NA MOSCA! #10 – “A contadora de filmes”

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A indicação desta semana é o pequeno livro “A contadora de filmes” (2009) do escritor chileno Hernán Rivera Letelier, lançado no Brasil pela editora Cosac Naify.

O livro trata de um povoado de mineiros no deserto chileno do Atacama pelo olhar da menina Maria Margarida, eleita a melhor contadora de filmes de sua família. Sempre que podiam pagar, ela ia sozinha para o cinema da cidade e, quando voltava, encontrava seu pai e seus irmãos todos arrumados, prontos para assisti-la. Suas interpretações, que incluíam todas as cenas, diálogos e detalhes dos filmes, ficam famosas na vila e uma multidão passa a se reunir para vê-la.

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“A contadora de filmes”

Tudo isso é narrado pela própria menina, que se dirige ao leitor como se falasse para um público, do mesmo jeito que narrava os filmes.

É um texto simples, mas muito instigante. Quando li esse trecho, reproduzido na quarta capa, não pude resistir a comprar o livro:

Certa vez li por aí, ou vi num filme, que quando os judeus eram levados pelos alemães naqueles vagões fechados, de transportar gado – com apenas uma ranhura na parte alta para que entrasse um pouco de ar -, enquanto iam atravessando campos com cheiro de capim úmido, escolhiam o melhor narrador entre eles e, subindo-o em seus ombros, o elevavam até a ranhura para que fosse descrevendo a paisagem e contando o que via conforme o trem avançava.
Eu agora estou convencida de que entre eles deve ter havido muitos que preferiam imaginar as maravilhas contadas pelo companheiro a ter o privilégio de olhar pela ranhura.

É um livro essencialmente sobre cinefilia, mas é também o relato de diversas formas de violência, que a garota sofre por ser mulher e por ser pobre. Há poucas referências ao cinema mudo, mas ainda assim achei que seria bacana indicar aqui no blog. Através do relato de uma contadora de histórias em um povoado isolado, o livro nos faz lembrar da importância da experiência coletiva do cinema.

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A Lorota aprova!

Todas as dicas da semana podem ser vistas na série na mosca.

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Diário da Giornate 2014 #4 – as cores de Georges Méliès

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No Diário da Giornate 2014 de hoje vou falar sobre Georges Méliès! Como eu já disse, a Giornate del Cinema Muto desse ano vai exibir uma seleção de seus filmes coloridos com a técnica do estêncil. Mas como no site do festival não há nenhuma informação precisa sobre as sessões, ou seja, ainda não sabemos quais títulos serão exibidos, pensei em focar mais nessa técnica de colorização de filmes.

Eu adoro esse tema porque as pessoas não costumam saber que a maior parte dos filmes lançados desde o surgimento do cinema até a metade da década de 1910 era colorida de alguma forma. Muita gente acha que filme antigo é sempre sem som e em preto e branco. Mas muitos experimentos da época (no caso do som, por exemplo) e até mesmo práticas difundidas (como as técnicas de colorização) nos mostram que o cinema “silencioso” é, ao contrário do que muitos pensam, um campo cheio de tendências diferentes…

Uma delas é a aplicação manual de cores quadro a quadro, herança dos métodos usados nas placas de lanterna mágica. A técnica do estêncil, assim como a pintura à mão feita com pequenos pincéis, eram métodos caros e demorados porque cada cópia do filme tinha que ser pintada por um grupo de trabalhadores, normalmente mulheres, e cada uma era responsável por aplicar apenas uma cor na cópia toda. Esses processos tendiam a realçar os aspectos abstratos dos filmes, criando atmosferas fantásticas e bidimensionais.

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As trabalhadoras na oficina da Pathé.

No site (super recomendado!) Timeline of Historical Film Colors, da pesquisadora Barbara Flueckiger, tem uma boa explicação (sobre os métodos de estêncil usados pela Pathé):

A colorização com estênceis exigia o corte manual, quadro a quadro, das áreas que seriam tingidas. Essas cópias recortadas serviam como moldes e era preciso fazer um para cada cor para só depois usá-las para pintar a película. Normalmente eram usadas de 3 a 6 cores por filme.
Quando foi introduzida uma máquina de corte a técnica melhorou muito, pois a cortadora podia seguir os contornos das áreas selecionadas em uma ampliação projetada em vidro. Com um pantógrafo era possível, então, reduzir a ampliação de volta para o tamanho do frame. A máquina fazia o corte no molde com uma agulha.
Muitas centenas de mulheres trabalhavam nessa tarefa de precisão na oficina da Pathé que ficava em Vincennes. Técnicas similares foram usadas por Gaumont, Oskar Meßter e o Cinemacoloris, processo inventado por Segundo de Chomón.
Os filmes coloridos com estênceis podem ser identificados pelos nítidos contornos que definem as áreas coloridas. As tonalidades usadas eram, na maior parte das vezes, suaves tons pastel.

