diário da Giornate – tateando o cinema silencioso mexicano…

Diário da GiornateVoltando à série de posts sobre a programação da Giornate del Cinema Muto desse ano: cinema silencioso mexicano!

Uma das atrações da Giornate de 2013 será a primeira parte do “The Mexico Project“, com curadoria do historiador de cinema mexicano Aurelio de los Reyes. Os filmes ainda não foram anunciados, mas pelo que foi divulgado até agora, sabemos que serão documentos relativos à revolução mexicana com heróis da luta armada como Emiliano Zapata e Francisco (Pancho) Villa.

Pesquisar o cinema silencioso de cinematografias periféricas como a mexicana (e também a brasileira!) é uma aventura. Pouquíssimos filmes sobreviveram e menos ainda estão disponíveis online. São poucas as fontes escritas – e muitas vezes encontramos informações que se contradizem, o que atrapalha muito a tentativa de compreender o período. Estou, como coloquei no título do post, realmente tateando esse assunto pelas bordas… Se o próprio cinema mexicano canônico e contemporâneo é pouco conhecido aqui no Brasil, imaginem o cinema silencioso!

Sobre o começo do cinema: descobri que, como em outros países do mundo, foram enviados pelos Lumière dois cinematografistas, que chegaram ao México em julho 1896. No dia 5 de agosto, eles fizeram uma primeira apresentação do Cinematógrafo para o General Porfírio Díaz, sua família e alguns amigos próximos. Eles gostaram tanto dos filmes que passaram quase a noite inteira assistindo várias vezes! Em 14 de agosto de 1896 foi feita a primeira projeção pública, pelos mesmos enviados franceses, sem acompanhamento musical. Intelectuais da época comentaram sobre o realismo do movimento das imagens e sentiram falta das cores, como no clássico relato de Máximo Gorki. Alguns acreditaram que o cinema, no futuro, substituiria os livros. Logo depois, muitas cenas da vida pública mexicana foram filmadas pelos enviados dos Lumière, como festas populares e eventos políticos.

A sociedade mexicana da época ainda era predominantemente agrária. E a elite, que viu no cinema um aparato científico de modernização, fez de tudo para aumentar o preço dos ingressos para que a gente pobre não tivesse acesso à novidade.

As primeiras salas de cinema apareceram no centro comercial da Cidade do México, mas logo se espalharam pelas regiões mais pobres. E, no começo do século, ambulantes levaram o cinema para o campo. Mostravam filmes de Méliès, Porter e outros.

Encontrei também algumas outras coisas legais. Aí vão:

* “La vida en México: 18 Lustros” (série de documentários feita com imagens de arquivo sobre a vida no México durante o século XX)

O primeiro episódio da série, “Lustro 1: y cuando el cine llegó, 1900-1904“, dirigido por Aurelio de los Reyes, é uma ótima introdução ao cinema mexicano dos primeiros tempos. Foi deste filme que eu tirei a maior parte das informações deste post. Todos os episódios estão disponíveis aqui nesse link, no site da Filmoteca UNAM, o órgão responsável pelas restaurações que serão exibidas em Pordenone.

* “El automóvil gris” (filme de Enrique Rosas, 1919)

Foi uma série de 12 episódios que contava a história verídica de um bando de ladrões de jóias que atuou na Cidade do México em 1915. O filme foi feito em locações por onde passaram os verdadeiros bandidos e tem até uma cena documental do fuzilamento de alguns deles, feita pelo próprio diretor do filme alguns anos antes.

Dá pra assistir na internet algumas compilações de trechos, com uma sonorização (que inclui uma dublagem super estranha feita nos anos 1950), mas a série completa parece que está em processo de restauração. Esse post do blog Cine Silente Mexicano tem informações bem legais sobre o filme.

* Três filmes silenciosos para assistir online

Também no site da Filmoteca UNAM estão disponíveis três obras do cinema silencioso mexicano de ficção: “Tepeyac” (Carlos E. Gonzáles, José Manuel Ramos e Fernando Sáyago, 1917), uma série que mistura ficção e imagens documentais sobre religião, “El puño de hierro” (Gabriel García Moreno, 1927) um longa dividido em 5 capítulos (que foi inclusive exibido na segunda edição da Jornada Brasileira de Cinema Silencioso aqui em São Paulo, em 2008)…

…e “El tren fantasma” (Gabriel García Moreno, 1926)

Um longa sobre o engenheiro Adolfo Mariel, que vai para Orizaba investigar as irregularidades numa companhia ferroviária. Logo ele se apaixona por Elena, filha de um funcionário da companhia. Mas Paco “El Rubí”, chefe de um bando de bandidos, está comandando diversos crimes na cidade. Em determinado ponto do filme, os bandidos sequestram Elena. São cenas impressionantes. O mocinho, Adolfo, luta com um dos bandidos na parte externa de um trem em movimento! Muito emocionante!

As cenas do salvamento de Elena são as melhores do filme. Adolfo corre à cavalo ao lado do trem onde ela está presa, que está descontrolado! Ele pula do cavalo para o trem, os dois ficam juntos, mas ainda em grande perigo. Depois o trem sai dos trilhos em uma ponte e cai em um rio. É usada uma maquete para esse plano. Mas, claro, os dois se salvam e se casam no final! São também muito bonitos outros planos tomados de trens em movimento e bem interessantes as imagens documentais de uma tourada. O filme tem perseguição, tiroteio, violência, sedução (hahaha)… Vale a pena.

El tren fantasma

Luta entre Adolfo e um dos bandidos em um trem em movimento em “El tren fantasma” (1926)

***

Agradeço ao meu novo amigo mexicano Cesar de la Rosa, também selecionado para o Collegium desse ano, pela generosidade em me ajudar e por todas as dicas sobre o cinema do México! :)

Espero que a divulgação de mais informações sobre os filmes que serão exibidos na Giornate não demore muito!

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