diário da Giornate – “Uma casa em Dartmoor”, Anthony Asquith

Diário da Giornate

A história do cinema sueco é fascinante! O pouco que conheço já me encantou. Como eu comentei em outros posts aqui no blog, a Giornate del Cinema Muto desse ano exibirá uma longa seleção de filmes silenciosos suecos do final dos anos 1920. O programa se chama Sealed Lips, que é o título de um dos filmes que serão apresentados, “FÖRSEGLADE LÄPPAR” [Sealed Lips] (Gustaf Molander, 1927).

Aí vai a seleção dos filmes que serão exibidos:

POLIS PAULUS’ PÅSKASMÄLL [The Smugglers] (1925, Gustaf Molander)
FLICKEN I FRACK (1926, Karin Swanström)
HANS ENGELSKA FRU (1927, Gustaf Molander)
FÖRSEGLADE LÄPPAR [Sealed Lips] (1927, Gustaf Molander)
SYND [Sin] (1928, Gustaf Molander)
KONSTGJORDA SVENSSON [Artificial Svensson] (1929, Gustaf Edgren)
DEN STARKASTE [The Strongest] (1929, Alf Sjöberg, Axel Lindblom)
RÅGENS RIKE [The Kingdom of Rye] (1929, Ivar Johansson)
FÅNGEN N:R 53 [A Cottage on Dartmoor] (1929, Anthony Asquith)

Vou começar comentando esse último, “A Cottage on Dartmoor” (Uma casa em Dartmoor), que é o corte sueco da co-produção Inglaterra-Suécia do diretor inglês Anthony Asquith. Esse filme já havia sido exibido na segunda edição da Jornada Brasileira de Cinema Silencioso numa sessão de cinco filmes preparada por Paolo Cherchi Usai, em que o uso da arquitetura era o fio condutor. Isso foi um repeteco da exibição feita em 2004 na Giornate, no contexto de uma sessão sobre filmes ingleses silenciosos. Agora, sendo exibido nessa sessão “Sealed Lips”, talvez a gente possa perceber relações dessa obra com os outros filmes da Suécia.

A descrição da Giornate diz que essa época do cinema sueco (final dos anos 1920) foi obscurecida pelo foco dado pela historiografia para os filmes do período precedente, a chamada “Golden Age” sueca (anos 1910), que foi quando diretores como Victor Sjöström começaram suas carreiras. Esse período posterior que será apresentado no festival é marcado pelo desejo do cinema sueco de alcançar um público internacional. Para isso, fizeram muitas co-produções, contratando atores e diretores estrangeiros, como é o caso do inglês Asquith.

Em “A Cottage on Darmoor“, a contribuição sueca está, principalmente, na fotografia de Axel Lindblom e na atuação de Uno Henning (que interpreta Joe, um barbeiro). A principal característica do filme parece ser a união das técnicas narrativas de Hollywood com alguns traços formais da vanguarda europeia. Logo na primeira cena podemos observar essa mistura. Vemos um cenário expressionista: árvores de troncos retorcidos, com seus galhos secos, pedras enormes e fumaça por todos os lados. Os gestos ofegantes de um fugitivo, que parece carregar um grande peso dentro de si, parecem se espalhar pela paisagem, que pulsa com ele. O uso expressivo do jogo entre luz e sombra também contribui para a instauração de uma atmosfera de suspense.

cottage on dartmoor arvore 2

“A Cottage on Dartmoor”

Mas logo essa cena é intercalada com outra, em que uma mãe e seu bebê vivem tranquilos em sua casa sem saber que aquele homem está indo em sua direção. Sem palavras, esse início mostra os principais elementos da situação: é da prisão que o homem vem fugindo e esse encontro com a moça é antecipado por uma enorme tensão. A mulher, ao se ferir com uma agulha, parece prever o terrível encontro.

cottage on dartmoor expressionista

O momento anterior ao encontro

E aí somos surpreendidos por um flashback que aparece sem nenhum aviso: quando a moça vê que o fugitivo invadiu sua casa, ela grita “JOE!” e o filme corta para o mesmo Joe, de cabelo penteado, num cenário muito mais iluminado (que logo compreendemos se passar num tempo anterior) e sua resposta “Yes, Sally?”. Então vemos Sally e Joe trabalhando juntos numa barbearia e tudo faz sentido. O fugitivo e a moça se conhecem faz tempo.

Cesare e Joe

Cesare em “O gabinete do Dr. Caligari” e Joe em “A Cottage on Dartmoor”

Não me parece exagero comparar esses dois planos: a primeira aparição do sonâmbulo Cesare em “O gabinete do Dr. Caligari” e o close do rosto perturbado do fugitivo Joe em “A Cottage on Dartmoor”. O uso expressivo das sombras, os olhos arregalados e maquiados a encarar a câmera, a expressão de terror… Claro que há uma diferença importante: no primeiro tudo é mais marcado, a sombra é desenhada em volta do rosto da personagem e os olhos pretos são super fortes. No segundo vemos um dégradé de luz e a maquiagem é mais sutil.

E o flashback já começa com uma cena de ciúmes e percebemos que Joe investe na tentativa de ter um relacionamento com Sally, enquanto ela demonstra certa ambiguidade – às vezes cede, mas também se mostra interessada por um cliente. Um triângulo amoroso então se desenvolve entre o barbeiro Joe, a manicure Sally e o cliente, Harry, que acabou de comprar uma fazenda em Dartmoor.

A Cottage on Dartmoor” tem uma outra cena muito interessante que mostra bem a transição do cinema mudo para o falado. Harry convida Sally para assistir a um talkie. Joe também vai para observar o encontro dos dois às escondidas. Em nenhum momento vemos as imagens que são projetadas na tela. Acompanhamos somente os rostos dos espectadores na plateia e a orquestra que faz o acompanhamento musical do filme. As pessoas conversam enquanto assistem e a cena tem uma montagem frenética mostrando as diferentes reações do público. É bem engraçado o momento em que um menino repara que o homem sentado a seu lado se parece muito com a personagem do filme…

cottage on dartmoor menino ve harold lloyd

Com esses óculos, já dá pra imaginar de quem é o filme que está sendo exibido. Claro, Harold Lloyd! Achei interessante essa cena porque muito se fala sobre a personagem de Lloyd, que é sempre um cara “normal”, sem as características grotescas de outros comediantes da época, alguém com quem o público poderia se identificar facilmente. E o menino reconhecer um homem parecido com ele, com os mesmos óculos redondos, mostra que isso estava mesmo presente no imaginário da época!

Logo em seguida vemos uma propaganda impressa da sessão, que mostra que o filme exibido é “My Woman”, ‘precedido por Harold Lloyd’ e tudo se confirma. Esse longa, que parece ser um título fictício (pelo menos não encontrei nenhum registro de que o filme exista de verdade), é o tal talkie a que eles foram assistir! Uma senhora não consegue escutar, o homem dos óculos redondos sai da sala, outro dorme… Os músicos da orquestra param de tocar e passam a beber e jogar cartas. Está clara a posição de Asquith em relação ao filme sonoro: parece que, para ele, pelo menos nessa época, o cinema perde a vida que tinha quando ainda era a arte do silêncio.

O filme pode ser visto inteiro no Youtube:

 Vale muito a pena assistir… Pelos planos com ângulos de câmera inusitados que sempre dizem algo sobre as personagens, pela iluminação expressionista, pelas atuações ambíguas, pela forma como trata o cinema falado… Pela trama, que parece ter inspirado o cinema noir… E, principalmente, pelo suspense que é construído com pouquíssimos intertítulos e com uma montagem muitas vezes simbólica.

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