mesmo sem me sentir totalmente pronta para escrever, eu comecei a elaborar algumas ideias em forma de texto, o que foi essencial para formar a base do projeto final)
  • pensar no título do projeto (pode parecer besteira, mas o título é a forma mais resumida e mais clara para definir o projeto. pensar nele ajuda a entender qual o foco da pesquisa)
  • mostrar o texto para os amigos (principalmente aqueles que já passaram por isso. sou muito grata a eles pelas leituras atenciosas e sugestões preciosas!)
diario_de_bordo

Meu caderno de pesquisa e a sempre companheira “Encyclopedia of early cinema”.

Eu sempre quis formalizar meus estudos nessa área, que começaram em 2005, mas não sabia qual seria o meu foco. Quando entrei em Letras, na Universidade de São Paulo (USP), a faculdade que curso atualmente, pensei que era a hora de me organizar e escrever o tal projeto de Iniciação Científica. Minha maior dificuldade foi a definição do objeto. Eu me interessava muito por recepção cinematográfica, mas é um campo pouco explorado pela historiografia do cinema e, por isso, eu acabava pensando em temas muito genéricos… E isso é um problema, pois o projeto deve ser claro e bem definido. Não adianta querer abraçar o mundo e nem tratar de questões muito abstratas, ainda mais na Iniciação Científica. É preciso escolher algum critério para a demarcação do seu objeto, que pode ser um período, um lugar, um autor, um conceito, um filme etc… Eu não conseguia fazer isso e pensei em algumas ideias diferentes – a mais duradoura delas foi querer estudar os mitos de origem do cinema ligados ao espectador. Eu queria entender como foram construídas essas ideias (por exemplo: o público que supostamente saiu correndo nas primeiras projeções dos irmãos Lumière ou a ideia do “espectador ingênuo”) e buscar relatos de época e outros documentos que “provassem” que essas histórias eram apenas mitos que se reproduziram ao longo do século XX. Mas eu percebi que seria muito difícil transformar essa ideia em um objeto e que, no final das contas, eu estudaria as histórias do cinema que reproduziram esses mitos em vez de estudar o período que mais me interessa, o do primeiro cinema.

Então eu fui percebendo que uma coisa é aquilo que você tem no horizonte, que no meu caso é essa ideia de desmistificação do suposto “primitivismo” do primeiro cinema, que apesar de ser combatido desde o final dos anos 1970, ainda é muito reproduzido; outra coisa é o objeto através do qual você vai se aproximar cada vez mais do seu horizonte.

Na metade do ano passado eu consegui avançar nesse sentido: decidi que queria estudar os Hale’s Tours, que eram salas de cinema decoradas para parecer vagões de trem. Um ator fazia o papel do condutor da viagem e, através de uma janela, os espectadores-passageiros assistiam a um programa de variedades, que podia incluir filmes do tipo phantom ride (sobre os quais falei aqui), “vistas estrangeiras” e ficções como “O grande roubo do trem” (Edwin S. Porter, 1903). O objetivo era fazer o espectador sentir-se como se estivesse em uma viagem. Para construir esse ambiente, os filmes eram acompanhados pelo balanço do carro, efeitos sonoros e ventiladores que simulavam o vento. Ou seja, era uma atração cujo elemento central era o corpo do espectador. Essas salas surgiram em 1905 nos Estados Unidos e temos notícia de algumas versões brasileiras nos anos de 1907 e 1908.

Hales_Tours_Postcard_London

Cartão postal londrino dos Hale’s Tours. Dá para perceber claramente o tipo de distinção social que os Hale’s Tours vendiam…

Foi muito importante encontrar um fenômeno que parece ser capaz de unir vários dos meus interesses: recepção cinematográfica, relação entre o cinema e a estrada de ferro, programação de variedades, cinema e viagem, parques de diversões, exposições internacionais… Enfim, os Hale’s Tours estão ligados a vários temas que me chamavam a atenção há anos… E foi justamente em uma viagem que eu entendi qual seria o meu foco. Quando, em outubro de 2013, eu estava em Pordenone, na Giornate del Cinema Muto, encontrei um dos pesquisadores que eu mais admiro, Charles Musser. Seu texto “The travel genre in 1903-1904: moving towards fictional narrative” (publicado no livro Early cinema: space, frame, narrative, editado por Thomas Elsaesser) era a minha bíblia na época. Conversei com ele sobre minhas ideias, ainda muito imaturas, e quando eu disse que existia notícia de salas similares no Brasil, ele arregalou os olhos. Ele ficou muito interessado e disse que seria muito importante alguém estudar isso e divulgar a “notícia”. Voltando para casa, não tive dúvidas: meu foco seria esse, as salas similares aos Hale’s Tours que tivemos aqui no país e como elas participaram das transformações ligadas à “espetacularização da vida urbana” (palavras de José Inácio de Melo Souza, em Imagens do passado: São Paulo e Rio de Janeiro nos primórdios do cinema). No próximo post dessa série, que dedicarei ao conteúdo do projeto, falarei mais sobre tudo isso.

Estou fazendo minha Iniciação Científica pela Escola de Comunicações e Artes da USP, a ECA. Essa é uma informação importante: pelo menos na USP – não sei como é em outras Universidades -, os alunos têm a oportunidade de fazer pesquisas em qualquer faculdade ou instituto. Muita gente não sabe disso. Meu orientador é o Eduardo Morettin, que é formado pela História e foi orientado na pós-graduação pelo Ismail Xavier. O Professor Morettin é muito atencioso e generoso. Estou no começo da pesquisa, mas já estou percebendo que faz muita diferença ter um orientador que pode disponibilizar algum tempo para você. Acho que na hora de escolher um professor para pedir orientação, esse deveria ser o critério mais importante, mesmo que o/a professor(a) não seja diretamente ligado/a a seu foco de pesquisa. Mas eu dei sorte porque ele é o professor da ECA mais próximo do meu tema: ele estuda cinema e história, cinema silencioso, exposições internacionais e outros temas desse campo.

eu_projeto

E essa sou eu, orgulhosa com meu projeto!

Ah, só mais uma coisa que eu queria falar: eu passei muito tempo acreditando que eu ainda não sabia o suficiente, que eu não tinha lido tudo o que deveria ler… Isso foi atrasando a elaboração do meu projeto porque, a cada texto que eu lia, eu acrescentava vários outros na lista de leitura. Foi muito difícil medir qual era a hora certa de parar um pouco de ler e começar a escrever o projeto de fato. Hoje eu vejo que eu poderia ter escrito tudo bem antes, talvez um ano antes. Por isso, se eu posso recomendar uma coisa para meus poucos e queridos leitores, é: comece logo a escrever, mesmo que não esteja satisfeito com o resultado. Pode parecer óbvio, mas às vezes é preciso lembrar que é só escrevendo que se escreve alguma coisa! ;)

Como eu disse, no próximo post da série vou falar sobre o conteúdo do meu projeto, qual o meu objeto de pesquisa, meu foco, objetivos etc. Para ler todos os posts do Diário de Pesquisa, é só clicar aqui.

Esse post foi dedicado ao meu amigo querido André Bogaz. :)

translate this blog

NA MOSCA! #7 – o filme perdido de Orson Welles agora online

banner na mosca borda

Uma das sessões mais importantes (e, para mim, mais marcantes) da Giornate del Cinema Muto do ano passado foi a estreia mundial do filme inacabado de Orson Welles, “Too much Johnson” (1938). O filme, que era considerado perdido até então, foi encontrado em 2013 em um depósito de Pordenone, na Itália (a mesma cidade onde acontece a Giornate!).

Too much Johnson” era originalmente um conjunto de 3 curtas que Welles pretendia usar para abrir cada um dos 3 atos de uma peça homônima que ele estava produzindo no Mercury Theater, um teatro em Nova Iorque que ele fundou em 37. A peça era uma farsa de 1894 de William Gillette. O teatro não tinha a estrutura necessária para exibir filmes, então a peça estreou sem os prólogos e os curtas ficaram inacabados, sem nunca terem sido exibidos.

O responsável pela restauração foi Paolo Cherchi Usai, co-fundador da Giornate del Cinema Muto de Pordenone e Curador Sênior na George Eastman House, em Nova Iorque.

too_much_johnson_online

A sessão foi muito interessante porque, como é um filme inacabado e que foi pensado para a projeção durante uma peça de teatro, o próprio Paolo Cherchi Usai acompanhou a projeção com comentários e explicações. Foi uma sessão atípica em Pordenone: o nome de Welles despertou o interesse de muitos moradores da região, que não costumam frequentar o festival. O pesquisador criou, então, uma apresentação para o filme que levava em conta a presença desse público “não-especializado”, como ele mesmo chamou, na sessão do Collegium do dia seguinte, quando respondeu a questões do nosso grupo de jovens estudantes sobre a restauração e a sessão.

Além de explicar a história da peça, detalhes de produção e falar sobre as locações do filme, Cherchi Usai também chamou atenção para o que mais nos interessa, os aspectos formais do filme… Sobre isso, eu escrevi dois posts (sobre as referências que o filme faz ao período mudo e sobre o processo de restauração), que podem ser podem ser visualizados aqui.

A dica dessa semana tem a ver com uma ótima notícia… O filme está, agora, disponível para assistir online! Para ver, é só clicar na imagem abaixo:

too_much_johnson_play

A dica dessa semana foi dedicada àqueles meus amigos que às vezes me perguntam se ainda surgem novidades no mundo do cinema antigo. Pois é, todos os dias novos filmes são redescobertos e esses achados transformam constantemente a história do cinema! :)

Todas as dicas da semana podem ser vistas na série na mosca.

translate this blog

Diário da Giornate 2014 #2 – o filme de montanha

banner_diario_giornate_2014

Como eu disse no primeiro post da série sobre a programação da Giornate del Cinema Muto de 2014, já foram divulgadas algumas atrações dessa edição do festival e eu vou comentar algumas sessões aqui no blog (principalmente as que terão filmes do primeiro cinema). O site da Giornate ainda não foi atualizado com mais informações para além das que eu já postei, mas estou pesquisando cada um dos temas desse ano, como fiz ano passado.

Hoje escolhi falar sobre “The ascent of mont blanc” (1902), de Frank Ormiston-Smith. Segundo a prévia da programação do festival, ele é considerado o “pai do filme de montanha”…

O filme de montanha, assim como o phantom ride (sobre o qual comentei aqui), foi um sub-gênero do travelogue, ou filme de viagem, e surgiu na virada do século XIX para o XX. Como a viagem era na época uma atividade para poucos, o travelogue tinha o objetivo de dar acesso ao espectador a diferentes partes do mundo (além de ficções que se passavam em trens, filmes educativos, comédias e muitas outras imagens ligadas ao tema).

Não consegui muitas informações sobre o filme e o diretor na internet ou em livros… Mas pelo que descobri, esse foi o único filme dirigido por Ormiston-Smith, um alpinista e cinegrafista, que fotografou vários curtas sobre alpinismo e outros travelogues em geral de 1901 a 1909.

O filme “The ascent of mont blanc“, como diz o título, mostra uma escalada pelo Mont Blanc, que é a montanha mais alta dos Alpes e fica na divisa entre a França e a Itália. Em uma divulgação de época, podemos ter ideia do que se trata o filme… São 18 quadros que mostram as aventuras do grupo liderado por Ormiston-Smith, que escalou o monte e passou por algumas dificuldades:

1. Preparations for the Ascent and Departure of the Party. 2. Crossing a Mountain Torrent. 3. Party leaving the Pierre Pointue Inn, 6,800 feet. 4. Crossing the Glacier des Bossons. 5. The “Junction” of Glaciers de Taconnaz and des Bossons. 6. Traversing the Glacier de Taconnaz. 7. Climbing the Ice Pinnacles on the same Glacier. 8. Arrival of the Party at the Grands Mulets. 9. Reaching the Grands Mulets, 10,120 feet. 10. Life at the Grands Mulets. Partaking of Refreshments. 11. Sunset Panorama from the Grands Mulets, 7 P. M. (Unique.) 12. Leaving by Moonlight for the Summit. 13. Ascending the Snow Slopes towards the Petit Plateau, 3 A. M. 14. A Cloud Sea from the Petit Plateau, 4 A. M. A wonderful sight photographed from above the clouds. The preceeding three pictures are probably the first successful moving picture views secured at that time of the early morning. 15. Crossing a Snow Bridge near the Grand Plateau, 15,000 feet. 16. Finding a way over a great crevasse near La Tournette, 15,300 feet. 17. Ascending the Slope below the summit over a Snow Bridge during a Snowstorm, 15,500 feet. 18. The Summit of Mont Blanc, 15,781 feet. — Fonte: IMDB

O filme é da Warwick Trading Company, uma produtora britânica que funcionou de 1894 a 1915 e distribuiu filmes dos irmãos Lumière e filmes e projetores de Thomas Edison. Em 1897, Charles Urban passou a ser o seu diretor e a companhia se especializou em não-ficções, principalmente travelogues e reportagens. Mas em 1903 Urban deixou a produtora para fundar sua própria empresa, a Charles Urban Trading Company.

charles urban

Detalhe da capa de um catálogo da Urban Films (1903).

