Ciclo de Cinema Silencioso do Cineclube Latino-Americano – oficina “Música para Cinema Mudo”

Como eu disse no post Na Mosca #2, a dica da semana passada aqui no blog foi o Ciclo de Cinema Silencioso, programação organizada pelo Cineclube Latino-Americano no contexto do 9º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo. Vou fazer alguns posts sobre isso e este é um deles: hoje vou falar sobre a oficina Música para Cinema Mudo ministrada pelo músico mexicano (e meu querido amigo) José María Serralde Ruiz. A oficina foi pensada para músicos interessados em cinema silencioso, mas eu (que só toco campainha!) participei também e até toquei um pouquinho de percussão.

oficina musica para cinema mudo

José durante a oficina no Cineclube Latino-Americano

O curso é organizado a partir de exercícios em grupo. O primeiro deles foi com o filme “L’assassinat du duc de Guise” (Charles Le Bargy, André Calmettes, 1908, filme neste link), o filme mais antigo de que conhecemos a trilha original (composta pelo regente francês Charles-Camille Saint-Saëns). Primeiro assistimos ao trecho inicial do curta sem som, depois assistimos novamente tentando sonorizar e depois novamente com o áudio original. É muito interessante perceber na prática aquilo que já sabemos: o som tem o poder de destacar gestos, enfatizar mudanças de humor, criar climas e até alterar a nossa interpretação de um filme através de recursos como a ironia, por exemplo.

O José é um ótimo professor. Foi muito bonito ver o esforço dele para criar um ambiente seguro e aberto para que todos os participantes se sentissem à vontade para falar e tocar. Uma estratégia interessante que ele usou foi pausar o curta em determinado ponto e perguntar aos alunos: no que aquela personagem está pensando? o que ela vai fazer agora? Isso fazia com que nós assistíssemos ao filme com maior atenção e prontidão, com um esforço de compreensão muito maior do que normalmente.

Depois assistimos e musicamos um trecho do filme “Regen” (Joris Ivens, M. H. K. Franken, 1929, filme completo neste link). E a discussão foi focada nas diferenças entre musicar um filme como esse (de vanguarda, “documental”, mais “abstrato”) e um filme de ficção (com variações de sentimentos, com “drama”).

Outro jogo foi bem divertido: novamente em grupos, criamos histórias simples como se fossem filmes imaginados. Depois, cada grupo devia musicar o filme do outro. Foi muito legal porque era possível “ver” a história através dos sons e construir detalhes, como gestos e novas imagens…

No segundo dia de oficina voltamos ao curta “L’assassinat du duc de Guise“, mas com um exercício diferente: tínhamos que, em grupos, listar todas as ações e gestos do trecho e determinar quais eram os pontos de mudança mais relevantes para depois sonorizar mais uma vez. É impressionante ver como esse tipo de análise detalhada prévia faz a música saltar em qualidade e precisão! O José acredita que o músico para cinema mudo deve entender os “gestos do filme” (e isso pode ser entendido tanto como os gestos das personagens como os gestos da imagem, no caso de um filme sem personagens) como se fossem os gestos do regente de uma orquestra.

oficina musica para cinema mudo 2

Alunos da oficina musicando “L’Assassinat du duc de Guise” (1908)

Para terminar esse segundo dia brincamos um pouco com Mickey Mouse, naquele filme que é uma das primeiras aparições da personagem, “Steamboat Willie” (Ub Iwerks, Walt Disney, 1928, filme neste link). Experimentamos a criação de ruídos para o filme, que justamente foi todo feito a partir da música e de efeitos sonoros diversos.

Perdi, infelizmente, o último dia de oficina, em que o grupo musicou coletivamente um curta de Chaplin.

Sobre o improviso musical não posso falar muito porque não entendo nada dessa área. Mas o José falou bastante sobre isso, claro. Todos os exercícios da oficina tinham como objetivo praticar algumas regras que ele estabeleceu logo no início e que eram resumidamente:

1. Não há melhor ou pior música para o Cinema Mudo. O que muda são as escolhas que fazemos;
2. Se um outro músico faz uma proposta, é preciso aceitar a ideia e tocar junto;
3. Se não faz sentido para você (se não “te incendeia”), não fará para o seu colega músico e certamente não fará para o espectador.

Ele falou bastante também sobre o repertório que é preciso construir e como lançar mão dessas “cartas na manga” durante uma sessão de improviso. E quando o músico tem um bom tempo de preparação o ideal é criar uma folha guia com as indicações do que tocar em cada momento do filme, marcando seus principais gestos, tensões etc…

Foi uma experiência muito especial! Acho que um dos maiores valores (principalmente para não-músicos como eu) desses encontros de discussão e experimentação de música para cinema mudo é que a gente aprende novas formas coletivas de interpretação dos filmes. E tem a chance de criar a partir deles, o que nos abre para novos pontos de vista.

No próximo post sobre o Ciclo de Cinema Silencioso do Cineclube Latino-Americano vou falar sobre a sessão de filmes mexicanos da revolução, em que o José tocou piano e o pesquisador Aurélio de los Reyes fez os comentários. Foi como uma sessão dos primeiros tempos, com comentador e música ao vivo!

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