diário da Giornate – “the freshman”

Diário da Giornate

Voltando à série de posts de preparação para a Giornate del Cinema Muto de 2013…

lonesome luke harold lloydComo eu disse nos posts anteriores, o ator Harold Lloyd conheceu o produtor Hal Roach (o mesmo que lançou “O Gordo e o Magro” e a série “Our gang”, tema deste post) logo no começo de sua carreira, quando ambos ainda trabalhavam como figurantes. Quando Roach recebeu uma herança e decidiu montar seu próprio estúdio, a Rolin Film Company, em 1913, Lloyd foi trabalhar com ele e criou suas primeiras personagens, como Willie Work e Lonesome Luke. Nessa primeira fase de sua carreira, como muitos outros comediantes da época, sua maior inspiração foi Chaplin. Mesmo quando tentava construir uma imagem oposta a ele, como dá pra ver nesse poster de Lonesome Luke ao lado, a referência ao vagabundo é clara: em vez do bigodinho logo abaixo do nariz, dois tufos separados; em vez das roupas largas, essas calças justas e curtas. O paletó apertado mal fecha os botões…

Aqui podemos ver uma comédia dessa época, “Lonesome Luke: The cinema director” (ou “Luke’s Movie Muddle”, de 1916):

Escolhi esse filme para colocar aqui (não só por ser um dos poucos que encontrei online dessa fase da carreira de Lloyd), mas porque me chamou muito a atenção. Lloyd trabalha em uma sala de cinema praticamente sozinho: ele vende os ingressos na bilheteria, recolhe logo em seguida na entrada da sala, tem o papel de lanterninha e ainda quer paquerar as espectadoras enquanto a sessão não começa. Além dele, só participam do quadro de funcionários da sala um desastrado projecionista, que acaba se enrolando todo na película e atrasando o filme, e um pianista, que faz o acompanhamento musical! É claro que o filme é uma comédia pastelão, não tem o objetivo de ser fiel à realidade, mas com certeza nos dá uma ideia de como eram as salas de cinema da época. Podemos ver, por exemplo, que uma prática tão comum nos primeiros anos do cinema como falar durante a projeção vira motivo de piada e recriminação do lanterninha, que quer calar a boca das senhoras que insistem em conversar. Muito já havia mudado na forma dos filmes e no modo de vê-los!

Depois de ter alguns problemas com o produtor Roach, trabalhar com Mack Sennett e voltar para a companhia do primeiro, com quem, apesar das brigas, tinha uma relação muito especial, ele criou sua própria produtora, a Harold Lloyd Corporation. Até o começo dos anos 1920, seus filmes tinham muita ação física, mas a partir dessa nova fase, além de passar a produzir filmes de longa metragem, ele passou a dar mais atenção à personagem e as gags (que antes recheavam os filmes de ponta a ponta) diminuíram. Ele foi, então, criando essa personagem que é um cara normal, um pouco desajeitado e distraído.

É dessa nova fase o filme que será exibido na sessão de encerramento da Giornate del Cinema Muto desse ano, “The Freshman” (1925). Esse eu ainda não consegui assistir, mas parece genial. No site da Giornate tem uma citação de Kevin Brownlow que está me deixando muito ansiosa:

[The Freshman é] um épico do embaraço!

Nesse link tem um trechinho que dá uma dica do que ele está falando!

CarlDavisO filme, que foi o maior sucesso de Lloyd na época, terá um novo acompanhamento musical criado por Carl Davis e executado pela FVG Mitteleuropa Orchestra. Davis é um compositor e regente que já trabalhou com muitos filmes silenciosos, incluindo “Napoléon” (Abel Gance, 1927), “Intolerância” (D. W. Griffith, 1916) e filmes de Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd, entre outros. Ouvindo a trilha que ele fez pro filme “A General“, de Buster Keaton, dá pra ter uma ideia do trabalho dele.

Para saber mais sobre Harold Lloyd e ver vários trechos de seus filmes (inclusive “The Freshman”), recomendo o documentário “Harold Lloyd: the third genius” (1989), de Kevin Brownlow, que está disponível online (é só clicar no título)! Vale a pena assistir, são várias entrevistas com figuras como Hal Roach, Mildred Davis e o próprio Lloyd. E a música foi feita por… Carl Davis! ;)

Aquela explicação que está nos extras do blu-ray de Safety Last! (que eu comentei nesse post) já tinha sido mostrada nesse documentário! Dá pra ver, inclusive, que ele usou a mesma técnica em outros filmes da época, que eram chamados de thrill pictures, como “High & Dizzy“.

Woman faints as Lloyd pulls rare thriller

Notícia da época sobre “Safety Last!” (1923)

***

Para terminar, uma frase do produtor Hal Roach sobre Lloyd:

Harold Lloyd não era um comediante, mas foi o melhor ator para representar um comediante que eu já vi

Acho que vale a pena pensar sobre o que isso significa… É uma frase irônica, claro. Todos sabemos que Lloyd era, sim, um comediante. Mas a ideia de ele que representava um comediante cria uma nova camada de sentido para sua personagem. Inclusive se lembrarmos que em vários de seus filmes ele aparece como the boy, sendo muitas vezes referido pelo próprio nome, Harold, ou mesmo Harold Lloyd. Não é à toa que ele não tinha uma forma de andar característica, por exemplo, como a de Chaplin, ou roupas excêntricas. É como se o próprio ator estivesse exposto, de certa forma…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s