Charles Urban, considerado a figura mais importante da indústria cinematográfica britânica do período, criou seu próprio projetor, o Bioscope, em 1897.

Na imagem acima, é possível perceber como o cinema era usado para dar ao espectador o poder de conhecer diferentes povos, culturas e, enfim, lugares de difícil acesso. Como é o caso do Mont Blanc, mostrado por esse filme que veremos na Giornate.

Se alguém tiver correções para este post, por favor, escreva nos comentários! É um assunto difícil… Não encontrei muitas fontes de pesquisa e, no que encontrei, havia contradição… No próximo post sobre a programação da Giornate desse ano pretendo falar sobre os filmes que veremos lá do fotógrafo Paul Nadar! – Espero conseguir mais informações sobre eles… :)

Para ver todos os posts que eu fiz sobre a Giornate 2013, é só acessar a série Diário da Giornate. Os posts sobre a Giornate 2014 estarão organizados na série Diário da Giornate 2014.

translate this blog

NA MOSCA! #6 – Festival Internacional de Curtas Metragens de SP

banner na mosca borda

A dica dessa semana tem a ver com aquele texto que eu escrevi para outro post, sobre o curta “E” (Alexandre Wahrhaftig, Helena Ungaretti, Miguel Antunes Ramos, 2014). Como eu disse, esse filme tem muito a ver com as phanton rides, que surgiram no primeiro cinema, no contexto do filme de viagem. Independente da relação com o primeiro cinema (que tem muito a ver com o meu olhar em relação ao filme, já que eu estou estudando esse tema), acho o curta muito bom e muito importante para a discussão acerca da especulação imobiliária.

Cena do curta “E” (2014).

O filme será exibido no Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo, o Kinoforum, nos seguintes dias e horários:

quinta, 21/agosto, 21h – Espaço Itaú de Cinema
domingo, 24/agosto, 17h – MIS
terça, 26/agosto, 17h – Espaço Itaú de Cinema
domingo, 31/agosto, 19h – Cine Olido

Sinopse: Estacionamento. Es-ta-cio-na-men-to. Do latim, statio. Ficar de pé, ficar parado.

Para saber mais sobre o filme, clique aqui para ler a crítica da Revista Cinética e aqui para acessar o texto que eu postei no blog a respeito. É um curta imperdível!

Todas as dicas da semana podem ser vistas na série na mosca.

translate this blog

Curta “E” (2014) – A subjetiva da máquina é possível?

Não costumo falar de filmes contemporâneos aqui no blog, mas esse chamou muito a minha atenção. Além disso, eu notei uma relação com o primeiro cinema e é sobre ela que vou comentar hoje… O filme é o curta-metragem “E” (Alexandre Wahrhaftig, Helena Ungaretti, Miguel Antunes Ramos, 2014).

A subjetiva da máquina é possível?

Os primeiros planos nos levam por um túnel – não sabemos de onde, não sabemos para onde. Vemos apenas o teto e as luzes que correm. O sentimento é de claustrofobia. Onde estamos? Cidade cinza, viadutos sem calçada: imagens estáticas de ruas que parecem ter sido congeladas. Seriam fotografias? Não. Alguns indícios, como os botões de navegação e a transição entre uma imagem e outra denunciam: depois do túnel há o Google Street View.

e1

Um cursor de mouse confirma: este é um filme de máquinas. O que ouvimos é uma mistura de ruídos estranhos, que instauram um clima de suspense. Será uma ficção científica?
É um filme desabitado. Aparecem as primeiras “pessoas”, em coloridas fotografias reproduzidas em porções de tecido que – a narração nos explica – servem para transformar em “local agradável” um estacionamento. O som, agora uma música italiana romântica que parece reproduzida em vitrola, e esses paineis que remetem à primavera europeia estão muito distantes da falta de vida que predomina no resto do quadro. Parecem querer construir uma ambientação virtual para aquele lugar hostil. Algumas das palavras que se distinguem na música são “recordar” e “sonhar”. O tempo da vida já passou?

e2À primeira vista pode parecer que as pessoas estão totalmente excluídas das imagens, mas é justamente essa pressuposição que pode obrigar o espectador a buscar constantemente por vida. Vemos um gato que foge, um homem que caminha lá no fundo… Mais adiante um trabalhador aponta para um guindaste. Um braço de mulher sai pela janela do carro e pequenos bonecos tomam sol no jardim de uma maquete. Todas essas figuras, tanto as pessoas quanto as imagens de pessoas, são equivalentes no filme e parecem apontar para o aspecto mais fantasmagórico da vida.

O curta se foca nos estacionamentos de carros, que não param de surgir na cidade de São Paulo, e usa esse fenômeno como metonímia para um problema maior, o da especulação imobiliária.

O único indício de humanidade vem das vozes que ouvimos. Histórias de infância, lembranças antigas de um tempo em que se vivia na cidade… Endereços que a imagem nos mostra terem se transformado em áridos estacionamentos, o som nos lembra que já foram alguma vez a casa de alguém, uma sala de cinema, espaços de convivência.

Para além do que podemos imaginar através do som e apesar de todo o esforço que se possa fazer, será muito difícil encontrar vivalma no filme. Que lugar o espectador encontra para si, então, nessas imagens tão vazias?

EPara tentar responder a essa questão, talvez seja necessário pensar a respeito dos diversos travellings que mostram o que poderíamos chamar a princípio de “ponto de vista dos carros”. As imagens dentro do túnel logo no início, os passeios por estacionamentos de shoppings mais adiante, e também o elevador que passa pelos diversos andares de um macabro estacionamento vertical: todas essas cenas parecem conduzir o espectador por diferentes caminhos, que nunca levam a lugar algum. Pode ser produtivo, então, fazer uma digressão de mais de um século, para entender como surgiu esse tipo de plano e qual era o sentido dele na época.

O travelogue, ou filme de viagem, foi um dos gêneros mais populares do primeiro cinema e lidava com formas diversas que iam desde vistas de cidades distantes até filmes de ficção. Esses filmes mostravam metrópoles famosas, povos considerados exóticos e outras imagens ligadas ao mundo da viagem para um público que começava a ser atraído pelo turismo. Viajar estava se transformando em um modo de apropriação do mundo através das imagens.

Um dos subgêneros mais importantes do travelogue foi o phantom ride, que surgiu já no final do século XIX. Esses filmes eram produzidos a partir da dianteira ou traseira de veículos em movimento, como carros, metrô e, principalmente, trens. Os trilhos que apontam para o horizonte, os postes telegráficos que passam rapidamente e todos os outros objetos em quadro servem de marcação para o fluxo do movimento, o que sugere para o espectador uma posição especial: a de passageiro da viagem representada na tela.

trip down market street before fire 1906

Frame de “A trip down Market Street before the fire” (Irmãos Miles, 1906, EUA)

Na virada do século XIX para o XX, quando quase ninguém podia viajar e muito menos dirigir carros, esses filmes apostavam na ilusão de profundidade criada pela perspectiva e na ideia de fazer o espectador viajar sem sair do lugar para fazer dessas exibições momentos de aproximação com o que havia de mais moderno na cultura urbana. Qual será o sentido, então, de colocar o espectador nessa posição hoje – quando estamos tão familiarizados com a experiência da viagem, do trânsito, do jogo em primeira pessoa?

curta e1 O interesse por esses filmes derivava, na época, da ilusão da sensação de movimento e da possibilidade de conhecer paisagens exóticas, distantes ou urbanas. Mas as phantom rides de “E” não mostram nada de interessante, não chegam a lugar algum. A própria perspectiva praticamente desaparece. A vista dos túneis no início do curta é um exemplo importante nesse sentido, pois o quadro mostra o teto, não a luz no horizonte. E a imagem parece sugerir um estado de sem-saída.

As vistas do Google Street View também têm esse sentido: a dimensão utilitária do aplicativo é esvaziada no filme e ele passa a como que “andar sozinho”. O cursor de mouse que não tem dono, o olhar que não é de ninguém… Tudo isso cria a impressão de estarmos vendo um mundo que morreu. E de fato, em determinado ponto do filme, a ferramenta é usada para mostrar o passado, as casas que já não existem para dar lugar aos estacionamentos.

Essas “viagens” acabam por ter o efeito de estranhamento: um lugar tão corriqueiro se transforma em um ambiente insuportável. “Passear” pelos corredores de um estacionamento de shopping passa a ser uma experiência macabra. A impressão que temos é a de que alguma criatura monstruosa pode aparecer a qualquer instante, ou de que estamos nos aproximando da morte. O som, uma mistura de barulhos mecânicos e outros ruídos agudos e esquisitíssimos, contribuem muito para esse clima de terror.

Mas quem é responsável por esses trajetos que levam de um andar a outro, nesses estacionamentos desertos de gente, mas abarrotados de automóveis? A perspectiva de uma phantom ride pressupõe um veículo onde está instalada a câmera e do qual o espectador imagina ser passageiro. Em um filme desabitado como esse, será possível identificar-se como passageiro (ou motorista)?

E_photo05Sempre que um carro em movimento é focalizado pela câmara, seus vidros refletem o exterior e o que domina o interior é a escuridão. O ponto de vista das phantom rides desse filme não é humano, e sim o da máquina. E essa é uma das estratégias, acredito, que “E” usa para criar um olhar muito singular para a questão da especulação imobiliária. E é por conta do uso que o curta faz dessas “subjetivas da máquina” que seu impacto é tão grande.

A jogada macabra do filme é identificar a nós, os espectadores, com o “olhar” mecânico, o “olhar” dos carros. O filme prova que a subjetiva da máquina é possível, mas só quando tudo o que há de humano é excluído, limado. Assim como a lógica da especulação imobiliária parece construir em detrimento das pessoas. E percebemos que o monstro somos nós, dentro de nossos carros, achando tudo isso normal.

“E” foi o vencedor da Mostra de Cinema de Tiradentes desse ano e poderá ser visto em São Paulo na próxima edição do Kinoforum, que começa em breve. Ainda esta semana postarei as datas e horários. Agradeço ao Leco, um dos diretores, por disponibilizar as imagens que eu postei aqui. 

translate this blog

NA MOSCA! #5 – explorando o Teatro Óptico de Émile Reynaud

banner na mosca borda

A dica dessa semana não tem nada a ver com uma notícia ou uma novidade. Mas se você ainda não conhece, não deixe de clicar! É um tour virtual sobre o Teatro Óptico de Émile Reynaud. O site, feito pela Cinématèque Française em 2009, é repleto de vídeos e imagens sobre o aparelho e está disponível em inglês e francês.

O Teatro Óptico, inventado por Reynaud em 1888, era um aparelho que possibilitava a projeção de imagens animadas. Era como uma mistura de lanterna mágica e praxinoscópio (que também tinha sido inventado por ele 11 anos antes). Em 1892, ele começou a exibir suas primeiras animações no Musée Grevin, em Paris: Pauvre Pierrot, Clown et ses chiens e Un bon bock. Foi só depois de cerca de 13 mil sessões, em 1900, que as Pantomimes Lumineuses de Reynaud pararam de ser exibidas.

musee grevin 1892

Musée Grevin em 1892, Paris.

O tour mostra o funcionamento do Praxinoscópio, do “Teatro Praxinoscópio” e, claro, do Teatro Óptico. É muito interessante ver de perto como são esses aparelhos… As tiras desenhadas do Teatro Óptico, por exemplo, tinham perfurações muito parecidas com as que a película de filme terá alguns anos depois. Olha só como funcionava:

emile reynaud

Projeção de lanterna mágica (para o cenário fixo), jogos de espelhos e as tiras flexíveis com imagens transparentes que mostram diferentes poses das personagens: é a partir desses elementos que o espetáculo é feito! Uma das principais conquistas do Teatro Óptico foi ir além da tira com um número limitado de imagens (como era no Zootrópio, Praxinoscópio etc., que eram brinquedos circulares, cujas imagens eram animadas em loop). As tiras do novo invento podiam ser longuíssimas! O loop não deixa de ser importante, claro (os filmes feitos para o Kinetoscope de Edison, por exemplo, são “circulares” – é só lembrar da Dança Serpentina), mas o comprimento indefinido das tiras de Reynaud permitiu que as animações pudessem ser mais longas.