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Méliès fez filmes de muitos gêneros diferentes, mas a maior parte de sua produção era do tipo de filme pelo qual ele é mais conhecido: os filmes de trucagens e féeries (que eram contos de fadas / contos fantásticos). Grande parte deles era distribuída em versões coloridas, desde 1897, e ele usou tanto a pintura à mão quanto a técnica do estêncil, que surgiu por volta de 1904.

Eu não sei quais filmes dele foram coloridos com estêncil e por isso estou muito curiosa para saber quais são os títulos e assistir a esse programa na Giornate. Todos os filmes dele que eu conheço têm aquela linda instabilidade da pintura à mão…

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“Viagem à lua” (Georges Méliès, 1902)

A relação entre cor e histórias fantásticas é muito mais antiga que a virada do século, claro, e esteve presente também nos livros infantis ilustrados, no teatro de mágicas, na fotografia, cartões postais etc. Em vez de criar imagens mais realistas, como tanto ouvimos por aí, o uso das cores nesses casos enfatizou muitas vezes os aspectos abstratos ou de espetáculo da imagem.

Méliès dedicou inúmeros esforços para a colorização de seus filmes. Na verdade, tudo era pensado nesse sentido: o cenário, a maquiagem, os objetos utilizados. Tudo precisava ser pintado em tons de cinza porque algumas cores, como o vermelho, por exemplo, apareciam no resultado final como blocos pretos, sem nenhuma transparência, o que impossibilitava a pintura daquela porção da película.

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“Viagem à lua” (Georges Méliès, 1902)

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“Viagem à lua” (Georges Méliès, 1902)

cinema silencioso colorido será um dos grandes temas dessa edição do festival, que terá, além dos filmes de Méliès, várias sessões dedicadas ao sistema Technicolor, que surgiu nos anos 1910 e se popularizou na década seguinte.

Eu já escrevi sobre esse assunto: fiz uma seleção de 10 filmes silenciosos coloridos que valem a pena ser vistos. Saiu no Silent London em inglês e aqui no blog postei uma versão estendida e em português. Quando eu voltar de Pordenone postarei mais sobre esse assunto, com certeza…

As imagens do filme “Viagem à lua” deste post foram retiradas do catálogo sobre a restauração do filme, lançado por Groupama Gan Foundation for Cinema e Technicolor Foundation for Cinema Heritage.
Para ver todos os posts que eu fiz sobre a Giornate 2013, é só acessar a série Diário da Giornate. Os posts sobre a Giornate 2014 estarão organizados na série Diário da Giornate 2014.

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NA MOSCA #9 – a lanterna mágica de “No caminho de Swann” (Marcel Proust, 1913)

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A dica dessa semana é o acervo de lanternas mágicas da Cinemateca Francesa, que possui cerca de 17 mil peças de diversos países e inúmeros temas. Parte desse repertório está disponibilizada em um site, que está dividido em quatro coleções:

Life Models – placas feitas a partir de fotografias e pintadas à mão, que surgiram em 1870 na Inglaterra;
Royal Polytechnique – uma instituição londrina do século XIX conhecida pela inigualável qualidade de suas placas feitas à mão;
Lapierre – placas de Auguste Lapierre, que fizeram muito sucesso na França do século XIX;
Plaques animées – que são placas de movimento mecânico dos séculos XVIII e XIX.

Toda a coleção vale a pena ser explorada, é claro, mas a minha dica está na seção Lapierre: são as placas descritas por Marcel Proust no primeiro volume de “Em busca do tempo perdido“, No caminho de Swann (1913). Alguns poderão se lembrar que logo no começo do livro encontramos a descrição de uma projeção de lanterna mágica dentro do quarto do protagonista. Aí vai um trecho da cena:

Todos os dias em Combray, desde o final da tarde, muito antes do momento em que deveria ir para a cama e ficar, sem dormir, longe de minha mãe e de minha avó, o quarto de dormir tornava-se o ponto fixo e doloroso de minhas preocupações. Bem se haviam lembrado, para distrair-me nas noites em que me achavam com um ar muito melancólico, de presentear-me com uma lanterna mágica, com a qual cobriam minha lâmpada, enquanto não chegava a hora de jantar; a lanterna, à maneira dos primeiros arquitetos e mestres vidraceiros da idade gótica, sobrepunha, à opacidade das paredes, impalpáveis criações, sobrenaturais aparições multicores, onde se pintavam legendas como em um vitral vacilante e efêmero. Mas com isso ainda mais crescia minha tristeza, pois a simples mudança de iluminação destruía o hábito que eu tinha de meu quarto, e graças ao qual este se me tornava suportável, descontado o suplício de ir deitar-me. Agora já não o reconhecia e sentia-me inquieto como em um quarto de hotel ou de chalé, aonde tivesse chegado pela primeira vez, ao desembarcar de um trem.

