cross-dressing no primeiro cinema – quais os efeitos?

Hoje vou escrever sobre um tema que eu não conheço muito bem… Se alguém puder apontar erros ou sugerir outras fontes de pesquisa, agradeço muito!

arlequim

“Arlequim sentado”, Pablo Picasso, 1901

Há vários casos na História de pessoas que se passam por membros do gênero oposto por diversos motivos. Mulheres que se passaram por homens para poder acessar esferas proibidas para elas, como a guerra e o trabalho fora de casa, e homens que se disfarçaram de mulher para esconder sua identidade, fugir de perseguições etc. No carnaval, por exemplo, o cross-dressing já foi um elemento chave de expressão anárquica (hoje acredito que não mais, passando a ser apenas mais uma forma de reforçar estereótipos).

Aqui no Brasil o cross-dressing vem sendo bastante discutido nos últimos anos. A cartunista Laerte, por exemplo, expõe a questão em sua obra (e em seu próprio corpo):

Captura de Tela 2014-01-17 às 11.13.13

Tirinha de Larte retirada de http://murieltotal.zip.net

Sabemos que essa prática era comum no teatro e no vaudeville. E nos primeiros anos do cinema? O cross-dressing tinha espaço? E com que efeitos? Só aparecia em comédias?

É muito difícil encontrar filmes dos primeiros tempos que mostrem travestis, homossexuais, cross-dressers etc. Se existiram filmes que representavam essas personagens na primeira década do cinema, eles deviam ser produzidos e exibidos em espaços marginais. Provavelmente, o estigma social ligado a esse tipo de imagem impediu que os filmes sobrevivessem e entrassem para as histórias oficiais.

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Homens travestidos na virada do século (National Archives of Estonia)

A esfera pública é historicamente dominada pelos homens e as diferenças sociais entre homens e mulheres é um problema atual. Mas sabemos que a virada do século foi um momento de grandes mudanças nesse cenário. Nos Estados Unidos, por exemplo, estavam em curso as lutas pelo voto feminino. No mundo todo, as mulheres estavam saindo do espaço doméstico e ocupando as ruas através de parques de diversões, lojas de departamento e outros espaços de consumo e convivência social.

SelfridgesRooftop

A loja de departamento Selfriges na Inglaterra no começo do século

Se os atos através dos quais o gênero é construído têm similaridades com os atos performáticos do teatro, como sugere Judith Butler, então estão ligados a uma exterioridade do corpo. Como, no primeiro cinema, o corpo é central e a interioridade das personagens não é relevante (como passará a ser no cinema hegemônico a partir dos anos 1910), pode ser interessante analisar a representação dos gêneros nesse período inicial do cinema.

chaplin a woman

Charlie Chaplin em “A woman” (1915), o terceiro e último filme em que ele aparece vestido como mulher

A maior parte dos filmes do período em que encontramos travestimentos, são aqueles em que uma personagem feminina é interpretada por um homem por motivos “práticos”: quando a personagem aparece usando apenas suas roupas de baixo (e não é um filme erótico/adulto) ou quando exige um grande esforço físico. Há outros filmes em que a troca é mais sutil: não há travestimento, mas a mulher tem o papel de dominadora da situação, enquanto o homem é ingênuo e frágil.

Chaplin como uma sufragista no primeiro ano de sua carreira (A busy day, 1914)

Uma mulher interpretada por um homem que depois troca de roupas com outro homem! (At the hypnotist, Alice Guy-Blaché, 1898)

Nesse, os papeis normalmente assumidos por homens e mulheres estão de certa forma invertidos… A mulher bebe, fuma, rouba. E ainda tem uma piada final sobre a maternidade. (Madam’s Fancies, Alice Guy-Blaché, 1907)

Um exemplo interessante que mescla as duas coisas (troca de vestimentas e troca de papeis) aparece no filme “The consequences of feminism” (Les résultats du féminisme, Gaumont, 1906), de Alice Guy-Blaché. No trabalho dessa pioneira, ela mesma uma mulher que ocupou posições comumente dominadas pelos homens (foi diretora de cinema e montou seu próprio estúdio), encontramos um campo produtivo para essa discussão.

O filme se passa em um futuro em que as mulheres, através da luta feminista, teriam tomado o lugar dos homens. Elas carregam bengalas e armas e usam gravatas e chapéus masculinos. Eles carregam sombrinhas e usam flores no cabelo. Elas são agressivas, eles cuidam das crianças; elas saem para trabalhar, eles passam as roupas em casa. A opressão das mulheres sobre os homens é tanta, que eles criam uma rebelião e tomam de volta seus lugares, expulsam-nas do espaço público e brindam, ironicamente, com cerveja.

A ambiguidade final é a parte mais interessante: o filme mostra a superioridade dos homens? Mostra que homens e mulheres devem permanecer em seus espaços socialmente delimitados? Ou mostra como a performance corporal e a vestimenta constroi a identidade de gênero?

É um filme de efeito cômico irônico, porque faz pensar sobre os papeis que homens e mulheres ocupam em uma sociedade machista. A troca de papeis é absurda no filme, assim como é absurda a ideia de que os comportamentos ligados aos gêneros feminino e masculino sejam naturais ou simplesmente determinados por aspectos biológicos.

***

Cross-dressing no cinema silencioso é o tema do ano no festival de Karlsruhe (uma cidadezinha no sudoeste da Alemanha).

Captura de Tela 2014-01-17 às 11.45.00

O festival acontecerá no começo de março. A programação não tem filmes muito antigos. Acho que nenhum é do primeiro cinema! Por isso pensei que seria interessante pesquisar esse tema no cinema das origens.

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Uma resposta

  1. Andei pensando sobre esse “as consequências do feminismo” da Alice Guy essa semana, por acaso… É um dos meus filmes favoritos, mas estou com muita preguiça de escrever sobre ele aqui… Quem sabe mais pra frente. Estou exilado do Facebook no momento. Vim visitar seu site rapidinho.

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