No final do tour também é possível assistir a algumas animações e a algumas tiras de praxinoscópio:

praxinoscopio reynaud

Então essa foi a dica desta semana: clique aqui e aproveite o tour pelas invenções de Reynaud. Recomendo a opção guided tour!

Todas as dicas da semana podem ser vistas na série de posts na mosca.

translate this blog

Diário da Giornate 2014 #1 – criando expectativas…

banner_diario_giornate_2014 Como já falei bastante aqui no blog, ano passado fui selecionada como membro do Collegium da Giornate del Cinema Muto, o mais importante festival de cinema silencioso do mundo, que acontece todo mês de outubro em Pordenone, uma cidadezinha no norte da Itália. O Collegium é um programa para jovens estudantes que consiste basicamente em uma série de palestras sobre restauração de filmes, história do cinema mudo e outras questões ligadas ao tema. Os selecionados têm estadia de graça na cidade durante a semana do festival e depois devem escrever um texto sobre algum aspecto dessa semana super intensa, o Collegium Paper. Quem sabe um dia posto o meu aqui! Mas a experiência que eu vivi lá foi muito mais do que isso…

1383904_3471605925180_172204387_n

Teatro Verdi em Pordenone – onde a mágica acontece!

Ter ido para Pordenone foi, sem dúvida, o acontecimento mais importante da minha vida até agora. Foi a minha primeira viagem para a Europa (aproveitei para conhecer Roma e Veneza!), foi a primeira vez que eu encontrei tantos jovens com os mesmos interesses que eu e foi a primeira vez que eu participei de um evento tão grande. A Giornate é uma experiência única: foi lá que eu passei a sentir que posso fazer parte de uma enorme comunidade de pesquisadores, estudantes e amantes do cinema antigo. Eu conheci muita gente, fiz amigos muito especiais (como foi o caso do pianista mexicano José, sobre quem já falei aqui) e tive a oportunidade de conversar com pesquisadores que admiro tanto, como Charles Musser!

Depois de ir pela primeira vez como collegians, os jovens selecionados têm a oportunidade de retornar no ano seguinte como mentors. Esses títulos não fazem muita diferença na verdade… E o que importa é que todos têm estadia de graça, hehe! E eu, felizmente, não vou perder essa oportunidade! Estarei em Pordenone novamente este ano. De 4 a 11 de outubro estarei na Giornate del Cinema Muto aproveitando cada segundo, como fiz no ano passado.

A programação da 33ª edição já começou a ser divulgada e promete ser uma das melhores da história! Essas são algumas das atrações para as quais eu estou mais ansiosa:

– vários filmes dos anos 1920 coloridos com o sistema Technicolor.
– a oportunidade de ver e ouvir uma sessão com um benshi: Ichiro Kataoka, o benshi japonês que foi o responsável pela sessão mais emocionante do ano passado estará de volta para narrar 4 curtas do começo da carreira de Chaplin. Com certeza essa é uma das sessões mais interessantes! Uma oportunidade única.
– “O encouraçado Potenkin” (Sergei Eisenstein, 1925) com uma trilha sonora recém encontrada (?). Ainda não entendi muito bem do que se trata, mas vou pesquisar e postar por aqui!
– do primeiro cinema, o período que mais me interessa, ainda não temos muitas informações, mas já foram divulgados:
. filmes de Méliès coloridos com estêncil
. filmes do fotógrafo Paul Nadar
. filmes japoneses da primeira década do século XX pela primeira vez na Europa
. “The ascent of mont blanc” (1902), de F. Ormiston-Smith, considerado o “pai” do filme de montanha
. um programa em comemoração ao 50º aniversário da AIRSC (Associazione Italiana per le Ricerche di Storia del Cinema, criada em 1964) reunirá uma vasta seleção da coleção de Josef Joye (1852-1919), um padre suíço que colecionava filmes para exibir com propósitos educativos. Os filmes de sua coleção abrangem o período de 1905 a 1914.
– e, finalmente, a sessão de encerramento: “Luzes da Cidade” (Charles Chaplin, 1931). A trilha sonora, criada pelo próprio Chaplin, será conduzida por Günter Buchwald (sobre quem já falei aqui).

Parece ser um programa mais “popular” que o do ano passado, com muitos filmes conhecidos. E, claro, em um festival onde as sessões começam às 9h da manhã e só terminam depois da meia-noite, haverá muito mais… Essa pequena lista que eu fiz é só a minha seleção dentro do que já foi divulgado.

Sobre algumas dessas sessões (principalmente as de primeiro cinema) pretendo fazer posts mais detalhados antes de embarcar para o festival!

welcome home

David Robinson na abertura da Giornate de 2013.

A “cobertura” da Giornate 2013 aqui no blog foi muito focada em pesquisas que eu fiz antes do festival acontecer. Depois de voltar de Pordenone acabei postando pouco… Dessa vez pretendo fazer diferente: poucos posts antes do festival e mais posts depois. Vou contar as minhas experiências, as sessões do Collegium, postar fotos da cidade, dos eventos e, claro, dos amigos! :)

Para ver todos os posts que eu fiz sobre a Giornate 2013, é só acessar a série Diário da Giornate. Os posts sobre a Giornate 2014 estarão organizados na série Diário da Giornate 2014.

translate this blog

NA MOSCA! #4 – o cinema 100 anos atrás

banner na mosca borda

A dica dessa semana tem a ver com o lançamento do filme inglês “A night at the cinema in 1914“, que é uma compilação de curtas de 1914 feita pelo BFI (British Film Institute), com curadoria de Bryony Dixon. É um típico programa de variedades da época, com comédia, drama, noticiário e travelogue… Uma iniciativa como essa é muito importante porque nós costumamos assistir aos filmes antigos em situações artificiais: um festival de cinema, por exemplo, cria programas longos com filmes de um mesmo gênero e a platéia é repleta de especialistas. Não é assim que o cinema era visto na época! Claro que jamais conseguiremos reproduzir exatamente a experiência do passado – isso nem teria sentido! Mas tentar se aproximar do modo como nossos bisavós (ou tataravós!) assistiam filmes pode ser muito produtivo para as pesquisas sobre o espectador de cinema das origens. E, claro, pode ser muito divertido!

A música foi criada e improvisada por Stephen Horne, músico inglês que é considerado um dos melhores no mundo do cinema mudo! O filme estreou em Londres na semana passada e, infelizmente, não deve chegar às telas brasileiras. Olha só o trailer:

.
Mas esse post não é sobre o trailer de um filme que a gente não pode ver! :)

O BFI lançou recentemente um site chamado 1914 on film, que disponibiliza cerca de 60 filmes britânicos feitos naquela data, 100 anos atrás! Então essa é a minha dica da semana: explorar o site e tentar sentir um pouco como era o cinema da época.

Duas sugestões para começar:

The Magic Glass (Hay Plumb, 1914)

the magic glass

Um inventor excêntrico cria uma lente de aumento que pode ver através de portas e paredes. Os planos que mostram o ponto de vista da lente são atrações em si, claro. Mas é interessante notar que esse tipo de filme, comum no primeiro cinema, parece passar a usar esses planos com função mais narrativa do que de atração… Um típico exemplo de comédia que faz graça com invenções malucas!

Egypt and her defenders (1914)

egito

Um travelogue tingido com vistas do Egito. Tem várias imagens das atrações turísticas, mas vale mais pelos planos do povo, principalmente os trabalhadores no porto, que aparecem logo no começo do curta.

Então essa foi a dica dessa semana… E tá aqui o link do site de novo para você não deixar de clicar!

***

Se você entrar lá e não conseguir dar play nos filmes (aparece a mensagem “Este vídeo não está disponível para a sua localidade”), sugiro o seguinte:
– use o navegador Google Chrome;
– baixe o aplicativo “Hola” na Chrome Web Store (para baixar, clique aqui);
– acesse o site 1914 on film e escolha algum vídeo para assistir;
– clique no ícone do aplicativo “Hola” (fica no canto superior direito, é uma carinha feliz) e escolha a bandeira do Reino Unido (UK);
– pronto! dê play novamente e o vídeo deve funcionar! isso serve para qualquer site que não permite a visualização de vídeos por conta a localização de acesso!

Todos as dicas da semana podem ser vistas na tag na mosca.

translate this blog

Ciclo de Cinema Silencioso do Cineclube Latino-Americano – sessão de filmes da Revolução Mexicana

Semana passada eu postei meu relato sobre a oficina Música para Cinema Mudo, ministrada pelo pianista mexicano José María Serralde Ruiz, organizada pelo Cineclube Latino-Americano. A oficina foi parte da programação do Ciclo de Cinema Silencioso, que aconteceu no contexto do 9º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo. Em um outro post, no qual falei sobre a programação completa do Ciclo, chamei a atenção para a sessão do dia 26 de julho, quando seriam exibidos filmes da revolução mexicana.

É sobre essa sessão que vou falar um pouquinho hoje:

aureliodelosreyes_sessaomexicana_cineclube

O professor Aurelio de los Reyes apresentando a sessão

Vou começar dizendo que foi extremamente emocionante poder rever alguns dos filmes mexicanos que assisti na Giornate del Cinema Muto no ano passado e ouvir novamente o belíssimo acompanhamento de José María no piano. Mas o mais importante dessa sessão no Cineclube foi a presença do pesquisador Aurelio de los Reyes! Quando estive em Pordenone, em outubro passado, fiquei muito chateada ao perceber que a trupe mexicana (pesquisadores, restauradores, músico etc.) não recebeu a devida atenção e respeito. Era essencial que os filmes exibidos lá tivessem algum tipo de explicação… Mas Aurelio não foi convidado a apresentar nem comentar nenhuma sessão e tampouco participou dos debates do Collegium.

No Cineclube Latino-Americano foi diferente: Aurelio apresentou a sessão e comentou todos os filmes, enquanto eram exibidos, explicando o que víamos e chamando a atenção para diversos aspectos interessantes… Na Itália foram exibidos 3 programas ao todo; aqui em São Paulo assistimos ao terceiro, imagens de 1913 a 1923 mostrando principalmente os exércitos de Francisco Villa e Emiliano Zapata. Antes da sessão começar, o professor Aurelio falou um pouco sobre a tendência “documental” das origens do cinema mexicano. Segundo ele, isso se explica principalmente por três motivos: a dependência tecnológica; a falta de grandes capitais (o cinema era uma atividade “familiar” e não havia dinheiro para a criação de estúdios); e o culto à ciência com a introdução do positivismo no século XIX. Mais sobre esse assunto neste post.

Foi possível perceber essa tendência nos filmes a que assistimos… Muitas vezes são longos e repetitivos justamente porque tinham o objetivo de mostrar os acontecimentos “por completo”.

sessaomexicana_cineclube

Catálogo do Festival, programação e ingresso da sessão

Uma curiosidade interessante que o professor mexicano nos contou foi que, no exército de Zapata, havia uma tropa composta por mulheres que se vestiam como homens. Em um filme de desfile de tropas, ele apontou o momento em que ele acredita que elas estejam desfilando. Ele conseguiu distingui-las por seu passo mais curto!

Outro aspecto que me interessou foi o que Aurelio chamou algumas vezes de “atração”. Ele apontava sempre que os filmes mostravam os homens comuns, nas ruas, observando os desfiles militares, tentando ver as câmeras e, principalmente, tentando ser vistos por elas. Ele disse que era muito comum, na época, o público ir ao cinema com o objetivo de se ver na tela. Gostei muito de ouvir isso porque esse foi, justamente, o tema do meu Collegium Paper (o texto que todo selecionado para o Collegium da Giornate del Cinema Muto deve escrever depois do festival). Quando eu assisti aos filmes mexicanos em Pordenone me chamou muito a atenção as imagens desses homens comuns que tentam ser vistos. Muitas vezes vemos eles serem retirados de campo à força, por guardas, por exemplo (isso não acontece nos filmes que vimos no Cineclube; acontece nos filmes mais antigos, durante a ditadura de Porfirio Díaz). Quem sabe um dia eu posto esse texto aqui no blog.

