os filmes de perseguição

Aí vai um post fora da série de preparação para a Giornate…

Como o que mais me interessa no cinema silencioso é o primeiro cinema, enquanto escrevia o post sobre as referências de Orson Welles em “Too much Johnson” (1938), lembrei logo que essas corridas com policiais desastrados (e outras figuras) também foram muito populares no começo do século.

Os chamados filmes de perseguição (chase films), que estavam entre os mais populares nos EUA entre 1904 e 1906, são muito interessantes por unirem a atração e a narração, aspecto muito característico dos primeiros filmes. Eram normalmente comédias, que começavam com um mal entendido que desencadeava a corrida. A cada plano iam aumentando os perseguidores e mais malucos eram os obstáculos por onde todos deviam passar, como cercas, multidões, ruas movimentadas… Os filmes de perseguição mostram bem esse momento de transição entre a  predominância do espetáculo e os filmes mais longos e mais narrativos.

Aqui vai um exemplo, “The policemen’s little run” (1907):

O filme começa com a situação disparadora da encrenca: um cachorrinho rouba um presunto! Policiais encontram o ladrão e começa a corrida. Cada plano começa com o cãozinho vindo de uma ponta do quadro e só termina quando ele e seus perseguidores alcançam a outra ponta. Ou seja, o plano dura tanto tempo quanto durar a ação por ele apresentada. Se esse filme fosse feito hoje (ou mesmo poucos anos depois, nos anos 1910, por exemplo), teríamos muito mais cortes e não acompanharíamos a corrida por tanto tempo em um único quadro.

A cada plano, novos policiais atrapalhados se incorporam à perseguição. A continuidade é feita através de uma técnica hoje muito banalizada e que passa desapercebida por nós: sempre que o cachorrinho sai por um lugar do plano (por exemplo, a parte inferior da lateral direita), ele reaparece no plano seguinte no local oposto (nesse exemplo, seria a parte superior da lateral esquerda, agora) – e assim também os policiais, sempre atrás dele. Isso é uma convenção, que dá a impressão de que o trajeto é contínuo e constrói um espaço imaginário maior que cada um dos espaços vistos em cada quadro.

Eles passam por diversos obstáculos, chegam até a entrar no quarto de um homem que está dormindo… Essas aventuras incluem uma cena de trucagem genial: o cãozinho escala um prédio e os policiais o seguem. Quando chegam ao telhado o safado volta e, claro, os homens também! Quando o cachorro chega em sua casinha e os policiais acham que vão conseguir pegá-lo, é a vez da fera perseguir os homens, que passam a correr de medo, escalando grades, correndo pela cidade até chegarem à delegacia se livrando finalmente do cachorro comilão! O filme termina com um plano de apresentação da personagem, típico dessa época: o cachorro posa de frente para a câmara com a carne na boca e um chapeuzinho de policial!

Entre o começo e o final do filme, acompanhamos a uma suspensão da narrativa, em que o mais importante passa a ser a atração que cada plano apresenta. A graça desse tipo de filme é acompanhar os obstáculos que os “corredores” vão encontrando pelo caminho e ver como eles vão se livrar deles.

Em muitos outros filmes de perseguição as mulheres têm que pular cercas, por exemplo, o que fazia seus vestidos levantarem e trazia uma carga erótica aos curtas.

Outro exemplo é um dos meus filmes preferidos, “That fatal sneeze” (1905 – ou será 1907?):

No livro de Flávia Cesarino Costa, “O primeiro cinema“, tem uma descrição muito boa:

Em That fatal sneeze, a interrupção da linearidade temporal da narrativa em cada quadro é materializada até mesmo nos espirros do protagonista. (…) Cada plano atua como suspensão do fluxo da perseguição, como um espetáculo de microatrações, confusões multiplicadas. Mas, ao mesmo tempo, cada espirro aumenta o número de prejudicados, que perseguem o pobre velho e impulsionam para a frente a temporalidade linear do relato. (p. 192)

Nesses filmes uma única linha narrativa é desenvolvida e isso é reiterado pela própria linearidade do movimento: sempre vemos todas as personagens seguirem um trajeto dentro do quadro, começando quando o plano começa e terminando para que o plano termine. Cada plano é, então, a continuação imediata da ação interrompida no plano anterior.

Diferente de uma narrativa baseada na relação entre causas e efeitos, o filme de perseguição se baseia na repetição. Os planos são ligados uns aos outros pelas personagens, pela ação da perseguição e pela relação visual que se estabelece pela direção dos movimentos. Mas, por outro lado, cada plano é um quadro quase autônomo, que tem seu interesse em si mesmo.

***

Para escrever esse post, usei principalmente os seguintes textos:

O primeiro cinema: espetáculo, narração, domesticação, de Flávia Cesarino Costa

Non-Continuity, Continuity, Discontinuity: a theory of genres in early films, de Tom Gunning (em “Early cinema: space, frame, narrative”, editado por Thomas Elsaesser)

Chase films, verbete escrito por Jonathan Auerbach (na “Encyclopedia of early cinema”, editada por Richard Abel)

Filmes citados: 

The Policemen’s little run (1907, “La Course des Sergents de Ville”, dirigido por Ferdinand Zecca)

That fatal sneeze (Hepworth Manufacturing Company, 1905 – ou 1907?, dirigido por Cecil Hepworth e Lewin Fitzhammon)

Too much Johnson (Orson Welles, 1938)

PS: Agradeço ao Caetano que, como sempre, me deu uma boa dica: foi ele que sugeriu o filme “The policemen’s little run” para esse post, que é perfeito! Não só pela graça do filme, mas porque tem tudo a ver com os Keystone Kops, influência direta do filme de Welles!

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  1. que delícia ver esses filmes! são engraçados demais! :D
    adoro acompanhar seu blog!!!
    Nunca vi os filmes de perseguição da keystone, mas estou curioso!!!

    Curtir

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