Harold Lloyd na Cinearte

Ainda sobre Harold Lloyd, um post rapidinho:

Encontrei algumas matérias com ele na Cinearte, revista carioca que durou de 1926 a 1942. Desde 1927 a Cinearte teve um correspondente exclusivo em Hollywood. O primeiro a exercer o cargo foi Lamartine S. Marinho, que conseguiu entrevistar até Greta Garbo! Em 32 ele foi substituído por Gilberto Souto, que trabalhava no Correio da Manhã e ficou nesse cargo até o fim da revista. [1] Essa seção foi muito importante para a formação da posição editorial da revista, que via no cinema americano um modelo a ser seguido pelo Brasil, de modo a criar uma indústria cinematográfica nacional, com filmes de ficção, star system e alta qualidade.

Outro comentário importante que é preciso fazer sobre a Cinearte é que ela trabalhou ativamente em defesa do cinema como arte silenciosa no período de transição, na virada dos anos 20 para os anos 30. Apesar de muitas vezes se contradizer nessa questão e acabar aceitando o cinema falado por volta de 1931, a revista publicou muitos textos que defendiam o eles chamavam de “cinema puro”, que seria uma arte baseada na imagem e no gesto.

Enfim, o caso é que encontrei essa entrevista feita com Harold Lloyd por Gilberto Souto numa edição de agosto de 1934:

Souto conversou com Lloyd em uma festa de Hal Roach em Hollywood. E já de início podemos ver as ressalvas que o correspondente faz ao cinema dublado (na transcrição que segue mantive a grafia original):

Perguntou-me elle, por exemplo, se nós receberíamos seus trabalhos com dialogos em portuguez. Elle assim tem feito em varios idiomas – naturalmente por imposição de certas leis européas, que não permittem os Films dialogados em inglez.

Disse-lhe que não. É mil vezes preferivel ouvir-se no original do que assistir a suas comedias, com dialogo em portuguez, mas falado por outras pessoas. É ridículo, artificial e estupido.

Não há coisa mais insupportavel do que as taes synchronizações – quando vemos um artista falando em nossa propria língua – é verdade, mas com os movimentos dos labios imperfeitos – resultando numa palhaçada sem gosto.

Expliquei-lhe o modo pelo qual os departamentos estrangeiros das varias empresas resolveram a questão – a apresentação de taes Films com os letreiros impressos nas scenas facilitando a comprehensão dos dialogos.

Mais adiante na entrevista, Lloyd diz que o filme preferido de sua carreira é “Grandma’s Boy” (1922), um de seus primeiros longas, cujo título em português, como aparece na Cinearte, é O Predilecto da Avózinha :)! Além da entrevista, a matéria tem também a descrição dos cenários do filme que Lloyd estava produzindo no momento, “The Cat’s Paw”, que Gilberto Souto visitou.

Vale a pena ler tudo… A matéria pode ser visualizada em três partes, aquiaqui e aqui! E as edições da Cinearte estão disponíveis neste link do Museu Lasar Segall.

Nota:

[1] Fonte: Enciclopédia do Cinema Brasileiro, Fernão Ramos e Luiz Felipe Miranda (orgs.), Editora Senac, p. 127.

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