Foi como nos primeiros tempos do cinema: o pianista de um lado, o comentador de outro. E, nesse caso, a oportunidade única de ouvir a um pianista maravilhoso e a um comentador que é o principal pesquisador de cinema silencioso do México… Uma sessão simplesmente inesquecível!

translate this blog

NA MOSCA! #3 – “The Grand Budapest Hotel”

banner na mosca borda

A dica dessa semana é o novo filme de Wes Anderson, “The Grand Budapest Hotel“. Pode parecer um dica um pouco estranha, já que o filme estreou no Brasil em abril, muita gente já viu e comentou. Mas eu escolhi sugerir esse longa como dica da semana por um motivo bem específico.

grandbudapesthotel_maquete2

Maquete do hotel que dá título ao filme

O filme é o mais cinéfilo da carreira de Wes Anderson e tem várias referências ao cinema antigo (algumas cenas são, inclusive, feitas em janela 4×3). Mas eu gostaria de chamar atenção para alguns planos do filme, principalmente aqueles em que o hotel é visto de longe e de frente. É que foram usadas maquetes para essas cenas. Claro, maquetes são usadas o tempo todo no cinema, e estão presentes durante toda a sua história. Mas as de “The Grand Budapest Hotel” foram uma surpresa especial para mim, que logo reconheci a referência ao primeiro cinema, mais particularmente aos filmes de fantasia de Georges Méliès. Esse tipo de maquete não quer ser realista, é justamente o aspecto de “mundo de fantasia”, de cenário, que é salientado. O fundo pintado à mão (que, mesmo tendo sido colocado na pós-produção, parece pintado), os pequenos objetos que se movem… Tudo isso ajuda a criar essa atmosfera de artificialidade.

grandbudapesthotel_maquete

Detalhe da maquete de “The Grand Budapest Hotel”

02.George Méliès - Le voyage a travers l'impossible (1904 colorizée) 016

Cena de “Le voyage à travers l’impossible” (Georges Méliès, 1904)

É claro que o filme tem muitos efeitos especiais digitais também. Mas esse tipo de “cinema de brinquedo”, que valoriza a construção de cenários reais, mas sem a intenção de ser realista, me interessa muito. E esse é um dos motivos pelos quais eu amo tanto o primeiro cinema (e os filmes de Wes Anderson)!

Então essa é a dica dessa semana: prestar atenção nos cenários em miniatura de “The Grand Budapest Hotel” de Wes Anderson!

A Revista Cinética publicou um texto interessante sobre o filme, mas que enfatiza mais seus aspectos narrativos.
E o filme segue em cartaz aqui em São Paulo em muitas salas…

translate this blog

Ciclo de Cinema Silencioso do Cineclube Latino-Americano – oficina “Música para Cinema Mudo”

Como eu disse no post Na Mosca #2, a dica da semana passada aqui no blog foi o Ciclo de Cinema Silencioso, programação organizada pelo Cineclube Latino-Americano no contexto do 9º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo. Vou fazer alguns posts sobre isso e este é um deles: hoje vou falar sobre a oficina Música para Cinema Mudo ministrada pelo músico mexicano (e meu querido amigo) José María Serralde Ruiz. A oficina foi pensada para músicos interessados em cinema silencioso, mas eu (que só toco campainha!) participei também e até toquei um pouquinho de percussão.

oficina musica para cinema mudo

José durante a oficina no Cineclube Latino-Americano

O curso é organizado a partir de exercícios em grupo. O primeiro deles foi com o filme “L’assassinat du duc de Guise” (Charles Le Bargy, André Calmettes, 1908, filme neste link), o filme mais antigo de que conhecemos a trilha original (composta pelo regente francês Charles-Camille Saint-Saëns). Primeiro assistimos ao trecho inicial do curta sem som, depois assistimos novamente tentando sonorizar e depois novamente com o áudio original. É muito interessante perceber na prática aquilo que já sabemos: o som tem o poder de destacar gestos, enfatizar mudanças de humor, criar climas e até alterar a nossa interpretação de um filme através de recursos como a ironia, por exemplo.

O José é um ótimo professor. Foi muito bonito ver o esforço dele para criar um ambiente seguro e aberto para que todos os participantes se sentissem à vontade para falar e tocar. Uma estratégia interessante que ele usou foi pausar o curta em determinado ponto e perguntar aos alunos: no que aquela personagem está pensando? o que ela vai fazer agora? Isso fazia com que nós assistíssemos ao filme com maior atenção e prontidão, com um esforço de compreensão muito maior do que normalmente.

Depois assistimos e musicamos um trecho do filme “Regen” (Joris Ivens, M. H. K. Franken, 1929, filme completo neste link). E a discussão foi focada nas diferenças entre musicar um filme como esse (de vanguarda, “documental”, mais “abstrato”) e um filme de ficção (com variações de sentimentos, com “drama”).

Outro jogo foi bem divertido: novamente em grupos, criamos histórias simples como se fossem filmes imaginados. Depois, cada grupo devia musicar o filme do outro. Foi muito legal porque era possível “ver” a história através dos sons e construir detalhes, como gestos e novas imagens…

No segundo dia de oficina voltamos ao curta “L’assassinat du duc de Guise“, mas com um exercício diferente: tínhamos que, em grupos, listar todas as ações e gestos do trecho e determinar quais eram os pontos de mudança mais relevantes para depois sonorizar mais uma vez. É impressionante ver como esse tipo de análise detalhada prévia faz a música saltar em qualidade e precisão! O José acredita que o músico para cinema mudo deve entender os “gestos do filme” (e isso pode ser entendido tanto como os gestos das personagens como os gestos da imagem, no caso de um filme sem personagens) como se fossem os gestos do regente de uma orquestra.

oficina musica para cinema mudo 2

Alunos da oficina musicando “L’Assassinat du duc de Guise” (1908)

Para terminar esse segundo dia brincamos um pouco com Mickey Mouse, naquele filme que é uma das primeiras aparições da personagem, “Steamboat Willie” (Ub Iwerks, Walt Disney, 1928, filme neste link). Experimentamos a criação de ruídos para o filme, que justamente foi todo feito a partir da música e de efeitos sonoros diversos.

Perdi, infelizmente, o último dia de oficina, em que o grupo musicou coletivamente um curta de Chaplin.

Sobre o improviso musical não posso falar muito porque não entendo nada dessa área. Mas o José falou bastante sobre isso, claro. Todos os exercícios da oficina tinham como objetivo praticar algumas regras que ele estabeleceu logo no início e que eram resumidamente:

1. Não há melhor ou pior música para o Cinema Mudo. O que muda são as escolhas que fazemos;
2. Se um outro músico faz uma proposta, é preciso aceitar a ideia e tocar junto;
3. Se não faz sentido para você (se não “te incendeia”), não fará para o seu colega músico e certamente não fará para o espectador.

Ele falou bastante também sobre o repertório que é preciso construir e como lançar mão dessas “cartas na manga” durante uma sessão de improviso. E quando o músico tem um bom tempo de preparação o ideal é criar uma folha guia com as indicações do que tocar em cada momento do filme, marcando seus principais gestos, tensões etc…

Foi uma experiência muito especial! Acho que um dos maiores valores (principalmente para não-músicos como eu) desses encontros de discussão e experimentação de música para cinema mudo é que a gente aprende novas formas coletivas de interpretação dos filmes. E tem a chance de criar a partir deles, o que nos abre para novos pontos de vista.

No próximo post sobre o Ciclo de Cinema Silencioso do Cineclube Latino-Americano vou falar sobre a sessão de filmes mexicanos da revolução, em que o José tocou piano e o pesquisador Aurélio de los Reyes fez os comentários. Foi como uma sessão dos primeiros tempos, com comentador e música ao vivo!

translate this blog

NA MOSCA! #2 – cinema mudo latino-americano

banner na mosca borda

A dica dessa semana é a programação do Ciclo de Cinema Silencioso organizado pelo Cineclube Latino-Americano que vai rolar no contexto do 9º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, no Memorial da América Latina. O Festival começa nesta quinta (24/julho/2014) e vai até a próxima quarta (30/julho/2014).

Festival Latino

A programação do Ciclo, organizada pelo Cineclube sobre o qual já falei aqui, está maravilhosa e simplesmente imperdível. Todos os filmes terão acompanhamento musical feito ao vivo [*] e a mostra ainda conta com duas oficinas, uma sobre música para Cinema Mudo, com o pianista mexicano José María Serralde Ruiz, e outra sobre como criar um Cineclube, com um cineclubista que é referência para o movimento, Frank Ferreira. Aí vai a programação e depois o meu destaque:

24/julho, quinta
16h Oficina “Música para Cinema Mudo” com José María Serralde Ruiz
20h “El Húsar de la Muerte” (Pedro Sienna, Chile, 1925, 60′), acompanhamento musical de Allen Alencar, Daniel Brita, Ivan Gomes e Pablo Mendoza

25/julho, sexta
16h Oficina “Música para Cinema Mudo” com José María Serralde Ruiz
20h “La Virgen de la Caridad” (Ramón Peón, Cuba, 1930, 72′), acompanhamento musical de Jorge Peña

26/julho, sábado
10h Oficina “Música para Cinema Mudo” com José María Serralde Ruiz
16h Conclusão da oficina “Música para Cinema Mudo”
19h “Da ditadura de Huerta à rendição de Pancho Villa” com apresentação de Aurélio de los Reyes e acompanhamento musical de José María Serralde Ruiz <- esse é o meu destaque, veja abaixo!
21h “Yo perdí mi corazón en Lima” (Alberto Santana, Peru, 1933, 47′), acompanhamento musical da Banda Araticum

27/julho, domingo
18h Lançamento do livro “A Música no Cinema Silencioso no Brasil” de Carlos Eduardo Pereira, com a presença do autor
20h “El Automóvel Gris” (Enrique Rosas, México, 1919, 117′)

28/julho, segunda
16h Oficina “Criar um Cineclube” com Frank Ferreira
20h “La Borrachera del Tango” (Edmo Cominetti, Argentina, 1928, 80′), acompanhamento musical de Tadeu Romano e Pablo Mendoza

29/julho, terça
16h Oficina “Criar um Cineclube” com Frank Ferreira
20h “Lábios Sem Beijos” (Humberto Mauro, Brasil, 1930, 72′), acompanhamento musical de Joel Lourenço, e “Fragmentos da Vida” (José Medina, Brasil, 1929, 40′), acompanhamento musical de Carlos Eduardo Pereira

30/julho, quarta
16h Oficina “Criar um Cineclube” com Frank Ferreira
20h “Bajo el cielo Antioqueño” (Arturo Acevedo Vallarino, Colômbia, 1925, 98′), acompanhamento musical de Pablo Mendoza

[*] Com exceção de “O automóvel Cinza”, uma versão dublada feita em 1933 pelo diretor.

Toda a programação vale a pena, mas vou enfatizar a importância da exibição do dia 26, sábado, às 19h. Já falei bastante aqui no blog sobre o pesquisador mexicano Aurelio de los Reyes. Ele foi o responsável pela curadoria da programação mexicana que vimos na Giornate del Cinema Muto de Pordenone, em outubro do ano passado. Foram três programas diferentes: desde curtas feitos pelos enviados dos Lumière em 1896, passando por filmes da época de Madero (começo dos anos 1910) e chegando até as imagens da revolução armada de Zapata e Villa (com filmes de 1913-1923).

Tê-lo aqui no Brasil apresentando uma sessão é uma oportunidade única!

aureliodelosreyes_pordenone

Aurelio de los Reyes com o Prêmio Jean Mitry em Pordenone (outubro/2013)

As sessões mexicanas de Pordenone foram maravilhosas, não só pela possibilidade de ver essas imagens recém encontradas, mas também pelo precioso acompanhamento musical de José María Serralde Ruiz, um pianista apaixonado e muito competente. Foi uma das pessoas mais especiais que eu conheci no Festival. Ele levou um tipo de música que a Europa não está acostumada a ouvir… Música mexicana tradicional que era ouvida na época dos filmes…

ninaejose_pordenone

Eu e José em Pordenone em algum intervalo entre sessões! (outubro/2013)

A sessão com filmes da revolução mexicana apresentados por Aurélio de los Reyes e música ao vivo de José María Serralde Ruiz é, para mim, o destaque desse Ciclo.

Dia 26, sábado, às 19h, no Cineclube Latino-Americano!
Memorial da América Latina – Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664 –  Barra Funda, São Paulo – Página do Cineclube no Facebook

[A inscrição para a oficina de José María Serralde Ruiz deve ser feita pelo e-mail pablomendoza83@gmail.com e a inscrição para a oficina de Frank Ferreira é pelo site do Festival.]

translate this blog

NA MOSCA! #1 – lanternas mágicas

banner na mosca borda

Hoje vou começar uma nova série de posts aqui no blog. NA MOSCA! vai ser um post semanal em que eu vou dar alguma dica relacionada ao mundo do cinema silencioso e, em especial, ao primeiro cinema. Pode ser a indicação de um livro, um blog, uma sessão de cinema ou mostra, exposição, link do Youtube… Enfim, qualquer coisa que eu achar interessante o suficiente para indicar para vocês! Todos os posts da série poderão ser visualizados na tag na-mosca.

