diário da Giornate – cine y verdad

Diário da Giornate

Enquanto esperamos a divulgação oficial da Giornate del Cinema Muto sobre os filmes mexicanos que serão exibidos esse ano, vou falar mais um pouquinho sobre os primeiros tempos do cinema no México.

Segundo Aurelio de los Reyes, o mais importante pesquisador do cinema mexicano silencioso e curador da parte mexicana da programação da Giornate, o Cinematógrafo foi muito associado à ideia de verdade. Principalmente na virada do século, quando o cinema estava começando a se espalhar pelo país, os jornalistas locais se referiam muito à capacidade do cinema de ser uma espécie de olho justo e preciso a que nada escapava e que registrava a realidade.

O cinema, portanto, foi comumente visto como uma forma de registrar a história, sem alterações, sem a manipulação de interesses conflitantes. Os intelectuais da época comentaram essa crença com frequência, tanto em relação aos “grandes feitos de homens importantes” como aos “pequenos feitos da vida cotidiana“.

No periódico “La Semana” de 20 de março de 1898, o jornalista Amado Nervo nos dá um exemplo:

Este espetáculo sugere o que será a história no futuro; não haverá mais livros; o fonógrafo guardará em sua caixa preta as velhas vozes extintas; o cinematógrafo reproduzirá as vidas de prestígio… Nossos netos verão os nossos generais, os intelectuais, os nossos mártires e nossas resplandecentes mulheres com suas cabeleiras douradas… Oh, se nós tivéssemos podido reconstruir assim todas as épocas, se graças a um aparato pudéssemos ver o imenso desfile dos séculos… Como de uma estrela, assistir à marcha formidável dos mortais através dos tempos…

Outro exemplo interessante podemos ver nesse trecho escrito por José Juan Tablada, no jornal “El Universal”, de 12 de dezembro de 1896:

Sonho realizável para um herói que, em vez de ter um álbum de fotos onde as imagens empalidecem como os cadáveres nos caixões, teria um cinematógrafo e, quando quisesse viajar pelo passado e submergir na profunda vida das recordações, poderia contemplar o andar pausado da mãe já desaparecida, os movimentos gentis da namorada morta enquanto o fonógrafo derramaria em seu ouvido o belo tom das frases maternais e o ritmo apaixonado dos juramentos de amor!

Essa capacidade de “reproduzir a verdade” parece ter sido de fato a mais explorada pelo cinema mexicano dos primeiros tempos. Até 1900 apenas um filme encenado foi feito, “Duelo a pistola”, a reconstituição de um duelo entre dois deputados, um dos quais foi morto da briga. Esse filme recebeu muitos comentários negativos dos jornalistas por ser um “desrespeito”, principalmente com quem assistisse sem saber se era o registro verdadeiro ou uma encenação.

Não posso dizer com certeza, mas me parece que o filme é esse aqui:

Todos os outros filmes feitos nessa época, pelo que parece, foram registros de solenidades públicas, viagens do general Porfírio Díaz etc., o que indica que realizadores e imprensa estavam unidos na exploração do cinematógrafo como instrumento de documentação histórica. Principalmente aquela história dos “grandes feitos” dos homens do poder.

(Retirei as informações para escrever esse post no livro “Los orígenes del cine en México (1896-1900)” de Aurelio de los Reyes, páginas 104-114.)

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