Depois disso, o narrador descreve um pouco a história de Geneviève de Brabant. Segundo a Cinemateca Francesa, as placas descritas por ele são estas:

1-2

Geneviève, filha do Duque de Brabant, se casa com o senhor Siffroy.

3-4

Mas, logo depois do casamento, Siffroy precisa ir para a guerra.

5-6

Antes de partir, ele confia seu reino ao mordomo Golo. Este tenta em vão seduzir Geneviève e, em seguida, por conta de sua recusa, ele decide jogar a moça na prisão com um filho recém-nascido, acusando-o de ser o resultado de um adultério.

7-8

Siffroy ouve a notícia e, enfurecido, ordena a morte de Geneviève e seu filho.

9-10

Mas Golo não consegue matá-los e abandona Geneviève e o bebê na floresta. Geneviève se refugia, então, em uma caverna e alimenta seu filho com o leite de uma corça. Um dia, ao sair para caçar, Siffroy persegue a mesma corça e encontra a caverna onde está Geneviève.

11-12

Siffroy entende seu erro e executa Golo. Geneviève e seu filho voltam a viver no palácio, onde levam uma vida pacífica.

Depois o narrador de “No caminho de Swann” continua:

Certamente achava eu um especial encanto naquelas brilhantes projeções que pareciam emanar de um passado merovíngio e passeavam em redor de mim tão antigos reflexos de história. Mas não posso descrever que mal-estar me causava aquela intrusão do mistério e da beleza em um quarto que eu acabara de encher com minha personalidade a ponto de não dar mais atenção a ele do que a meu próprio eu. Cessando, assim, a influência anestésica do hábito, punha-me então a pensar e a sentir: coisas tão tristes. Aquela maçaneta da porta de meu quarto, que se diferenciava para mim de todas as maçanetas de porta do mundo, pelo fato de que parecia abrir-se por si, sem que eu tivesse necessidade de torcê-la, de tal modo se me tornara inconsciente seu manejo, ei-la que servia agora de corpo astral a Golo. E assim que tocavam a sineta para o jantar, apressava-me em correr ao refeitório, onde todas as noites esparzia sua luz a grande lâmpada de teto, que nada sabia de Golo nem de Barba Azul, e que conhecia meus pais e o assado de caçarola; e caía nos braços de mamãe, a quem as desgraças de Geneviève de Brabant me tornavam mais querida, ao passo que os crimes de Golo me faziam examinar com mais escrúpulo minha própria consciência.

Ainda segundo o site da Cinemateca Francesa, a lanterna que aparece na cena seria do tipo Lampascope, que era uma lanterna mágica para projeção caseira acoplada a uma lâmpada de querosene.

lampascope

O site da Cinemateca Francesa ainda tem textos sobre história da lanterna mágica e vários links relacionados. Vale a pena clicar!

As descrições das placas foram traduzidas por mim a partir dos textos do site da Cinemateca Francesa. Os trechos do romance de Proust foram retirados da tradução de Mario Quintana.

Também postei sobre lanternas mágicas aqui.
Todas as dicas da semana podem ser vistas na série na mosca.

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Diário da Giornate 2014 #3 – os filmes do fotógrafo Paul Nadar

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Hoje vou falar sobre mais uma sessão de primeiro cinema que veremos em outubro na Giornate del Cinema Muto, em Pordenone, na Itália. No post passado dessa série, eu comentei um pouco sobre o filme de montanha… E agora deparei os mesmos problemas: falta de informações confiáveis e dificuldade de encontrar fontes de pesquisa. A sessão que eu escolhi para hoje é a de filmes de Paul Nadar.

No site da Giornate, essa sessão é citada sem descrição alguma. O que sabemos é apenas que haverá a projeção de filmes desse fotógrafo. Não encontrei informação sobre ele em nenhum dos meus livros… E na internet há muita confusão entre Paul Nadar e seu pai, Gaspard-Félix Tournachon, também fotógrafo e conhecido como Nadar. Então vamos lá, com o pouco que achei sobre o assunto:

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Auto-retrado de Gaspard-Félix Tournachon, pai de Paul Nadar.