Para esse primeiro post escolhi um dos meus sites preferidos. Na verdade já comentei brevemente sobre esse site aqui no blog, mas é tão bom que eu acho que vale… É a coleção online de placas de lanterna mágica do Museo Nazionale del Cinema, que fica em Turim, no norte da Itália. Esse museu é famoso por ter uma das melhores coleções de pré-cinema do mundo! Mas quem ainda não teve a oportunidade de conhecê-lo (eu, por exemplo!), pode se deliciar explorando o seu site.

Captura de Tela 2014-07-17 às 16.47.28

Minha dica é ir em CATALOGO ONLINE DELLE COLEZIONE, na barra à esquerda. Depois clicar em Vetri per lanterna magica. E escolher a opção Ricerca per immagini fisse e animate. Claro que as placas fixas (“Immagini fisse”) são muito interessantes… Mas o mais massa mesmo é ir em “Immagini animate”, ou seja, placas de lanterna com movimento. São vários os tipos: movimento horizontal, vertical, circular etc.

lanterna_movimento_peixes

Placa de lanterna com movimento circular, do final do século XIX.

Depois de escolher o tipo de movimento (se o italiano não ajudar, não tem problema, vai clicando em qualquer opção que todas valem a pena!) é só escolher as placas para saber mais informações e ver as imagens em tamanho maior.

lanterna_movimento_orador

Placa com movimento combinado, também do final do século XIX.

A parte mais legal é que algumas têm a opção PLAY. É aí que a mágica começa! :)

Só resta clicar aqui e se divertir com essas animações do passado!

translate this blog

Diário de Karlsruhe IV – meus destaques da programação

Último post da série sobre a minha experiência como membro do Collegium do Stummfilm Festival de Karlsruhe, Alemanha, em março deste ano. Hoje vou comentar brevemente alguns dos filmes que mais me marcaram… A programação completa pode ser acessada aqui.

telakarlsruhe

A sala de projeção.

Meu primeiro destaque é a sessão de abertura do festival: foram exibidos “Au bal de flore” (Alice Guy, 1900) e “Hamlet” (Svend Gade, Heinz Schall, 1920).

O filme de Alice Guy foi o único filme do primeiro cinema da programação. Foi especialmente legal para mim, já que o tema da minha apresentação no Collegium era justamente esse período e essa realizadora. O curta é um exemplo típico do cinema de atrações: é uma cena de dança, colorida com estêncil. O filme foi programado no festival por causa do alinhamento com o tema (Cross-dressing no Cinema Silencioso). As duas personagens (uma mulher e um homem) são interpretadas por duas dançarinas. É interessante perceber como aparece uma certa insinuação homossexual no final, quando a personagem masculina beija os braços da outra moça. Está disponível no Youtube.

O filme não explica e nem justifica a escolha por duas dançarinas em nenhum momento, como passa a acontecer nos filmes posteriores (em todos os outros filmes do festival havia sempre um motivo para o travestimento – na maior parte das vezes, o disfarce da própria identidade). Isso acontece porque esse filme está muito mais ligado ao tipo de atração do vaudeville, onde essas “trocas de gênero” eram comuns. Eu achei muito importante esse filme ter sido exibido porque mostra um tipo de cinema diferente, que mesmo os frequentadores de festivais de cinema silencioso não estão tão acostumados a assistir e apreciar!

Hamlet” foi uma enorme surpresa para mim! Eu não conhecia o filme e conheço pouquíssimo sobre a atriz Asta Nielsen. Nós assistimos a uma linda restauração de 2007, que trouxe de volta as cores do filme, até então disponível somente em preto e branco. A história do filme parte de uma interpretação do Hamlet segundo a qual o príncipe da Dinamarca seria uma mulher. Ela é criada como homem para defender o trono e tem que esconder sua verdadeira identidade. Asta Nielsen é incrível. Seu corpo é extremamente versátil e seu rosto pálido faz transbordarem seus conflitos internos por ter que viver como homem.

É possível assistir ao filme no Youtube, mas já aviso que a qualidade é péssima, não é a mesma versão restaurada que vimos no festival e está sem legendas!

Festival Karlsruhe

Catálogo (aberto na página sobre “Hamlet”), pôster, cartão postal e o meu crachá.

Outro destaque que eu gostaria de comentar rapidamente é o filme “Charley’s Aunt“, com Sydney Chaplin (irmão de Charles Chaplin!). O filme é uma slapstick comedy bem convencional. Posso dizer também que é um filme conservador, no sentido de manter os gêneros intocados, apesar do cross-dressing. Mas eu queria citar porque quem se traveste é um homem que tem que se passar pela “tia Donna Lucia”, uma brasileira riquíssima. Para mim, as partes mais engraçadas foram as referências ao Brasil, sempre pintado como um país muito exótico, muito quente. E toda a caracterização da personagem brasileira faz ela parecer mais uma espanhola (ou a imagem clichê que temos da moda espanhola da época, hehe)!

Outro filme que adorei conhecer foi “Das Liebes ABC” (Magnus Stifter, 1916). De novo Asta Nielsen se traveste! Ela foi a estrela do festival, sem dúvida. Adorei a forma como o filme faz graça com os padrões “do que deve ser” um homem e uma mulher. Já falei um pouco do filme nesse post, quando comentei a apresentação da Vanessa, também selecionada para o Collegium.

Asta Nielsen - ABC

Asta Nielsen “aprendendo” o que é ser homem e o que é ser mulher em um livro em “Das Liebes ABC”.

E, por último, “Der Geiger von Florenz” (Paul Czinner, 1925), com Conrad Veidt. É a história de uma menina que, para fugir de sua madrasta e de (se me lembro bem) sua escola, foge para a Itália disfarçada de homem. O roteiro é bem maluco e inverossímil, o que faz o filme se assemelhar a uma comédia, às vezes. Mas na verdade é um drama sobre a dificuldade que essa garota tem de se encaixar em seu papel social como mulher. Foi um dos filmes mais intrigantes.

Mas o que tornou a experiência mais especial foi o acompanhamento musical de Günter Buchwald, um músico alemão especialista em música para cinema silencioso. Já tinha visto algumas apresentações dele em Pordenone, no ano passado, mas essa foi a melhor! Ele tocou piano e violino e criou um clima de delicadeza essencial para a minha compreensão do filme. Adoraria ver o filme de novo com outro acompanhamento, para ver o que mudaria… Mas também adoraria ver mais filmes acompanhados pela música dele. Como esse festival é bem menor que a Giornate de Pordenone, foi fácil conversar com ele. Uma experiência que eu nunca vou esquecer!

A música é muito importante na exibição de filmes do período “mudo”… Não podemos deixar para segundo plano a experiência desses músicos que, com suas interpretações, conseguem chamar nossa atenção para aspectos às vezes inesperados dos filmes.

Então é assim que eu termino a série de posts sobre esse festival de cinema silencioso que eu tive a alegria de poder participar! Foi incrível! Pude rever amigos, conhecer pessoas e criar novas frentes para os meus estudos sobre o cinema antigo…

karlsruhe castelo

Terminando a série de posts sobre Karlsruhe com todo o charme dessa cidadezinha!

Agradeço aos meus pais por terem tornado essa experiência possível; ao pessoal do festival, que me acolheu tão bem; e principalmente ao Caetano, pelo incentivo, pela inspiração e por estar sempre ao meu lado! <3

translate this blog

Diário de Karlsruhe III – cross-dressing no primeiro cinema (minha apresentação)

Mais um post da série sobre o Stummfilm Festival de Karlsruhe, na Alemanha, para o qual eu fui selecionada como membro do Collegium / Workshop com a pesquisadora Laura Horak. Os outros dois posts da série podem ser lidos aqui e aqui.

Como eu já disse, o tema desse ano foi Cross-dressing no Cinema Silencioso. Cada um dos 5 membros do Collegium devia fazer uma apresentação de 15 minutos sobre qualquer questão relacionada ao tema. A minha fala teve como foco o primeiro cinema.

Todas as dicussões foram em inglês. Decidi publicar minha fala na íntegra e, por isso, vou transcrever aqui em inglês mesmo. Sei que pode ser meio estranho colocar um texto em inglês aqui, mas foi assim que eu apresentei e, quando comecei a traduzir para o português ficou super estranho e ia dar um trabalho enorme! Espero que, ainda assim, possa ser proveitoso. E se alguém puder me ajudar com correções e questionamentos, seria muito bom! Eu não entendo muito desse assunto, então adoraria aprender mais!

Se alguém quiser ler em português, indico meu post “Cross-dressing no primeiro cinema: quais os efeitos?“, que é uma ampliação do texto que eu mandei para o festival quando me inscrevi para o Collegium. Não é o mesmo que a minha apresentação, mas quebra um galho!

Bom… Então lá vai. Tirei algumas partes do começo em que eu dizia quem eu sou e qual meu foco de pesquisa… Não preciso dizer isso aqui no blog, né? Fora isso não mexi em nada. Está como eu apresentei lá, no dia 6 de março de 2014.

palestra karlsruhe

Eu, durante a minha apresentação no Stummfilm Festival de Karlsruhe, Alemanha (março/2014)

Opening
I am here today to talk about some senses of cross-dressing in early cinema. I am the only collegian who is going to talk specificly about this period so I hope we can take this moment to focus on it… It is a period of experimentation and singular characteristcs.
I will start by talking about cross-dressing, then I will say some words about early cinema and then I will show and analyse a film made by french director Alice Guy in 1906.
I would like to apologize in advance for any mistakes that I shall make… I am not used to doing presentations in English like this yet. I am not a specialist in cross-dressing in film, nor in gender related issues, nor in Alice Guy’s work… What I intend to do is to bring our discussion to this early period of film history.

Introduction
Cross-dressing describes the practice of wearing clothes or accessories commonly associated with the “opposite” gender. We know many cases in History of people who disguise as other gender for many reasons. Women have dressed like men to access forbiden spheres, like the war or work places, for exemple. Men have also done this to hide their identities in cases that they had the possibility of being arrested for some crime or something… In carnival, cross-dressing once was a key element of anarchic expression. And, of course, people have done it because of their gender identity.
And as Laura Horak, specialist in gender and sexuality in media and entertainment culture, says:

Cross–gender casting has a long history in theater. Although men played women more often than the opposite, women too performed their share of male parts—from the “breeches” roles of the 16th through the 19th century, to the male impersonators of the vaudeville stage and the “principal boys” of British Christmas pantomime. [1]

Besides knowing many cases of cross-dressing in History, it’s very difficult to find transvestites, homosexuals or transsexuals in the early films. Movies portraying these kinds of characters in the beginnings of cinema, if existing, were probably exhibited marginally. Most likely, the social stigma attached to these kinds of images kept them from making the official film histories.
We know that the public sphere is historically dominated by men. And the social differences between men and women are still a current issue. But we also know that the turn of the century was a moment of huge changes in that scenario. The struggle for the feminine suffrage helped (white) women to start leaving the domestic space. They started to occupy the streets, amusement parks, departament stores and other spaces of consumption and social coexistence…
Gender theorist Judith Butler suggests that the “acts” through which gender is constructed have similarities with theatrical gestures. [2] They would then be associated to an exteriority of the body. Since the body, in early cinema, is central and the interiority of the characters is not relevant (as will be in the hegemonic cinema of the teens), it could be productive to analyze the representation of gender in this period.

Early cinema
The movie I brought to show to you today is Alice Guy’s The consequences of feminism. As I said it is from 1906 and this year is an important date for early cinema history. It was from 1906, for example, that fictional films started outnumbering actuality films.
The so-called “cinema of attractions” period ends precisely in 1906-7. Tom Gunning describes it as

a cinema that directly solicits spectator attention, inciting visual curiosity, and supplying pleasure through an exciting spectacle – a unique event, that is of interest in itself. Fictional situations tend to be restricted to gags, vaudeville numbers or recreations of shocking or curious incidents. The cinema of attractions expends little energy creating characters with psychological motivations or individual personality. [3]

So it is an exhibitionist cinema, very different from the films that follow, which are longer and focus much more on telling a story. Cinema of attractions does not disappear after 1906, but rather continues as a component of narrative films, more evident in some genres like the musical. And we can also see some elements of attractions in avant-garde cinema and even later…
From 1904, an important genre, the “chase film”, embodied the transition between attraction and narrative. This kind of films shows a character that is chased by a group of persuers from one location to the next. Each shot is held until pursued and pursuers exit the frame. The next shot begins this movement through the frame over again. So these films present a series of attractions linked by a visual and sutle narrative continuity.
But let’s go back to cross-dressing! Most of the films of this period in which we find cross-dressing are those in which a female character is interpreted by a man for comic effect (The old maid having her picture taken, Edison, 1901, for example) or for “practical” reasons: when the character appears wearing only her underwear (and it is not an erotic film) or when the role requires some physical effort (Her first ride bike, Pathé, 1907, for example). In other films, the change is subtler: not necessarily containing cross-dressing, but in which the woman has the dominating role while the man is naïve or fragile (The Landlady, Gaumont, 1900).

