Diário de Karlsruhe II – apresentações do Collegium

Antes tarde do que nunca! Espero conseguir postar mais no blog a partir de agora… Estou com ideias novas e, claro, muitos posts prometidos e não postados! Como é o caso deste que escrevo agora: o segundo da série de relatos sobre minha experiência como membro do Collegium no Stummfilm Festival em Karlsruhe, na Alemanha, em março deste ano!

No primeiro post da série, eu expliquei um pouco sobre como funcionava o Collegium e fiz algumas comparações com a outra experiência que eu tive na Giornate del Cinema Muto em Pordenone, Itália, em outubro de 2013.

Agora vou contar mais detalhes sobre as apresentações de cada membro do grupo. Não vou conseguir escrever muito porque já faz tempo (o festival foi em março), mas espero conseguir expor algumas das principais questões da discussão!

berghausen

Vista da janela da casa em que nós, Collegians, ficamos hospedados em Berghausen, uma cidadezinha ao lado de Karlsruhe

Como eu já disse, esse festival tem um tema por ano e nessa edição o tema era Cross-dressing no Cinema Silencioso. Éramos 5 membros no grupo do Collegium / Workshop e a professora convidada foi Laura Horak (todas essas informações estão no post anterior da série sobre esse festival!).

Federico, da Itália, falou sobre cross-dressing em comédias americanas dos anos 1910 e 1920. Ele mostrou muitas imagens de filmes de Chaplin, Buster Keaton e Laurel and Hardy. O que pudemos perceber é que, nesse tipo de comédia, com atores conhecidos do público, o cross-dressing costuma aparecer apenas como disfarce e a graça está em ver aquele ator famoso (e gordo / e excêntrico) usando roupas de mulher. Quando havia grande verossimilhança, não só para as outras personagens, mas também para o público, parece ter sido uma forma de mostrar a versatilidade dos atores. É o caso de Chaplin. Federico nos mostrou algumas cenas de “A woman“, de 1915 (acho até que já postei esse filme aqui no blog, mas vale a pena ver de novo!):

O cross-dressing aparece como disfarce da personagem, mas quase convence! É impressionante quando ele tira o bigode! Mas não podemos nos esquecer que tipo de mulher Chaplin está “imitando”: são todos os estereótipos da mulher tímida, graciosa, enfim… “feminina”.

Outra observação interessante é que Chaplin fazia os atores imitarem milimetricamente seus gestos. Primeiro ele mostrava como queria que fizessem e então eles o copiavam. As atrizes estariam, então, sempre imitando um homem imitando mulheres. Acho que pode ser um exercício legal tentar perceber quais as consequências disso para a atuação das mulheres nos filmes dele.

Maria, da Rússia, analisou um filme russo de 1913, cujo título em inglês é “The Little House in Kolomna”. O filme foi inclusive exibido no festival. Também é um caso de disfarce e o ator que pratica o cross-dressing nesse filme é Ivan Mosjoukine, o mesmo que participou do experimento de Lev Kuleshov sobre os efeitos da montagem.

Nesse caso, a personagem se disfarça de empregada doméstica para se aproximar da garota que ele ama. Ao contrário de Chaplin no exemplo anterior, o ator nunca tira o bigode, o que chama atenção para o próprio disfarce, claro. A forma de atuação e toda a forma do filme é muito mais próxima das práticas do primeiro cinema, apesar da data. Isso acontece porque o cinema silencioso russo, assim como o nosso, é “atrasado” em relação aos países centrais.

Um ponto que eu achei interessante foi o que Maria falou quando perguntaram para ela sobre exemplos de cross-dressing depois de 1917. Ela disse que na Rússia socialista não havia a diferenciação entre homens e mulheres como nos outros países, por isso o cross-dressing não fazia sentido. Ela disse que não conhece nenhum exemplo nesse período.

Vanessa, da Áustria, apresentou uma pesquisa sobre dois filmes exibidos no festival, os alemães “The ABCs of love” (1916) e “I don’t want to be a man” (1918).

AstaNielsenLiebesABC

Asta Nielsen em “Das Liebes-ABC” de Magnus Stifter (1916)

Asta Nielsen foi, para mim, a grande estrela desse festival. Sua atuação em “Das Liebes-ABC” e no filme que abriu a programação, “Hamlet” (1920) é impressionante. Seu corpo cria formas surpreendentes e ela se transforma em tudo o que uma garota burguesa não pode ser… Mas, apesar de toda a subversão presente em sua atuação, é importante chamar atenção para a relação com a sexualidade da personagem/atriz. Quando está conquistando uma mulher, no papel de homem, ela olha para a câmera e mostra para o público que é tudo encenação, afirmando sua heterossexualidade.

Ich mochte kein mann sein

Ossi Oswalda e Curt Goetz em “Ich möchte kein Mann sein” de Ernst Lubitsch (1918)

A sexualidade também é uma questão importante em “Ich möchte kein Mann sein”, como a imagem acima já sugere! A personagem principal do filme, a garota interpretada por Ossi Oswalda, não quer ser educada como uma “lady”. Se veste como homem e vai para uma festa. Depois de uma noite de paquera, ela e a personagem de Curt Goetz acabam se beijando. Mais uma vez, apesar da interessante imagem de dois gentlemen se beijando, tudo é justificado por estarem os dois bêbados.

É interessante notar como nos dois filmes as atrizes não estão apenas se passando por homens, mas se passando pelo que seria o “homem ideal” da época. Rico, galanteador, fumante… O ato de fumar foi também bastante discutido por nós. Era uma prática proibida para as mulheres e é esse tipo de atitude que os dois filmes exploram.

Christina, da Alemanha, comentou um filme sueco que vimos em Pordenone no ano passado, “The girl in tails” (1926). É o único filme (além do que eu analisei) dirigido por uma mulher, a sueca Karin Swanström.

girl in tails

Magda Holm em “The girl in tails” (1926)

Nesse caso, a personagem feminina usa um smoking para poder ir a um baile, pois seu pai não comprou um vestido que ela pudesse usar na ocasião. Vestida como um homem, ela aproveita para fazer tudo aquilo que não podia fazer como mulher: beber, fumar charutos etc. É interessante ver como ela faz isso sem medo do que os outros vão pensar dela, não se importando com a opinião de seu namorado, por exemplo. O filme usa alguns elementos de slapstick comedy e talvez seja o mais ousado de todos os filmes discutidos pelo Collegium. A personagem não se disfarça, ela não quer enganar ninguém, como nos outros casos…

E por último, a minha apresentação. Eu falei sobre o cross-dressing no primeiro cinema e analisei o filme “The consequences of feminism” (1906) de Alice Guy. Eu deixei pro final aqui no blog, mas na verdade fui a primeira a me apresentar, porque o filme que eu escolhi é o mais antigo.

No próximo post dessa série vou publicar a minha fala na íntegra!

E talvez ainda poste alguma coisa sobre outros filmes exibidos no festival…

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