Nadar, o pai (1820-1910), foi muito conhecido por seus retratos de artistas da época, como Charles Baudelaire, Gustave Courbet, Eugène Delacroix e muitos outros. Foi também o primeiro (ou um dos primeiros) a capturar imagens fotográficas de um balão.

Em 1874, Paul passou a cuidar do estúdio de seu pai, em Paris. Na última década do século XIX, ele começou a trabalhar com imagens animadas e patenteou um sistema de projeção. Parece que ele criou duas câmeras diferentes, que usavam películas não perfuradas. Uma delas era de 58mm e a outra de 35. Ele apresentou os projetores ao Musée Grevin com o objetivo de substituir o Teatro Óptico de Émile Reynauld, sobre o qual falei neste post. Mas os aparelhos foram negados por conta do ruído que produziam e acabaram nunca sendo comercializados.

A partir de 1893 ele se tornou um agente da Eastman Kodak na França e parece que produziu, em 1896, pelo menos 6 filmes. Essas películas foram recuperadas por Henri Langlois e a compilação, sob o título Programme Nadar, foi exibida na Cinemateca Francesa em 1970. Algumas são atualidades filmadas na França e outras são danças serpentinas, pelo menos uma delas realizada pela bailarina Loïe Fuller (sobre quem também já escrevi um post).

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Cartaz da apresentação de Fuller no Folies-Bergère em Paris.

Imagino que sejam esses filmes o que será exibido nessa próxima Giornate del Cinema Muto. Infelizmente, não tenho mais informações sobre o assunto… Se alguém souber de algo ou tiver indicações de links ou livros, por favor me diga nos comentários! :)

No próximo post da série Diário da Giornate 2014 vou falar sobre os filmes de Méliès coloridos com estêncil. Com certeza será um tema mais fácil!

Para ver todos os posts que eu fiz sobre a Giornate 2013, é só acessar a série Diário da Giornate. Os posts sobre a Giornate 2014 estarão organizados na série Diário da Giornate 2014.

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NA MOSCA! #8 – há cem anos, começava a guerra

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A dica dessa semana é uma mostra virtual criada pelo European Film Gateway, um portal que reúne o acervo online de diversos arquivo e cinematecas europeias. European Film and the First World War foi criada para o centenário da eclosão da Primeira Grande Guerra, em 1914, e os filmes e conteúdos foram cedidos por instituições como Cineteca di Bologna, Deutsche Kinemathek, EYE Film Institute, Cinémathèque Royale de Belgique e muitos outros.

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As diferentes seções da exposição virtual.

A mostra está dividida em sete partes, como é possível ver na imagem acima. Em cada uma delas, você encontra uma série de filmes, fotografias, textos e cartazes de época. É super fácil de navegar! E também dá para ver o conteúdo todo em uma linha do tempo, clicando em Chronology. Aí vão algumas das coisas mais interessantes que eu encontrei lá:

Da seção Film and Propaganda, a animação “Das Säugetier” (1916) é bem interessante… Uma personagem se transforma de polvo para criar uma metáfora da Inglaterra vista pelos olhos alemães. Nessa parte sobre propaganda também tem filmes sobre a resistência.

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Das Säugetier (1916, Alemanha)

Na seção At the Front estão dispoíveis algumas fotografias de Wolfgang Filzinger, um cinegrafista que escreveu um artigo para uma revista alemã de cinema em 1915 sobre as dificuldades de se filmar no front. Segundo ele, além de lidar com lentes lentas e câmeras e tripés pesados, os cinegrafistas tinham que se esconder dos inimigos e dos próprios aliados, que quando percebiam que estavam sendo focalizados se viravam para as câmeras e acenavam, tornando impossível que as imagens fossem depois consideradas autênticas. Para esperar um motivo interessante, como uma explosão de granada, por exemplo, os operadores de câmera tinham que passar longos períodos na zona de perigo… Por isso precisavam ser pessoas familiarizadas com os procedimentos militares.

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Wolfgand Filzinger e sua câmera.

E, para terminar meus destaques, a seção Science and technical innovation mostra, entre outras coisas, as mulheres na guerra. São vídeos, fotos e textos que mostram o trabalho delas na indústria de armas.

mulheres na guerra

Então essa foi a dica da semana… E não deixem de explorar a mostra virtual European Film and the First World War!

Todas as dicas da semana podem ser vistas na série na mosca.

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