Alice Guy
In the work of french director Alice Guy we find a productive field for this discussion. She occupied positions commonly dominated by men: she is considered to be the first woman filmmaker, beginning making films in 1896. Later, in 1910, she founded her own company, Solax, in the United States, and then built her own studio in Fort Lee (New Jersey) in 1912.
Cross-dressing and gender issues in general appear in the films of Alice Guy in many ways. There are films which show marital equality, women using weapons normally handled by men, role reversal without cross-dressing…
At the hypnotist’s (Chez le Magnétiseur) a movie from 1898, shows a mesmerist hypnotising a woman, then using a magnetic force to remove her clothes and reveal the fact that the woman is actually a man. But this is just a simple example… Let’s watch the film I brought. As I said, it is called The consequences of feminism.

Film analysis
It takes place in the future, when women, through feminist struggle, have taken the place of men. The women carry canes, wear ties and men’s top hats, are aggressive and leave home for work. The men carry sunshades, wear flowers on their hair and take care of the children and the house. The oppression of the women over the men is such that they create a rebellion, retake the public space and celebrate, ironically, over beer.
The film is from 1906 and it has 7 minutes. [Nesse ponto eu mostrei o filme na íntegra, então aí vai!]

 

At the beginning, we see some men working at a hatmaking shop, a traditionally women’s occupation. And then we see women smoking and reading papers while men iron; women carrying guns and smoking pipes… Disputing to be with a man… It can be a little difficult for us to understand, but there is a narrative. A man is used by a woman (in the original script she is called Doña Juana). He leaves his family to be with her but she prefers to stay at the bar. By the end of the film, when they meet again after many years (so it seems) the young man begs her to return home with him. She ignores him, so he throws acid in her face. Then he and other husbands, tired of being abandoned by their wives, create the rebellion.
I think the movie is an example of the “period of narrativization”. In a way, like the “chase film”, The consequences of feminism shows a synthesis of attractions and narrative. In this case, the attractions are, I believe, the ambiguous characterization of men and women. But the most interesting part of the film, more than the clothes, is the behavior of the characters.
Unlike the “temporary transvestite film” – like “Some like it hot” (Billy Wilder, 1959) and “Victor and Victoria” (Blake Edwards, 1982), analyzed by Chris Straayer [4] -, in which there is an emphasis on biological sex differences, Alice Guy’s film shows precisely that gender differences have nothing to do with nature. When we see men doing things and acting like we are used to see women doing and acting, we start to think about gender comportment as a historical construction. And an important aspect of the film’s scenario is that it is set in the future… Like the title of it’s remake from 1912 (made by Alice Guy in Solax Studios, in the United States), the story takes place “In the year 2000”. By setting the story in the future and showing a time very different from ours (in a way), it suggests that gender comportments change over time.
In the “temporal tranvestite film” the cross-dressed character normally learns how to be “a better man” or “a better woman” by experiencing the apposite gender life. But in Alice Guy’s film there is no such thing. There is also no “unmasking” in this film. Who can learn something about gender behavior is perhaps the spectator.
In the film the interiority of the characters is not very relevant. More interesting is to see women and men in the opposite gender situations and see how they deal with it.
But I should talk more about the ending of the film, when men banish women from the café. This ending is ambiguous: does the film show the superiority of men? That men and women should remain in their socially bound spaces? Or does it show how gestures and garments construct gender identity? Aside from the comical effect, the picture also makes us think about the roles we play in a sexist society. The exchange of roles in the movie is absurd, as is the widespread idea that behaviors related to gender are the work of nature.
The ending is interesting because it brings back what is “normal” in our society, in other words, the domination of men over women. But at the same time it shows a rebellion of the opressed.
So I believe that the most important aspect of the film is the denaturalization of the opression of men over women.
We know that clothes and other objects can carry gender-specific meanings… So I would like to finish my presentation bringing an interesting question made by Alison McMahan, an specialist in Alice Guy’s work: “If the markers of our gender identity are so easily changeable, what does that say about identity itself?” [5]

[1] “Edna ‘Billy’ Foster, the Biograph Boy”, Laura Horak, p 256-261. In: “Not so silent – women in Cinema before Sound”, Sofia Bull, Astrid Söderbergh Widding (eds.).
[2] “Performative Acts and Gender Constitution: an Essay in Phenomenology and Feminist Theory”, Judith Butler.
[3] “The cinema of attractions: Early film, its spectator and the Avant-Garde”, Tom Gunning, p 58. In: “Early cinema: space, frame, narrative”, Thomas Elsaesser (ed.).
[4] “Redressing the “Natural”: the temporary transvestite film”, p. 42-78. In: “Deviant eyes, deviant bodies: sexual re-orientations in film and video”, Chris Straayer.
[5] “Alice Guy Blaché: Lost visionary of the cinema”, Alison McMahan, p 226.

***

No próximo e último post da série sobre o festival de cinema silencioso de Karlsruhe vou escrever sobre os filmes exibidos que mais chamaram a minha atenção!

translate this blog

Diário de Karlsruhe II – apresentações do Collegium

Antes tarde do que nunca! Espero conseguir postar mais no blog a partir de agora… Estou com ideias novas e, claro, muitos posts prometidos e não postados! Como é o caso deste que escrevo agora: o segundo da série de relatos sobre minha experiência como membro do Collegium no Stummfilm Festival em Karlsruhe, na Alemanha, em março deste ano!

No primeiro post da série, eu expliquei um pouco sobre como funcionava o Collegium e fiz algumas comparações com a outra experiência que eu tive na Giornate del Cinema Muto em Pordenone, Itália, em outubro de 2013.

Agora vou contar mais detalhes sobre as apresentações de cada membro do grupo. Não vou conseguir escrever muito porque já faz tempo (o festival foi em março), mas espero conseguir expor algumas das principais questões da discussão!

berghausen

Vista da janela da casa em que nós, Collegians, ficamos hospedados em Berghausen, uma cidadezinha ao lado de Karlsruhe

Como eu já disse, esse festival tem um tema por ano e nessa edição o tema era Cross-dressing no Cinema Silencioso. Éramos 5 membros no grupo do Collegium / Workshop e a professora convidada foi Laura Horak (todas essas informações estão no post anterior da série sobre esse festival!).

Federico, da Itália, falou sobre cross-dressing em comédias americanas dos anos 1910 e 1920. Ele mostrou muitas imagens de filmes de Chaplin, Buster Keaton e Laurel and Hardy. O que pudemos perceber é que, nesse tipo de comédia, com atores conhecidos do público, o cross-dressing costuma aparecer apenas como disfarce e a graça está em ver aquele ator famoso (e gordo / e excêntrico) usando roupas de mulher. Quando havia grande verossimilhança, não só para as outras personagens, mas também para o público, parece ter sido uma forma de mostrar a versatilidade dos atores. É o caso de Chaplin. Federico nos mostrou algumas cenas de “A woman“, de 1915 (acho até que já postei esse filme aqui no blog, mas vale a pena ver de novo!):

O cross-dressing aparece como disfarce da personagem, mas quase convence! É impressionante quando ele tira o bigode! Mas não podemos nos esquecer que tipo de mulher Chaplin está “imitando”: são todos os estereótipos da mulher tímida, graciosa, enfim… “feminina”.

Outra observação interessante é que Chaplin fazia os atores imitarem milimetricamente seus gestos. Primeiro ele mostrava como queria que fizessem e então eles o copiavam. As atrizes estariam, então, sempre imitando um homem imitando mulheres. Acho que pode ser um exercício legal tentar perceber quais as consequências disso para a atuação das mulheres nos filmes dele.

Maria, da Rússia, analisou um filme russo de 1913, cujo título em inglês é “The Little House in Kolomna”. O filme foi inclusive exibido no festival. Também é um caso de disfarce e o ator que pratica o cross-dressing nesse filme é Ivan Mosjoukine, o mesmo que participou do experimento de Lev Kuleshov sobre os efeitos da montagem.

Nesse caso, a personagem se disfarça de empregada doméstica para se aproximar da garota que ele ama. Ao contrário de Chaplin no exemplo anterior, o ator nunca tira o bigode, o que chama atenção para o próprio disfarce, claro. A forma de atuação e toda a forma do filme é muito mais próxima das práticas do primeiro cinema, apesar da data. Isso acontece porque o cinema silencioso russo, assim como o nosso, é “atrasado” em relação aos países centrais.

Um ponto que eu achei interessante foi o que Maria falou quando perguntaram para ela sobre exemplos de cross-dressing depois de 1917. Ela disse que na Rússia socialista não havia a diferenciação entre homens e mulheres como nos outros países, por isso o cross-dressing não fazia sentido. Ela disse que não conhece nenhum exemplo nesse período.

Vanessa, da Áustria, apresentou uma pesquisa sobre dois filmes exibidos no festival, os alemães “The ABCs of love” (1916) e “I don’t want to be a man” (1918).

AstaNielsenLiebesABC

Asta Nielsen em “Das Liebes-ABC” de Magnus Stifter (1916)

Asta Nielsen foi, para mim, a grande estrela desse festival. Sua atuação em “Das Liebes-ABC” e no filme que abriu a programação, “Hamlet” (1920) é impressionante. Seu corpo cria formas surpreendentes e ela se transforma em tudo o que uma garota burguesa não pode ser… Mas, apesar de toda a subversão presente em sua atuação, é importante chamar atenção para a relação com a sexualidade da personagem/atriz. Quando está conquistando uma mulher, no papel de homem, ela olha para a câmera e mostra para o público que é tudo encenação, afirmando sua heterossexualidade.

Ich mochte kein mann sein

Ossi Oswalda e Curt Goetz em “Ich möchte kein Mann sein” de Ernst Lubitsch (1918)

A sexualidade também é uma questão importante em “Ich möchte kein Mann sein”, como a imagem acima já sugere! A personagem principal do filme, a garota interpretada por Ossi Oswalda, não quer ser educada como uma “lady”. Se veste como homem e vai para uma festa. Depois de uma noite de paquera, ela e a personagem de Curt Goetz acabam se beijando. Mais uma vez, apesar da interessante imagem de dois gentlemen se beijando, tudo é justificado por estarem os dois bêbados.

É interessante notar como nos dois filmes as atrizes não estão apenas se passando por homens, mas se passando pelo que seria o “homem ideal” da época. Rico, galanteador, fumante… O ato de fumar foi também bastante discutido por nós. Era uma prática proibida para as mulheres e é esse tipo de atitude que os dois filmes exploram.

Christina, da Alemanha, comentou um filme sueco que vimos em Pordenone no ano passado, “The girl in tails” (1926). É o único filme (além do que eu analisei) dirigido por uma mulher, a sueca Karin Swanström.

girl in tails

Magda Holm em “The girl in tails” (1926)

Nesse caso, a personagem feminina usa um smoking para poder ir a um baile, pois seu pai não comprou um vestido que ela pudesse usar na ocasião. Vestida como um homem, ela aproveita para fazer tudo aquilo que não podia fazer como mulher: beber, fumar charutos etc. É interessante ver como ela faz isso sem medo do que os outros vão pensar dela, não se importando com a opinião de seu namorado, por exemplo. O filme usa alguns elementos de slapstick comedy e talvez seja o mais ousado de todos os filmes discutidos pelo Collegium. A personagem não se disfarça, ela não quer enganar ninguém, como nos outros casos…

E por último, a minha apresentação. Eu falei sobre o cross-dressing no primeiro cinema e analisei o filme “The consequences of feminism” (1906) de Alice Guy. Eu deixei pro final aqui no blog, mas na verdade fui a primeira a me apresentar, porque o filme que eu escolhi é o mais antigo.

No próximo post dessa série vou publicar a minha fala na íntegra!

E talvez ainda poste alguma coisa sobre outros filmes exibidos no festival…

translate this blog

Diário de Karlsruhe I – introdução

Hoje vou contar um pouco sobre como foi a minha experiência como membro do Collegium do Stummfilm Festival de Karlsruhe, no mês passado.

Mapa Karlsruhe

Mapa da cidade.

Karlsruhe é uma pequena cidade localizada no estado de Baden-Württemberg, na Alemanha. O festival já tem 12 anos, mas foi só agora que eles criaram esse programa para jovens estudantes.

Como eu já comentei bastante aqui no blog, no ano passado fui selecionada também para participar do Collegium da Giornate del Cinema Muto, em Pordenone, na Itália. As experiências foram bastante diferentes porque os festivais e os Collegiums têm propostas e dimensões diferentes. O programa italiano já têm uma certa tradição (ano passado foi a 32a edição do Festival e 15a edição do Collegium), enquanto o alemão está apenas começando. Em Pordenone, éramos 12 jovens (mais os chamados “mentors”, que são os Collegians do ano anterior que podem retornar), já em Karlsruhe, éramos apenas 5. A Giornate é um evento gigantesco, onde você pode encontrar todos os figurões do mundo do cinema silencioso, enquanto o Stummfilm-Festival é bem menor e está recebendo convidados internacionais apenas agora.

Tudo isso fez as minhas duas experiências serem bem diversas. A Giornate é uma loucura, você conhece muita gente nova por dia, vê muitas coisas diferentes, é uma avalanche de informações… Mas em Karlsruhe, justamente por ser um festival bem menor, você tem a chance de conhecer as pessoas com mais calma, de conversar de fato com cada um… Mas a principal diferença está na proposta do próprio programa ou, como eles chamavam em Karlsruhe, o Workshop.

Em Pordenone, os jovens selecionados devem participar das sessões diárias do Collegium, que são palestras/debates com pessoas que trabalham em diferentes áreas, como restauração, arquivos, pesquisa… Eu sei que ainda estou “devendo” escrever por aqui mais detalhes de pelo menos algumas dessas sessões, mas já adianto que nem todas são muito interessantes e que a ideia de que os jovens participem ativamente das discussões não é levada a cabo porque todo o clima das sessões é muito formal, com o uso de microfones e uma certa distância… Depois do término da maratona que é a semana do festival (as projeções começam às 9 horas da manhã e terminam depois da meia-noite!), cada um de nós deve escolher um aspecto da programação e escrever um artigo (não-acadêmico, eles fazem questão de enfatizar) que é publicado depois. (Quando eu fizer um post melhor só sobre esse assunto, eu atualizo aqui com o link.)

Já em Karlsruhe, os jovens são convidados a fazer uma fala sobre o tema do festival. A cada ano eles escolhem um tema para guiar a curadoria dos filmes (sempre filmes mudos) e o tema deste ano foi “cross-dressing”. A inscrição para participar do programa era justamente uma proposta de fala ligada ao tema. Este post que eu escrevi sobre cross-dressing no primeiro cinema foi justamente baseado na proposta que eu mandei para me inscrever. Além disso, o Workshop contou com a presença de uma professora convidada, Laura Horak. Ela é pesquisadora da Universidade de Estocolmo e é especialista em gênero e sexualidade no cinema silencioso.

karlsruhe poster

Divulgação do festival na cidade.

E essa proposta faz toda a diferença! É uma forma muito interessante de dar a voz aos estudantes. E é também muito produtivo porque determina um foco de discussão para todo o período do festival (que são, infelizmente, apenas 4 dias!). Foi muito curioso assistir a tantos filmes que tratam de uma mesma questão de modos tão diferentes. E a Laura é daquelas professoras que sabem conduzir uma discussão. Então os Collegians e o público interagiram verdadeiramente construindo conhecimentos sobre o tema, mesmo que a maioria de nós não fosse especialista no assunto. Eu aprendi muito!

karlsruhe collegium

Os Collegians!

Então estes éramos nós! Federico, da Itália (o único garoto da foto), falou sobre cross-dressing em comédias americanas dos anos 1910 e 1920; Maria, da Rússia (atrás), analisou um filme russo de 1913, cujo título em inglês é “The Little House in Kolomna”; Vanessa, da Áustria (essa que segura o cartaz), apresentou uma pesquisa sobre dois filmes exibidos no festival, os alemães “The ABCs of love” (1916) e “I don’t want to be a man” (1918); eu, do Brasil (hehe), falei um pouco sobre o cross-dressing no primeiro cinema e analisei o filme “The consequences of feminism” (1906) de Alice Guy; Christina, da Alemanha (de camisa jeans), comentou um filme sueco que vimos em Pordenone no ano passado, “The girl in tails” (1926).

Vou fazer ainda mais dois post sobre esse festival, comentando com mais detalhes as apresentações de cada um e comentando os filmes exibidos. E pretendo também postar pelo menos uma parte da minha fala, claro. Mas por hoje é só!

translate this blog

Cineclube Latino-Americano

Faz mais ou menos um mês que eu conheci o Cineclube Latino-Americano, parceiro do Memorial da América Latina. O projeto já tem quase um ano e agora está ganhando novo fôlego com uma grande leva de novos participantes.

Fiquei muito feliz por poder reencontrar lá o querido Felipe Macedo, pesquisador e respeitado cineclubista (há mais de 40 anos!). Foi ele que ajudou um grupo de jovens cheios de dúvidas (eu entre eles!) a fundar, em 2006, o agora já extinto Cineclube Equipe. Foi com ele que eu aprendi o que é um Cineclube, que é um espaço de organização do público. Pra mim, o cineclubismo é uma forma de construir coletivamente momentos de encontro para ver e pensar o cinema. Foi nesse contexto que eu comecei minha formação e tenho imenso carinho por esse tipo de iniciativa.

IMG_20140324_203205

Entrada do Cineclube Latino-Americano

Essa semana o Cineclube Latino-Americano começa o ano com muitas atividades. Teremos sessões 5 dias por semana, uma loucura! :) Às quartas e sábados serão exibidos os ciclos periódicos sobre cinema latino-americano (vamos começar com o tema “Cinema e Ditadura: 50 anos do Golpe“). Às quintas, a programação fica a cargo do Grupo de Estudos de Cinema Latino-Americano da Unifesp, que vai mostrar filmes e realizar debates sobre as pesquisas de seus membros.

Às sextas, a parte que mais me interessa: Sessão Cinema Mudo! Nem acredito que teremos, em São Paulo, uma sessão semanal de cinema mudo e que eu tenho a oportunidade de participar da elaboração da programação! A primeira sessão, esta sexta, dia 28 de março de 2014, às 20h, será em homenagem ao centenário da estreia de Charles Chaplin no cinema e da criação da personagem do Vagabundo. Aí vai a programação:

Carlitos repórter” (Making a living, 1914, 13 min)
É a estreia de Charles Chaplin no cinema, mas a personagem ainda não é o Vagabundo.
Corridas de automóveis para meninos” (Kid Auto Races at Venice, Cal., 1914, 11 min)
Foi o primeiro filme lançado com a personagem do Vagabundo, mas foi o segundo a ser filmado. Ou seja, foi a primeira vez que o público viu a personagem!
Carlitos no hotel” (Mabel’s strange predicament, 1914, 17 min)
Foi o segundo filme com o Vagabundo visto pelo público. Mas é o filme em que Chaplin fez a personagem pela primeira vez.
Carlitos e o relógio” (Twenty minutes of love, 1914, 11 min)
Um dos primeiros filmes dirigidos por Chaplin. 
Pintor apaixonado” (The face on the barroom floor, 1914, 12 min)
Mais um escrito e dirigido pelo Chaplin. Um dos mais legais dessa época, na minha opinião!
..
A sessão será musicada ao vivo pelo músico Pablo Mendoza, membro do Cineclube!
..
E pra fechar a semana, aos domingos, às 11h, Sessão Cineclubinho! Nesse começo vamos apresentar o surgimento do cinema. A primeira sessão (dia 6 de abril) será composta só de filmes do primeiro cinema e terá o formato de uma apresentação de vaudeville, com atrações como um mágico, pintura de flip-book, teatro de sombras…
IMG_20140324_203028

Sala do Cineclube Latino-Americano

E para comemorar todas essas mudanças e multiplicação de atividades, claro, uma festa! Neste sábado, dia 29, no novo espaço de convivência do Cineclube, que fica no Memorial da América Latina (Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, do lado do Metrô Barra Funda), na ponta do Pavilhão da Criatividade, aquele prédio comprido. Drinks latinos e música ao vivo!
festa
Para ver o evento no Facebook é só clicar aqui. No site do Memorial dá pra ver a programação completa. (A programação no site do Memorial está com alguns erros! A festa será mesmo neste sábado dia 29 e o Cineclubinho começa mesmo dia 6 de abril, como eu disse aqui!)
..
Espero depois conseguir postar mais sobre as atividades do Cineclube, principalmente sobre as sessões de Cinema Mudo! Estou animadíssima para participar de um projeto tão massa e importante! Convido a todos os poucos e fiéis leitores deste humilde blog a comparecer nas sessões e na festa! :)

translate this blog

10 filmes silenciosos incrivelmente coloridos!

Participei do blog Silent London com um guest post na seção “Silents by Numbers“, onde entusiastas do cinema silencioso contribuem com listas temáticas. Minha proposta foi listar 10 filmes silenciosos coloridos. Para ver o post é só clicar aqui.

Aí vai uma versão estendida (e em português, claro!):

A maior parte dos filmes lançados desde o surgimento do cinema até a metade da década de 1910 era colorida de alguma forma. Se você está achando essa informação estranha, não se assuste: isso tem justificativas. Como um grande número de filmes a partir de 1920 era de fato lançado em preto e branco, uma visão evolucionista da história criou a ideia de que todo o cinema antigo era assim; até os anos 1990, o custo de preservação de filmes coloridos era tão alto, que os arquivos fílmicos optavam por conservar e restaurar versões em p/b; e, por último, o motivo mais triste: muitos arquivos e o próprio público acreditavam que as técnicas antigas de colorização (assim como os próprios filmes) não eram sofisticadas o suficiente para justificar o esforço de recuperação e exibição.

Duas foram as principais tendências nas pesquisas do cinema colorido: a colorização posterior às filmagens e a captação das “cores naturais” durante as filmagens.

As cores “não-naturais” foram criadas de diferentes formas:

Captura de Tela 2014-01-21 às 16.44.24

Placa de lanterna mágica do final do século XIX

– Aplicação manual quadro a quadro (com minúsculos pincéis e lentes de aumento ou com estênceis), herança dos métodos usados nas placas de lanterna mágica. Era um método caro e demorado. Cada cópia do filme tinha que ser pintada por um grupo de trabalhadores (normalmente mulheres) e cada um era responsável por aplicar apenas uma cor na cópia toda. Esses processos tendiam a realçar os aspectos abstratos dos filmes, criando atmosferas fantásticas e bidimensionais.

Captura de Tela 2014-01-21 às 17.12.49

Sala de máquinas de colorização com estênceis da Pathé

– Aplicação de uma só cor para o quadro todo (com grandes pincéis ou mergulhando a película em banhos de tinta). O tingimento é quando a superfície inteira do filme (as partes escuras e as partes claras da imagem) são coloridas. A viragem é quando só as partes escuras da imagem são coloridas (e as partes claras continuam brancas). Esses processos foram usados de diferentes formas e não havia um código preestabelecido para o significado das cores. Às vezes tinham sentidos mais realistas, como o vermelho para uma cena de incêndio, por exemplo, ou azul para cenas noturnas. Mas em outros casos não é tão simples identificar as motivações para determinadas cores usadas.

nosferatu4

Tingimento de “Nosferatu” (F. W. Murnau, 1922)

A busca por “cores naturais” também começou cedo, ao contrário do que muitos pensam. Foram muitas as tentativas de criar câmeras, películas e projetores que reproduzissem o mundo em cores. Desde o comecinho do século experiências como as de Friese-Greene (sobre quem falei aqui), Edward Turner, e os processos Kinemacolor, Prizma, Technicolor e muitos outros (mas muitos mesmo!) tiveram maior ou menor sucesso na tentativa de produzir imagens coloridas comercialmente.

Para saber mais sobre isso, recomendo o capítulo “The way of all fresh tones” do livro de Paolo Cherchi Usai “Silent cinema, an introduction” e o site Timeline of Historical Film Colors, da pesquisadora Barbara Flueck-Iger.
Então aí vai minha lista. Não é um “top 10”, não é o que eu considero “os melhores filmes coloridos do mundo”. É só uma seleção de 10 filmes que ilustram um pouco essa variedade de maneiras encontradas para produzir filmes coloridos na era silenciosa. São filmes que ajudam a gente a ver o cinema antigo com novos olhos!
.
.
Annabelle Serpentine Dance (Edison, 1895)
O primeiro de muitos filmes dedicados ao gênero da “dança serpentina”, criada pela bailarina americana Loïe Fuller em 1889. A pintura feita à mão, quadro a quadro, remete ao espetáculo de Fuller, que combinava o constante movimento de seu vestido com a projeção de luzes elétricas de diversas cores.
.
Pierrette’s Escapades (Alice Guy-Blaché, 1900)
Um exemplo da pintura feita à mão da Gaumont.
.
Experimentos sem título (Edward Turner, 1901/02)
Esses filmes, recentemente descobertos, que são na verdade testes de uma nova invenção, mostram como começou cedo a busca pela reprodução das “cores naturais” no cinema.
.
Viagem à lua (Georges Méliès, 1902)
A versão em cores do filme era desconhecida até 1993, quando foi encontrada em Barcelona em péssimas condições. Só em 2010 a restauração pôde ser lançada e transformou a imagem que temos deste que é o mais icônico de todos os filmes silenciosos!
.
The Lonedale Operator (D. W. Griffith, 1911)
Aqui está um uso interessante da cor no cinema silencioso. A cor tem um papel narrativo na cena final. A mocinha só consegue enganar os bandidos (fazendo-os acreditar que ela tem uma arma, quando na verdade é uma chave inglesa) porque a cena se passa no escuro. E o que sugere isso é o tingimento azul.
.
A day with John Burroughs (1919)
Assisti a esse filme em Pordenone, no ano passado. Fiquei encantada com as lições de vida desse velhinho. As cores, do sistema Prizma Color, criam uma atmosfera muito delicada.
.
O Gabinete do Doutor Caligari (Robert Wiene, 1919)
Todos conhecem esse! Mas agora em fevereiro será lançada no Festival de Berlim uma versão restaurada baseada no tingimento e viragem originais.
.
Virginian Types: Blue Ridge Mountaineers (1926)
Um exemplo incrível, descoberto há pouco tempo, de Pathécolor. Aqui podemos ver um uso mais recente desse processo que a Pathé criou em 1905. Era uma forma de colorir o filme com estênceis, automatizando a demorada pintura à mão.
.
Lonesome (Paul Fejos, 1928) 
Filme híbrido em vários sentidos: é um filme mudo, um filme sonoro, em preto e branco e colorido! As cenas em cores são muito interessantes! (o vídeo é um trailer feito pela Criterion Collection que mostra 3 motivos para assistir ao filme)
.

The Love Charm (Howard Mitchell, 1928)
E este é um exemplo pouco conhecido do processo de duas cores da Technicolor. É uma história de amor bem esquisita e com cores maravilhosas!
.
***
Por favor, se acham que está faltando algum filme ou se discordam totalmente da minha lista, digam como seriam as suas! :)
.
– a maior parte das informações deste post retirei do livro de Paolo Cherchi Usai “Silent Cinema, an introduction”
– agradeço aos amigos sempre presentes pela ajuda com o post e a versão em inglês: Cae e Ariel 

translate this blog

cross-dressing no primeiro cinema – quais os efeitos?

Hoje vou escrever sobre um tema que eu não conheço muito bem… Se alguém puder apontar erros ou sugerir outras fontes de pesquisa, agradeço muito!

arlequim

“Arlequim sentado”, Pablo Picasso, 1901

Há vários casos na História de pessoas que se passam por membros do gênero oposto por diversos motivos. Mulheres que se passaram por homens para poder acessar esferas proibidas para elas, como a guerra e o trabalho fora de casa, e homens que se disfarçaram de mulher para esconder sua identidade, fugir de perseguições etc. No carnaval, por exemplo, o cross-dressing já foi um elemento chave de expressão anárquica (hoje acredito que não mais, passando a ser apenas mais uma forma de reforçar estereótipos).

Aqui no Brasil o cross-dressing vem sendo bastante discutido nos últimos anos. A cartunista Laerte, por exemplo, expõe a questão em sua obra (e em seu próprio corpo):

Captura de Tela 2014-01-17 às 11.13.13

Tirinha de Larte retirada de http://murieltotal.zip.net

Sabemos que essa prática era comum no teatro e no vaudeville. E nos primeiros anos do cinema? O cross-dressing tinha espaço? E com que efeitos? Só aparecia em comédias?

É muito difícil encontrar filmes dos primeiros tempos que mostrem travestis, homossexuais, cross-dressers etc. Se existiram filmes que representavam essas personagens na primeira década do cinema, eles deviam ser produzidos e exibidos em espaços marginais. Provavelmente, o estigma social ligado a esse tipo de imagem impediu que os filmes sobrevivessem e entrassem para as histórias oficiais.

Captura de Tela 2014-01-20 às 12.16.47

Homens travestidos na virada do século (National Archives of Estonia)

A esfera pública é historicamente dominada pelos homens e as diferenças sociais entre homens e mulheres é um problema atual. Mas sabemos que a virada do século foi um momento de grandes mudanças nesse cenário. Nos Estados Unidos, por exemplo, estavam em curso as lutas pelo voto feminino. No mundo todo, as mulheres estavam saindo do espaço doméstico e ocupando as ruas através de parques de diversões, lojas de departamento e outros espaços de consumo e convivência social.

SelfridgesRooftop

A loja de departamento Selfriges na Inglaterra no começo do século

Se os atos através dos quais o gênero é construído têm similaridades com os atos performáticos do teatro, como sugere Judith Butler, então estão ligados a uma exterioridade do corpo. Como, no primeiro cinema, o corpo é central e a interioridade das personagens não é relevante (como passará a ser no cinema hegemônico a partir dos anos 1910), pode ser interessante analisar a representação dos gêneros nesse período inicial do cinema.

chaplin a woman

Charlie Chaplin em “A woman” (1915), o terceiro e último filme em que ele aparece vestido como mulher

A maior parte dos filmes do período em que encontramos travestimentos, são aqueles em que uma personagem feminina é interpretada por um homem por motivos “práticos”: quando a personagem aparece usando apenas suas roupas de baixo (e não é um filme erótico/adulto) ou quando exige um grande esforço físico. Há outros filmes em que a troca é mais sutil: não há travestimento, mas a mulher tem o papel de dominadora da situação, enquanto o homem é ingênuo e frágil.

Chaplin como uma sufragista no primeiro ano de sua carreira (A busy day, 1914)

Uma mulher interpretada por um homem que depois troca de roupas com outro homem! (At the hypnotist, Alice Guy-Blaché, 1898)

Nesse, os papeis normalmente assumidos por homens e mulheres estão de certa forma invertidos… A mulher bebe, fuma, rouba. E ainda tem uma piada final sobre a maternidade. (Madam’s Fancies, Alice Guy-Blaché, 1907)

Um exemplo interessante que mescla as duas coisas (troca de vestimentas e troca de papeis) aparece no filme “The consequences of feminism” (Les résultats du féminisme, Gaumont, 1906), de Alice Guy-Blaché. No trabalho dessa pioneira, ela mesma uma mulher que ocupou posições comumente dominadas pelos homens (foi diretora de cinema e montou seu próprio estúdio), encontramos um campo produtivo para essa discussão.

O filme se passa em um futuro em que as mulheres, através da luta feminista, teriam tomado o lugar dos homens. Elas carregam bengalas e armas e usam gravatas e chapéus masculinos. Eles carregam sombrinhas e usam flores no cabelo. Elas são agressivas, eles cuidam das crianças; elas saem para trabalhar, eles passam as roupas em casa. A opressão das mulheres sobre os homens é tanta, que eles criam uma rebelião e tomam de volta seus lugares, expulsam-nas do espaço público e brindam, ironicamente, com cerveja.

A ambiguidade final é a parte mais interessante: o filme mostra a superioridade dos homens? Mostra que homens e mulheres devem permanecer em seus espaços socialmente delimitados? Ou mostra como a performance corporal e a vestimenta constroi a identidade de gênero?

É um filme de efeito cômico irônico, porque faz pensar sobre os papeis que homens e mulheres ocupam em uma sociedade machista. A troca de papeis é absurda no filme, assim como é absurda a ideia de que os comportamentos ligados aos gêneros feminino e masculino sejam naturais ou simplesmente determinados por aspectos biológicos.

***

Cross-dressing no cinema silencioso é o tema do ano no festival de Karlsruhe (uma cidadezinha no sudoeste da Alemanha).

Captura de Tela 2014-01-17 às 11.45.00

O festival acontecerá no começo de março. A programação não tem filmes muito antigos. Acho que nenhum é do primeiro cinema! Por isso pensei que seria interessante pesquisar esse tema no cinema das origens.

translate this blog

exposição “passagens por paris” no masp

Ainda faltam muitos posts sobre a Giornate del Cinema Muto do ano passado! Mas hoje vou escrever um postinho só para chamar atenção para uma obra exposta no MASP…

A exposição “Passagens por Paris – arte moderna na capital do século XIX” reúne obras do acervo do MASP de autores como Manet, Degas, Gauguin, Van Gogh, Renoir, Picasso e outros do período que vai de 1866 até 1948. Os curadores Teixeira Coelho e Denis Molino buscaram inspiração no ensaio “Paris, capital do século XIX” do crítico alemão Walter Benjamin (1892-1940), em que ele se refere às passagens, galerias comerciais de mercadorias de luxo que começaram a aparecer em Paris a partir da virada do século XVIII para o XIX.

O texto trata de diversos temas caros ao estudo das origens do cinema, como os panoramas, as exposições universais e o surgimento da fotografia.

A exposição em si é apenas um olhar para o acervo do MASP, coisa que estamos acostumados a ver. Mas uma obra me chamou atenção. Acho que eu nunca tinha reparado. É “A dançarina Loïe Fuller vista dos bastidores – A roda”:

Captura de Tela 2014-01-13 às 16.51.27

“A dançarina Loïe Fuller vista dos bastidores – A roda”, Henri de Toulouse-Lautrec, 1893

Achei o quadro muito interessante. Tem um grande contraste entre as cores claras usadas para retratar a dançarina e as cores escuras que prevalecem na plateia. Parece que ela irradia luz! Interessante também o ponto de vista, que mostra que Toulouse-Lautrec tinha acesso aos bastidores do espetáculo. As pinceladas rápidas, que apontam para todas as direções também chamam a atenção para o principal aspecto dos números de Loïe Fuller, o movimento.

A dança foi um tema muito importante para os primeiros filmes. São inúmeros os curtas que mostram danças populares, típicas ou consideradas exóticas. Mas nenhuma foi tão popular quanto a dança serpentina, inventada por Fuller em 1889. O número consistia na manipulação de porções gigantescas de tecido, que faziam parte de seu vestido. Luzes elétricas de diferentes cores eram projetadas sobre os panos, em constante movimento. Era como se sua roupa fosse uma tela.

Loie_FullerEm 1892 a americana foi para Paris e se apresentou no Folies-Bergère, onde foi aclamada por artistas, principalmente aqueles ligados ao simbolismo. Seu número foi admirado pela união entre arte e técnica e pela exploração do som e do ritmo. Era um espetáculo que trabalhava mais com a sugestão do que com a descrição. Ela era, no palco, uma imagem em movimento.

Por tudo isso, sua arte está ligada ao surgimento do cinema. E não é à toa que muitos dos primeiros realizadores capturaram essa imagem em seus filmes. Não encontrei referência precisa sobre filmes com ela mesma, mas muitas outras dançarinas a imitaram e muitos foram os filmes em que essa dança serpentina apareceu. Encontrei uma compilação interessante no Youtube que mostra diferentes cenas de diversos filmes que mostram o número, interpretado por muitas mulheres diferentes:

A tradução para o cinema de sua complexa iluminação foi feita com pintura à mão, uma técnica de produção de filmes coloridos muito popular no primeiro cinema.

loie fuller toulouse

“Loïe Fuller aux Folies Bergères”, Henri de Toulouse-Lautrec, 1892

03_loie_fuller-theredlist

“Loïe Fuller aux Folies Bergères”, Henri de Toulouse-Lautrec, 1892

Toulouse-Lautrec fez outros quadros sobre ela, como dá pra ver aí em cima. Mas não foi só ele que retratou a dançarina e suas formas esvoaçantes. Ela foi ligada à Art Nouveau, o estilo que esteve em voga na virada do século. Essas formas fluidas, que remetiam à natureza, eram caras aos artistas dessa corrente. Loïe Fuller serviu de inspiração para diversas obras… Essa luminária de bronze foi inspirada nela:

loie fuller lamp

François Raoul Larche, 1901

Vale a pena ir ao MASP para ver o quadro de Toulouse-Lautrec e se lembrar dessa mulher que foi tão importante para a dança, a arte moderna e o cinema. Ela era a técnica por trás de todo seu trabalho: criou a coreografia, a complexa iluminação etc. Mais uma mulher muitas vezes esquecida nas histórias do cinema…

E o próximo post será sobre outra pioneira: Alice Guy-Blaché!

(Mãe! Obrigada pela companhia na visita ao Masp!)

translate this blog